Os refugiados, a paz e o negócio das armas

Jorge Messias
Aqueles que chamaram a África o Continente Esquecido estão a ser desautorizados pelos factos. África é constantemente recordada pela pior das razões. Em terras africanas há fartura de petróleo e abundância de miséria, factores inestimáveis para o projecto capitalista da expansão. Breve chegarão os dias em que os países industrializados deixarão de depender apenas do Golfo Pérsico. O petróleo africano poderá tornar-se mais abundante e barato que aquele que a Arábia Saudita fornece actualmente. Sem os custos astronómicos das guerras do Iraque e sem os super-petroleiros. Apenas com a divisão antagónica dos povos nativos e com a ocupação económica das terras africanas. E África, para além do petróleo, tem outros recursos naturais prontos para saquear: madeiras raras, platina e crómio, diamantes, urânio, manganês, a pesca inesgotável, os paraísos turísticos, gás natural, etc.
Toda a estratégia capitalista obedece a uma minuciosa planificação. Actualmente, já não se pode conceber isoladamente qualquer acção do imperialismo. As suas tácticas são traçadas à escala planetária. O grande capital concebe fases planeadas e prazos a cumprir. Neste sentido, instalou um governo mundial: o Fundo Monetário Internacional ou, abreviadamente, o FMI. Uma gigantesca central construída em torno de um núcleo duro - o G8, punho monetário dos países mais ricos e mais industrializados. Importa ter-se uma ideia de como estes mecanismos funcionam.
O Fundo Monetário Internacional, com sede nos EUA, conta com mais de uma centena de países accionistas. No acto de adesão, cada um desses estados subscreve uma quota proporcional à sua capacidade financeira. Esta proporcionalidade traduz-se, depois, em votos: se o país é rico, passa a dispor de muitos votos nas decisões do FMI; se for menos rico, apenas tem a força que a sua pobreza relativa ditar. À escala mundial, o FMI funciona como um banco. Qualquer país pode recorrer aos seus cofres para obter empréstimos (direito de saque). Porém, a partir de então, as suas contas públicas passam a ser examinadas pelo FMI que pode exigir dos governos a tomada das medidas que considere necessárias. O FMI torna-se automaticamente o grande senhor dos estados insolventes e desempenha aí o seu papel de autocrático agente monetária de intervenção dos sistemas fortes nos países fracos. Controla e comanda uma poderosa rede de outras instituições financeiras, com destaque para o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o Acordo Multilateral de Investimentos, o Banco Africano de Desenvolvimento, etc.

O clube dos «cinco»

É pelo G8 que passam os mecanismos de segurança do FMI. Trata-se de um clube dos mais ricos entre os países ricos, com poderes de directório político. O seu funcionamento interno obedece aos esquemas orgânicos do FMI. No G8, o seu membro financeiramente mais forte (os EUA) possui um lote de votos esmagador. Os representantes norte-americanos alimentam internamente alianças de interesses que formam cartel com os outros quatro países mais industrializados, a Rússia, o Japão, a Alemanha e a Inglaterra. No quadro dos «oito», são estes «cinco» que governam o mundo.
Formalmente, o G8 declara-se defensor dos pobres, tal como, aliás, o Vaticano. Na prática, porém, os estados que o compõem são responsáveis pelos mais altos níveis de poluição industrial, pela pobreza e pela miséria dos povos, pela corrupção dos aparelhos de Estado, pela sonegação das tecnologias que deveriam estar ao serviço de todos, pelo controlo comercial dos medicamentos e pela produção e venda maciça dos armamentos exportados para os países pobres. Abordando este último aspecto, a Amnistia Internacional denunciou, há poucos dias, que «os membros do G.8 anunciaram um acordo histórico contra a pobreza mas estão a vender armamento aos países pobres, contribuindo para a violação dos direitos humanos. A venda de armas ligeiras atingiu, em 2003, os 28.7 biliões de dólares. Os estados do G.8 são responsáveis por 80% de todas as exportações de armas». Estes sinais de alto risco agravaram-se com a recente notícia de que a China estará presente ao mais alto nível, como observadora, no próximo encontro da G8, na primeira semana de Julho.
O continente africano continua, entretanto, a ser percorrido por multidões, sem eira nem beira, que procuram fugir às guerras, à sede e à fome, às doenças e ao destino desumano que as marcou a fogo. Os responsáveis pelas guerras chamam a estes seres humanos, refugiados. Mas o termo não pode ser-lhes aplicado, visto que simplesmente vagueiam, sem destino certo, guiadas pelo instinto da conservação. O que não parece abalar o optimismo de António Guterres ou de Durão Barroso. Com eles, tudo vai bem. Visitam as áreas da miséria e logo partem para Washington, para a Escócia ou para Davos. Estão certos de que não faltarão os generosos apoios do FMI e do G8. Tal como se for necessário, é evidente, os milagres do «Óbolo de S. Pedro».


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