Delírio bushiano ameaça Colômbia de vietnamização
O derrubamento de um avião dos EUA nas selvas da Colômbia, a 13 de Fevereiro, agravou a crise endémica naquele país andino e pode determinar mudanças importantes na estratégia de Washington para a Região.
O aparelho pertencia ao Comando Sul dos EUA e a bordo seguiam quatro agentes da CIA com estatuto militar. A missão era de espionagem, no âmbito do combate à guerrilha das FARC-EP, que controlam grande parte daquele Departamento do Sudeste, o Caquetá.
Três dos espiões sobreviveram. Em comunicado divulgado no dia 24 o Estado Maior Central das FARC-EP informou que esses homens foram capturados e os considera prisioneiros de guerra. Esclareceu ainda que aceitaria a sua troca por combatentes guerrilheiros encarcerados em presídios do Governo, mediante a aceitação por Uribe de condições que definiu.
A notícia, transmitida por um porta voz da Casa Branca, de que um contingente de 150 homens, de tropas de elite, seria enviado à Colombia para tentar resgatar os três homens da CIA imprimiu um carácter explosivo ao desenvolvimento da crise.
As estruturas do Estado colombiano, debilitadas pela sua incapacidade de derrotar a insurreição guerrilheira, foram abaladas pelo acontecimento. Sobre o Governo chovem criticas; às vozes da oposição legal somam-se protestos vindos de sectores sociais muito diferenciados.
O debate sobre o Plano Colômbia e os seus objectivos inconfessados está assumindo aspectos tempestuosos.
Protectorado
O governo de Uribe - tal como fez o de Pastrana - teima em negar o óbvio, isto é, o carácter imperial do Plano Colômbia, concebido para servir a estratégia de dominação continental do sistema de poder dos EUA. Invocando a necessidade de erradicar os cultivos de coca e o narcotráfico e de promover o desenvolvimento do país, esse Plano tem como fins concretos a luta contra a insurreição guerrilheira e visa, a longo prazo, o controlo pelos EUA do conjunto da Região Amazónica, compartilhada por seis países.
A ALCA e o Plano Puebla Panamá são, aliás, iniciativas indissociáveis do Plano Colômbia no âmbito de uma estratégia integrada de recolonização total da América Latina.
Nesse contexto, a prisão dos três agentes da CIA veio criar muita dor de cabeça em Washington e Bogotá.
De repente, os dois governos quase esqueceram o propalado combate ao narcotráfico. Seria ridículo tentar relacionar a tarefa de espionagem do avião do Comando Sul com temas do mundo da droga.
Na sua coluna da revista «Semana» - a mais importante do país - o prestigiado analista António Caballero afirma que a Colômbia vive actualmente sob um regime de Protectorado. Compara-o com os existentes no Kosovo e no Afeganistão. Não sem ironia, recorre a analogias históricas que ferem o orgulho da oligarquia: «Era assim que os antigos Romanos governavam a Macedónia e a Numídia e os britânicos o Egipto e o Sudão.»
Para incómodo do presidente Uribe, destacadas personalidades da direita reconhecem que a entrada no país do contingente de tropas especiais viola de modo flagrante compromissos assumidos. O Congresso dos EUA, aliás, fixou em 400 o numero máximo de militares norte-americanos na Colômbia. Ora esse tecto foi excedido. Com uma peculiaridade: a presença desse pessoal estaria relacionada exclusivamente com tarefas de apoio logístico às Forças Armadas e de treino. No Departamento de Arauca, 70 «boinas verdes» desempenham missões de assessoria junto das tropas colombianas ali estacionadas para evitar ataques ao oleoduto que o atravessa. Agora, é diferente. A decisão unilateral de Bush e do Pentágono tripudia sobre a Constituição do país, configurando uma ofensa à independência.
É natural que em Bogotá num Congresso habitualmente passivo se elevem vozes exigindo do presidente uma tomada de posição em defesa da soberania nacional. Serão apelos inúteis. Uribe Vélez não ousará criticar a metrópole do Protectorado. Longe disso, identifica-se plenamente com o envio das tropas especiais norte-americanas.
Mas, quem sabe, a atitude de Washington pode vir a ter um desfecho muito diferente do desejado pelo Presidente e os generais do Departamento de Defesa.
Recorrendo à memória, Caballero recorda que a tentativa rocambolesca de resgatar os reféns norte-americanos presos no Irão pelo governo do ayatollah Khomeiny acabou mal, amargurando os últimos meses do mandato de Jimmy Carter.
Crimes hediondos
O presidente Uribe tem acumulado fracassos.
Tomou posse proclamando que as Forças Armadas estavam preparadas para por fim à insurreição guerrilheira. No alto comando do exército colocou generais identificados com o seu projecto de contornos fascistas. Mas, transcorridos sete meses, as anunciadas vitórias não apareceram. O Exército não conseguiu abater ou capturar um só comandante guerrilheiro apesar da colaboração recebida do corpo de «Sapos» formado por um milhão de bufos pagos pelo Tesouro. As FARC-EP passaram da defensiva à ofensiva, vibrando duros golpes nas forças da repressão.
A imagem do Exército, que durante o mandato de Pastrana atribuiu as tarefas mais sujas aos paramilitares, degradou-se muito entre a população. Presentemente já não é apenas cúmplice de crimes monstruosos. Executa-os directamente.
Nas «caserios» do Caquetá e do Meta, na ex-zona desmilitarizada, a simples presença dos militares provoca a fuga maciça dos habitantes.
Esse pavor é justificado. Destacamentos especiais, depois de assassinarem camponeses suspeitos de simpatia pela guerrilha - ouvi esse relato há dias de um comandante das FARC - cortam os corpos em pedaços e depois, percorrendo as aldeias, perguntam aos camponeses se «querem carne fresca».
O Presidente da República incentiva a violência irracional em vez de a combater. O seu envolvimento quando alcaide de Medellin com o rei da droga - Pablo Escobar - está comprovado por uma abundante documentação. Foi destituído do cargo por serviços que então lhe prestou. Como governador de Departamento de Antioquia promoveu as chamadas Associações Comunitárias - CONVIVIR, que desempenharam um papel fundamental nas campanhas de assassínio maciço de camponeses e operários. Nessa época incentivou também o paramilitarismo.
Já como presidente instaurou o estado de sítio (com um nome diferente), promulgou leis fascistas e pediu aos EUA que assumissem o controlo do mar territorial do seu país e, gradualmente, o da Amazónia. Essa abertura à penetração de Washington na Região Amazónica alarmou particularmente as Forças Armadas do Brasil.
Não surpreende que George Bush tenha chegado à conclusão de que existe uma «grande empatia» entre ele e o presidente colombiano.
Uribe fracassou também nos seus esforços para que a União Europeia responsabilizasse as FARC (apesar da inexistência de provas) pelo atentado contra o Clube Nogal, não obstante estas negarem qualquer envolvimento nessa acção terrorista.
Na América Latina, o presidente depositou grandes esperanças na Conferencia continental que convocou para o Panamá na qual pretendia que os países presentes aprovassem uma resolução condenando as FARC como organização terrorista. A iniciativa foi um fiasco. Apenas apareceram os presidentes da América Central, uma Região onde, com raras excepções, a violação dos direitos humanos é rotineira.
A caminho da vietnamização
Até ao momento em que escrevo apenas tinham chegado à Colômbia 49 militares norte-americanos dos 150 anunciados. Essa informação foi dada em Washington por uma fonte do Senado que não soube esclarecer qual a missão exacta desses homens no apoio aos 4000 colombianos empenhados na operação de resgate dos homens da CIA.
Em Bogotá a imprensa publicou a informação, mas o governo e o exército abstiveram-se de a comentar.
Um véu de mistério envolve a chegada do destacamento de tropas especiais dos EUA. Inicialmente informou-se que seriam elementos do corpo de Marines. Mas depois sucederam-se notícias contraditórias, que ampliaram a desinformação, desencadeando uma vaga de especulações.
Quantos militares enviou, afinal, o Pentágono, quem são e como vão participar na busca que se desenvolve numa área de 8 000 quilómetros quadrados? Ignora-se.
Nos EUA os grandes jornais e a televisão estabelecem paralelos com o Afeganistão, admitindo a possibilidade de uma intervenção directa que poderia determinar uma viragem no conflito colombiano, internacionalizando-o.
Adrian Isacson, um especialista do Centro de Política Internacional, preconiza um endurecimento. Na sua opinião os militares colombianos devem cumprir o papel «da Aliança do Norte no Afeganistão. Nós treinamo-los, armamo-los e participamos em operações em certas zonas».
Lawrence Ferguson, o comandante da XVIII Brigada de «boinas verdes», instalada no Arauca, tem um discurso parecido: «Olhem para o Afeganistão - sugere. A razão do êxito ali foi a nossa colaboração plena com as tropas locais (1).
Das supostas analogias entre o Afeganistão e a Colômbia transparece a ignorância histórica e a ausência de formação política dos seus autores. Reflectem a incultura do militar norte-americano típico. Entretanto, análises como a de Ferguson encontram grande receptividade no corpo de oficiais do exército dos EUA.
A Colombia não é uma sociedade centro-asiática multinacional. Nela não há comunidades como a tadjique e a pachtun envolvidas em guerras seculares. O jogo de alianças ali possível não é comparável.
A US Army, a US Air Force e a US Navy lançaram dezenas de milhares de toneladas de bombas e mísseis sobre Kabul, Kandahar, Herat, Kunduz, Mazar-i-Charif, Gahzni e outras cidades afegãs. Não podem bombardear Bogotá, Medellin, Cali, Barranquilla, Cartagena de Índias, nem qualquer outra metrópole colombiana.
Washington promoveu a destruição de muitas aldeias afegãs e as suas tropas praticaram ali massacres repugnantes. Se na Colômbia fosse repetida a receita, arrasando aldeias na montanha, nos vales e na selva desdencadeariam uma vaga de revolta não apenas do povo colombiano como em toda a América Latina.
Entretanto, muita gente nos EUA discorda do envio de tropas operacionais para a Colômbia.
Frida Gihits expressa no influente «Los Angeles Times» a posição dos que temem a vietnamização da guerra civil naquele país. «Como reagirá -pergunta - a opinião publica quando souber que o sangue norte-americano corre na Colômbia? Será que se vai assistir a outra Somália ou a outro Vietname?»
Incertezas
Bush declarou enfaticamente que os EUA condenam a fórmula da troca de prisioneiros proposta pelas FARC. Mas acrescentou que recorrerá a todos os meios necessários para libertar os seus compatriotas, isto é os três agentes da CIA. Que meios tem em mente?
Essa atitude rígida tornou ainda mais difícil a posição de Uribe. Embora se tenha sempre recusado a discutir seriamente o tema da troca de prisioneiros, o presidente encontra-se submetido a pressões convergentes no sentido de a negociar com a guerrilha, tal como fez Pastrana.
Entre os 80 prisioneiros que as FARC se propõe a libertar no âmbito de um acordo garantido por instituições internacionais figuram - além de 57 oficiais e sargentos do Exercito e da Polícia - 23 civis entre os quais influentes personalidades, como Ingrid Bentancourt, ex-candidata à Presidência da República, e Gilberto Echeverry Mejia, ex-ministro da Defesa, alcaides, parlamentares, e vereadores. A captura dos três agentes da CIA contribuiu para reforçar as pressões das famílias.
A alternativa à aceitação do diálogo suscita preocupações mesmo entre as Forças Armadas. O Exército e a Força Aérea foram colocados perante uma situação dilemática em que as saídas prováveis são todas negativas.
A libertação dos «gringos presos» como o povo diz surge como hipótese muito improvável. Segundo o defensor do povo, Eduardo Cifuentes, declarou a «El Tiempo», os homens da CIA já devem ter sido retirados da zona. Em Junho de 2001 as FARC conseguiram reunir em La Macarena, uma aldeia perdida nas florestas do Guayabero, no Departamento do Meta, 304 prisioneiros e entregá-los ali à Cruz Vermelha. Esses homens, todos militares, vieram de lugares muito distantes. As FARC fizeram-nos passar autenticamente pelas barbas do inimigo, através de rios, montanhas, pântanos, e espessas selvas.
Estava ali. Assisti então à cerimonia da sua libertação e à parada militar que assinalou o acontecimento: um desfile de 4000 combatentes das FARC-EP. Quem demonstrou capacidade logística para tal proeza deve ter procurado para os três CIAS esconderijo seguro.
Mas admitindo que ainda se encontrem na região onde foram capturados, em algum lugar de acesso difícil, o seu resgate apresentaria problemas quase insuperáveis. Não é alias de excluir a hipótese de que venham a ser
vítimas de algum bombardeamento, como ocorreu com anteriores operações de busca de prisioneiros.
A entrada em cena dos tropas de elite dos EUA pode contribuir para aumentar o descontentamento popular se a operação desembocar num fracasso.
No Exército colombiano a cooperação no terreno dos militares norte-americanos não é desejada. Muitos generais gostariam que eles não fossem além das missões de assessoria. Como combatentes podem estorvar, mais do que ajudar.
A selva colombiana não é um lugar onde a guerra se desenvolva como nos filmes de Holywood. Os revolucionários das FARC-EP são formidáveis guerreiros que conhecem a palmos o terreno e se movimentam nele como peixes na água. Não será o caso dos militares dos EUA. Os Rambos ali entram numa sucursal do inferno, vão descobrir inimigos desconhecidos: mosquitos, serpentes, pântanos, desintegrais, doenças endémicas, chuvas diluvianas, uma humidade que destroi os pulmões.
Que acontecerá a esse destacamento de tropas de elite se - o que ainda é duvidoso - for enviado para o Caquetá ao som de trombetas? As FARC já dissiparam dúvidas. Os militares gringos seriam recebidos como invasores e com o tal combatidos. A guerrilha de Manuel Marulanda assumiria a defesa da soberania nacional.
A internacionalização da guerra não alteraria a estratégia das FARC-EP. Elas continuarão - como lembra o comandante Raul Reyes na Revista Resistência - « a desenvolver a sua invariável política de combinar todas as formas de luta revolucionária até conquistarem o poder político para construir com os despossuídos e excluídos da nossa Pátria, um novo estado, com um regime político que garanta os direitos e liberdades dos cidadãos e faça da Colômbia uma nação independente e soberana, sem fome, com emprego e salários ajustados aos preços da cesta familiar, na qual o Estado assegure gratuitamente a saúde e a educação.» (2)
A margem de poder decisório de Bush é muito menor do que parece. Mas neste caso terá sido ele - segundo os órgãos de comunicação - o responsável pela decisão de enviar um pequeno contingente de tropas de combate para a Colômbia.
No seu delírio megalómano este político primário e de escassa inteligência, pode, empurrado pela sua fome de violência e de falsas glórias, ter criado condições para uma nova tragédia: a vietnamização do conflito colombiano.
_____
(1) As citações relativas às reacções nos EUA à intervenção de tropas norte-americanas na Colômbia foram extraídas do diário «El Tiempo», de Bogotá.
(2) in Resistência, nº30, julio-Octubre de 2002
A notícia, transmitida por um porta voz da Casa Branca, de que um contingente de 150 homens, de tropas de elite, seria enviado à Colombia para tentar resgatar os três homens da CIA imprimiu um carácter explosivo ao desenvolvimento da crise.
As estruturas do Estado colombiano, debilitadas pela sua incapacidade de derrotar a insurreição guerrilheira, foram abaladas pelo acontecimento. Sobre o Governo chovem criticas; às vozes da oposição legal somam-se protestos vindos de sectores sociais muito diferenciados.
O debate sobre o Plano Colômbia e os seus objectivos inconfessados está assumindo aspectos tempestuosos.
Protectorado
O governo de Uribe - tal como fez o de Pastrana - teima em negar o óbvio, isto é, o carácter imperial do Plano Colômbia, concebido para servir a estratégia de dominação continental do sistema de poder dos EUA. Invocando a necessidade de erradicar os cultivos de coca e o narcotráfico e de promover o desenvolvimento do país, esse Plano tem como fins concretos a luta contra a insurreição guerrilheira e visa, a longo prazo, o controlo pelos EUA do conjunto da Região Amazónica, compartilhada por seis países.
A ALCA e o Plano Puebla Panamá são, aliás, iniciativas indissociáveis do Plano Colômbia no âmbito de uma estratégia integrada de recolonização total da América Latina.
Nesse contexto, a prisão dos três agentes da CIA veio criar muita dor de cabeça em Washington e Bogotá.
De repente, os dois governos quase esqueceram o propalado combate ao narcotráfico. Seria ridículo tentar relacionar a tarefa de espionagem do avião do Comando Sul com temas do mundo da droga.
Na sua coluna da revista «Semana» - a mais importante do país - o prestigiado analista António Caballero afirma que a Colômbia vive actualmente sob um regime de Protectorado. Compara-o com os existentes no Kosovo e no Afeganistão. Não sem ironia, recorre a analogias históricas que ferem o orgulho da oligarquia: «Era assim que os antigos Romanos governavam a Macedónia e a Numídia e os britânicos o Egipto e o Sudão.»
Para incómodo do presidente Uribe, destacadas personalidades da direita reconhecem que a entrada no país do contingente de tropas especiais viola de modo flagrante compromissos assumidos. O Congresso dos EUA, aliás, fixou em 400 o numero máximo de militares norte-americanos na Colômbia. Ora esse tecto foi excedido. Com uma peculiaridade: a presença desse pessoal estaria relacionada exclusivamente com tarefas de apoio logístico às Forças Armadas e de treino. No Departamento de Arauca, 70 «boinas verdes» desempenham missões de assessoria junto das tropas colombianas ali estacionadas para evitar ataques ao oleoduto que o atravessa. Agora, é diferente. A decisão unilateral de Bush e do Pentágono tripudia sobre a Constituição do país, configurando uma ofensa à independência.
É natural que em Bogotá num Congresso habitualmente passivo se elevem vozes exigindo do presidente uma tomada de posição em defesa da soberania nacional. Serão apelos inúteis. Uribe Vélez não ousará criticar a metrópole do Protectorado. Longe disso, identifica-se plenamente com o envio das tropas especiais norte-americanas.
Mas, quem sabe, a atitude de Washington pode vir a ter um desfecho muito diferente do desejado pelo Presidente e os generais do Departamento de Defesa.
Recorrendo à memória, Caballero recorda que a tentativa rocambolesca de resgatar os reféns norte-americanos presos no Irão pelo governo do ayatollah Khomeiny acabou mal, amargurando os últimos meses do mandato de Jimmy Carter.
Crimes hediondos
O presidente Uribe tem acumulado fracassos.
Tomou posse proclamando que as Forças Armadas estavam preparadas para por fim à insurreição guerrilheira. No alto comando do exército colocou generais identificados com o seu projecto de contornos fascistas. Mas, transcorridos sete meses, as anunciadas vitórias não apareceram. O Exército não conseguiu abater ou capturar um só comandante guerrilheiro apesar da colaboração recebida do corpo de «Sapos» formado por um milhão de bufos pagos pelo Tesouro. As FARC-EP passaram da defensiva à ofensiva, vibrando duros golpes nas forças da repressão.
A imagem do Exército, que durante o mandato de Pastrana atribuiu as tarefas mais sujas aos paramilitares, degradou-se muito entre a população. Presentemente já não é apenas cúmplice de crimes monstruosos. Executa-os directamente.
Nas «caserios» do Caquetá e do Meta, na ex-zona desmilitarizada, a simples presença dos militares provoca a fuga maciça dos habitantes.
Esse pavor é justificado. Destacamentos especiais, depois de assassinarem camponeses suspeitos de simpatia pela guerrilha - ouvi esse relato há dias de um comandante das FARC - cortam os corpos em pedaços e depois, percorrendo as aldeias, perguntam aos camponeses se «querem carne fresca».
O Presidente da República incentiva a violência irracional em vez de a combater. O seu envolvimento quando alcaide de Medellin com o rei da droga - Pablo Escobar - está comprovado por uma abundante documentação. Foi destituído do cargo por serviços que então lhe prestou. Como governador de Departamento de Antioquia promoveu as chamadas Associações Comunitárias - CONVIVIR, que desempenharam um papel fundamental nas campanhas de assassínio maciço de camponeses e operários. Nessa época incentivou também o paramilitarismo.
Já como presidente instaurou o estado de sítio (com um nome diferente), promulgou leis fascistas e pediu aos EUA que assumissem o controlo do mar territorial do seu país e, gradualmente, o da Amazónia. Essa abertura à penetração de Washington na Região Amazónica alarmou particularmente as Forças Armadas do Brasil.
Não surpreende que George Bush tenha chegado à conclusão de que existe uma «grande empatia» entre ele e o presidente colombiano.
Uribe fracassou também nos seus esforços para que a União Europeia responsabilizasse as FARC (apesar da inexistência de provas) pelo atentado contra o Clube Nogal, não obstante estas negarem qualquer envolvimento nessa acção terrorista.
Na América Latina, o presidente depositou grandes esperanças na Conferencia continental que convocou para o Panamá na qual pretendia que os países presentes aprovassem uma resolução condenando as FARC como organização terrorista. A iniciativa foi um fiasco. Apenas apareceram os presidentes da América Central, uma Região onde, com raras excepções, a violação dos direitos humanos é rotineira.
A caminho da vietnamização
Até ao momento em que escrevo apenas tinham chegado à Colômbia 49 militares norte-americanos dos 150 anunciados. Essa informação foi dada em Washington por uma fonte do Senado que não soube esclarecer qual a missão exacta desses homens no apoio aos 4000 colombianos empenhados na operação de resgate dos homens da CIA.
Em Bogotá a imprensa publicou a informação, mas o governo e o exército abstiveram-se de a comentar.
Um véu de mistério envolve a chegada do destacamento de tropas especiais dos EUA. Inicialmente informou-se que seriam elementos do corpo de Marines. Mas depois sucederam-se notícias contraditórias, que ampliaram a desinformação, desencadeando uma vaga de especulações.
Quantos militares enviou, afinal, o Pentágono, quem são e como vão participar na busca que se desenvolve numa área de 8 000 quilómetros quadrados? Ignora-se.
Nos EUA os grandes jornais e a televisão estabelecem paralelos com o Afeganistão, admitindo a possibilidade de uma intervenção directa que poderia determinar uma viragem no conflito colombiano, internacionalizando-o.
Adrian Isacson, um especialista do Centro de Política Internacional, preconiza um endurecimento. Na sua opinião os militares colombianos devem cumprir o papel «da Aliança do Norte no Afeganistão. Nós treinamo-los, armamo-los e participamos em operações em certas zonas».
Lawrence Ferguson, o comandante da XVIII Brigada de «boinas verdes», instalada no Arauca, tem um discurso parecido: «Olhem para o Afeganistão - sugere. A razão do êxito ali foi a nossa colaboração plena com as tropas locais (1).
Das supostas analogias entre o Afeganistão e a Colômbia transparece a ignorância histórica e a ausência de formação política dos seus autores. Reflectem a incultura do militar norte-americano típico. Entretanto, análises como a de Ferguson encontram grande receptividade no corpo de oficiais do exército dos EUA.
A Colombia não é uma sociedade centro-asiática multinacional. Nela não há comunidades como a tadjique e a pachtun envolvidas em guerras seculares. O jogo de alianças ali possível não é comparável.
A US Army, a US Air Force e a US Navy lançaram dezenas de milhares de toneladas de bombas e mísseis sobre Kabul, Kandahar, Herat, Kunduz, Mazar-i-Charif, Gahzni e outras cidades afegãs. Não podem bombardear Bogotá, Medellin, Cali, Barranquilla, Cartagena de Índias, nem qualquer outra metrópole colombiana.
Washington promoveu a destruição de muitas aldeias afegãs e as suas tropas praticaram ali massacres repugnantes. Se na Colômbia fosse repetida a receita, arrasando aldeias na montanha, nos vales e na selva desdencadeariam uma vaga de revolta não apenas do povo colombiano como em toda a América Latina.
Entretanto, muita gente nos EUA discorda do envio de tropas operacionais para a Colômbia.
Frida Gihits expressa no influente «Los Angeles Times» a posição dos que temem a vietnamização da guerra civil naquele país. «Como reagirá -pergunta - a opinião publica quando souber que o sangue norte-americano corre na Colômbia? Será que se vai assistir a outra Somália ou a outro Vietname?»
Incertezas
Bush declarou enfaticamente que os EUA condenam a fórmula da troca de prisioneiros proposta pelas FARC. Mas acrescentou que recorrerá a todos os meios necessários para libertar os seus compatriotas, isto é os três agentes da CIA. Que meios tem em mente?
Essa atitude rígida tornou ainda mais difícil a posição de Uribe. Embora se tenha sempre recusado a discutir seriamente o tema da troca de prisioneiros, o presidente encontra-se submetido a pressões convergentes no sentido de a negociar com a guerrilha, tal como fez Pastrana.
Entre os 80 prisioneiros que as FARC se propõe a libertar no âmbito de um acordo garantido por instituições internacionais figuram - além de 57 oficiais e sargentos do Exercito e da Polícia - 23 civis entre os quais influentes personalidades, como Ingrid Bentancourt, ex-candidata à Presidência da República, e Gilberto Echeverry Mejia, ex-ministro da Defesa, alcaides, parlamentares, e vereadores. A captura dos três agentes da CIA contribuiu para reforçar as pressões das famílias.
A alternativa à aceitação do diálogo suscita preocupações mesmo entre as Forças Armadas. O Exército e a Força Aérea foram colocados perante uma situação dilemática em que as saídas prováveis são todas negativas.
A libertação dos «gringos presos» como o povo diz surge como hipótese muito improvável. Segundo o defensor do povo, Eduardo Cifuentes, declarou a «El Tiempo», os homens da CIA já devem ter sido retirados da zona. Em Junho de 2001 as FARC conseguiram reunir em La Macarena, uma aldeia perdida nas florestas do Guayabero, no Departamento do Meta, 304 prisioneiros e entregá-los ali à Cruz Vermelha. Esses homens, todos militares, vieram de lugares muito distantes. As FARC fizeram-nos passar autenticamente pelas barbas do inimigo, através de rios, montanhas, pântanos, e espessas selvas.
Estava ali. Assisti então à cerimonia da sua libertação e à parada militar que assinalou o acontecimento: um desfile de 4000 combatentes das FARC-EP. Quem demonstrou capacidade logística para tal proeza deve ter procurado para os três CIAS esconderijo seguro.
Mas admitindo que ainda se encontrem na região onde foram capturados, em algum lugar de acesso difícil, o seu resgate apresentaria problemas quase insuperáveis. Não é alias de excluir a hipótese de que venham a ser
vítimas de algum bombardeamento, como ocorreu com anteriores operações de busca de prisioneiros.
A entrada em cena dos tropas de elite dos EUA pode contribuir para aumentar o descontentamento popular se a operação desembocar num fracasso.
No Exército colombiano a cooperação no terreno dos militares norte-americanos não é desejada. Muitos generais gostariam que eles não fossem além das missões de assessoria. Como combatentes podem estorvar, mais do que ajudar.
A selva colombiana não é um lugar onde a guerra se desenvolva como nos filmes de Holywood. Os revolucionários das FARC-EP são formidáveis guerreiros que conhecem a palmos o terreno e se movimentam nele como peixes na água. Não será o caso dos militares dos EUA. Os Rambos ali entram numa sucursal do inferno, vão descobrir inimigos desconhecidos: mosquitos, serpentes, pântanos, desintegrais, doenças endémicas, chuvas diluvianas, uma humidade que destroi os pulmões.
Que acontecerá a esse destacamento de tropas de elite se - o que ainda é duvidoso - for enviado para o Caquetá ao som de trombetas? As FARC já dissiparam dúvidas. Os militares gringos seriam recebidos como invasores e com o tal combatidos. A guerrilha de Manuel Marulanda assumiria a defesa da soberania nacional.
A internacionalização da guerra não alteraria a estratégia das FARC-EP. Elas continuarão - como lembra o comandante Raul Reyes na Revista Resistência - « a desenvolver a sua invariável política de combinar todas as formas de luta revolucionária até conquistarem o poder político para construir com os despossuídos e excluídos da nossa Pátria, um novo estado, com um regime político que garanta os direitos e liberdades dos cidadãos e faça da Colômbia uma nação independente e soberana, sem fome, com emprego e salários ajustados aos preços da cesta familiar, na qual o Estado assegure gratuitamente a saúde e a educação.» (2)
A margem de poder decisório de Bush é muito menor do que parece. Mas neste caso terá sido ele - segundo os órgãos de comunicação - o responsável pela decisão de enviar um pequeno contingente de tropas de combate para a Colômbia.
No seu delírio megalómano este político primário e de escassa inteligência, pode, empurrado pela sua fome de violência e de falsas glórias, ter criado condições para uma nova tragédia: a vietnamização do conflito colombiano.
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(1) As citações relativas às reacções nos EUA à intervenção de tropas norte-americanas na Colômbia foram extraídas do diário «El Tiempo», de Bogotá.
(2) in Resistência, nº30, julio-Octubre de 2002