O terrorismo e os terroristas
Nada há de mais desprezível do que o terror desencadeado contra populações civis indefesas. É a primeira conclusão a extrair das práticas bombistas, antigas e recentes. E também salta à vista, nas acções terroristas, que elas são expressamente dirigidas contra os trabalhadores e visam controlar, pelo pavor colectivo, as massas populares. Nem um só multimilionário morreu em Nova Iorque, em La Toja ou, mais recentemente, no «metro» londrino. Os mais ricos ou os altos executivos não tomam o combóio ou o autocarro. Não têm «horas de ponta». Nem são eles os alvos dos bombistas.
Por outro lado, nada haverá de mais cobarde do que usar a gramática da moral e do dever para encobrir interesses de classe. Os políticos falam-nos do que nunca explicaram. Citam a Al’Qaeda, o IRA e a ETA, o HAMAS, o Eixo do Mal ou a Jhiad Islâmica. Mas nada nos dizem acerca das suas histórias secretas. Nada revelam acerca da CIA, do M.15, do FBI ou do SIS paquistanês. Ninguém nos tentou explicar que alianças alimentam as organizações terroristas no mundo real; quem as financia, treina e organiza; que ligações ocultam com os poderosos serviços secretos ou com os «super-lobbies» económicos, políticos e militares; até que ponto serve o terrorismo para gelar de pavor o cidadão comum e o conduzir à aceitação de estados policiais e concentracionários.
Os políticos neoliberais nem sequer avançam com uma definição clara e precisa de terrorismo e de terrorista. E essa indefinição não representa um caso menor sobre o qual se possa passar olhando para o lado. Trata-se de definir conceitos éticos e políticos essenciais.
É uma questão que se arrasta. Na II Guerra Mundial, os resistentes da guerrilha eram terroristas para os nazis. Nas guerras da Coreia ou do Vietname, os militaristas norte-americanos e franceses chamavam bandidos aos lutadores pelas independências nacionais. Para os fascistas portugueses, terroristas eram os africanos que lutavam contra o sistema colonial. Importa pôr cada coisa em seu lugar. A indefinição de critérios sobre o terrorismo abre todas as portas à prática da tortura, da violação dos compromissos internacionais e dos direitos e garantias dos cidadãos. Veja-se o que se passa com Guantámano ou com as opções polémicas do Tribunal Penal Internacional.
São terroristas, sem a mínima dúvida, os que projectaram, pagaram e executaram os atentados contra transportes públicos colectivos e alvos civis. Tal como eram terroristas as forças encobertas que provocaram, nos anos 70, as chacinas da Gare de Bolonha, lançaram gases letais no «metro» de Tóquio, sabotaram aviões de passageiros ou envenenaram depósitos de água cubanos. São terroristas os especialistas em tortura das tropas de elite americanas ou os civis ao serviço da segurança das multinacionais que prosperam no Iraque ocupado e, na lógica da guerra, representam as ideias de Bush sobre a privatização militar.
Mas é injusto afirmar-se que é terrorista a resistência iraquiana que mata, em combate, o invasor ocidental. Mesmo que dessas acções resulte a morte de soldados norte-americanos, ingleses, italianos ou portugueses. Os iraquianos não podem ser culpados pelas consequências da presença indesejada de forças militares e económicas estrangeiras na sua própria pátria. Resistir é o seu direito e é o seu dever.
O terrorismo discreto
Como é hábito quando se levantam problemas desta amplitude, a Igreja foge a dar a cara. O Papa, os cardeais e os bispos de tudo vão falando, desde o aborto à educação sexual ou aos negócios da construção de novas grandes catedrais, não esquecendo a defesa do monopólio comercial da venda de relíquias religiosas dos santos católicos. Mas pouco têm intervido no debate e no esclarecimento da questão central do terrorismo e dos terroristas. Ainda que plenamente conscientes dos colossais riscos que, para os valores da humanidade, os desenvolvimentos políticos da actual situação representam.
Atrás dos aspectos cruéis do terrorismo concreto surgem, inevitavelmente, os abomináveis crimes do terrorismo discreto cometidos por agentes do poder, alegadamente em defesa do Estado democrático e das instituições da sociedade civil. Os princípios que a Constituição consagra são subalternizados. Surgem as leis de excepção. Permite-se a detenção arbitrária e liberaliza-se a prática de escutas. Cada cidadão transforma-se num polícia e num informador. A guerra global ao terrorismo é aceite como um valor ético. O medo impõe-se como fatalidade social. O terror transforma-se numa banalidade do dia a dia. Concorda-se, então, que as potências do mal devem ser destruídas.
Esta filosofia não é nova e foi claramente expressa pelos teóricos nazis.
Melhor do que ninguém sabem disso o Papa, os cardeais e os bispos. Além de, forçosamente, terem a consciência de que o branqueamento do terror tem raízes teológicas. O terrorismo sem rosto, esterilizado, limpo da perversidade dos seus objectivos e das suas implicações ascende, assim, à família dos deuses. Nada o poderá deter a não ser uma completa sujeição aos interesses dos ricos. Objectivo que o mutismo da Igreja ajuda a alcançar.
Por outro lado, nada haverá de mais cobarde do que usar a gramática da moral e do dever para encobrir interesses de classe. Os políticos falam-nos do que nunca explicaram. Citam a Al’Qaeda, o IRA e a ETA, o HAMAS, o Eixo do Mal ou a Jhiad Islâmica. Mas nada nos dizem acerca das suas histórias secretas. Nada revelam acerca da CIA, do M.15, do FBI ou do SIS paquistanês. Ninguém nos tentou explicar que alianças alimentam as organizações terroristas no mundo real; quem as financia, treina e organiza; que ligações ocultam com os poderosos serviços secretos ou com os «super-lobbies» económicos, políticos e militares; até que ponto serve o terrorismo para gelar de pavor o cidadão comum e o conduzir à aceitação de estados policiais e concentracionários.
Os políticos neoliberais nem sequer avançam com uma definição clara e precisa de terrorismo e de terrorista. E essa indefinição não representa um caso menor sobre o qual se possa passar olhando para o lado. Trata-se de definir conceitos éticos e políticos essenciais.
É uma questão que se arrasta. Na II Guerra Mundial, os resistentes da guerrilha eram terroristas para os nazis. Nas guerras da Coreia ou do Vietname, os militaristas norte-americanos e franceses chamavam bandidos aos lutadores pelas independências nacionais. Para os fascistas portugueses, terroristas eram os africanos que lutavam contra o sistema colonial. Importa pôr cada coisa em seu lugar. A indefinição de critérios sobre o terrorismo abre todas as portas à prática da tortura, da violação dos compromissos internacionais e dos direitos e garantias dos cidadãos. Veja-se o que se passa com Guantámano ou com as opções polémicas do Tribunal Penal Internacional.
São terroristas, sem a mínima dúvida, os que projectaram, pagaram e executaram os atentados contra transportes públicos colectivos e alvos civis. Tal como eram terroristas as forças encobertas que provocaram, nos anos 70, as chacinas da Gare de Bolonha, lançaram gases letais no «metro» de Tóquio, sabotaram aviões de passageiros ou envenenaram depósitos de água cubanos. São terroristas os especialistas em tortura das tropas de elite americanas ou os civis ao serviço da segurança das multinacionais que prosperam no Iraque ocupado e, na lógica da guerra, representam as ideias de Bush sobre a privatização militar.
Mas é injusto afirmar-se que é terrorista a resistência iraquiana que mata, em combate, o invasor ocidental. Mesmo que dessas acções resulte a morte de soldados norte-americanos, ingleses, italianos ou portugueses. Os iraquianos não podem ser culpados pelas consequências da presença indesejada de forças militares e económicas estrangeiras na sua própria pátria. Resistir é o seu direito e é o seu dever.
O terrorismo discreto
Como é hábito quando se levantam problemas desta amplitude, a Igreja foge a dar a cara. O Papa, os cardeais e os bispos de tudo vão falando, desde o aborto à educação sexual ou aos negócios da construção de novas grandes catedrais, não esquecendo a defesa do monopólio comercial da venda de relíquias religiosas dos santos católicos. Mas pouco têm intervido no debate e no esclarecimento da questão central do terrorismo e dos terroristas. Ainda que plenamente conscientes dos colossais riscos que, para os valores da humanidade, os desenvolvimentos políticos da actual situação representam.
Atrás dos aspectos cruéis do terrorismo concreto surgem, inevitavelmente, os abomináveis crimes do terrorismo discreto cometidos por agentes do poder, alegadamente em defesa do Estado democrático e das instituições da sociedade civil. Os princípios que a Constituição consagra são subalternizados. Surgem as leis de excepção. Permite-se a detenção arbitrária e liberaliza-se a prática de escutas. Cada cidadão transforma-se num polícia e num informador. A guerra global ao terrorismo é aceite como um valor ético. O medo impõe-se como fatalidade social. O terror transforma-se numa banalidade do dia a dia. Concorda-se, então, que as potências do mal devem ser destruídas.
Esta filosofia não é nova e foi claramente expressa pelos teóricos nazis.
Melhor do que ninguém sabem disso o Papa, os cardeais e os bispos. Além de, forçosamente, terem a consciência de que o branqueamento do terror tem raízes teológicas. O terrorismo sem rosto, esterilizado, limpo da perversidade dos seus objectivos e das suas implicações ascende, assim, à família dos deuses. Nada o poderá deter a não ser uma completa sujeição aos interesses dos ricos. Objectivo que o mutismo da Igreja ajuda a alcançar.