A entrevista
Maria João Avilez convidou Ruben de Carvalho para o seu «Outras Conversas» e Ruben aceitou o convite. Corajosamente, acrescente-se, porque é preciso ter coragem para ser de esquerda E IR AO «Outras Conversas» enfrentar com suficiente pachorra uma entrevistadora longamente especializada em pequenas mas envenenadas armadilhas, coisinhas não apenas sugeridas, tudo em molho de constante animosidade muito mal disfarçada. Ruben de Carvalho fez prova de dispor de suficiente pachorra, como se viu e ouviu sobretudo no primeiro terço do programa, quando Maria João Avilez se entregou ao exercício perverso de tentar que o entrevistado confirmasse, ou pelo menos parecesse confirmar, algumas das mal-intencionadas fantasias que a direita mais agressiva que inteligente se compraz em tecer sobre a vida interna do PCP. No caso, tratou-se sobretudo da suposta redução de actividade do Partido Comunista ao mero cumprimento das orientações ditadas por Álvaro Cunhal mesmo depois da sua substituição como secretário-geral. Parece que em cérebros como o de Maria João Avilez não cabe a ideia, contudo nada estranha nem complexa, de no PCP haver muitos mais comunistas, e comunistas lúcidos e honrados, além de Cunhal, pelo que nunca foi preciso que o antigo secretário-geral «desse ordens» para que o seu partido continuasse a ser tão comunista quanto a coerência e a razão mandam. Isto, naturalmente, sem prejuízo da enorme estatura intelectual e militante de Álvaro Cunhal, sempre credora da maior admiração mas não necessariamente de obediência, conceito estranho à vida interna do Partido. Percebe-se e aceita-se que Maria João Avilez não perceba muito bem isto, não por estreiteza mental mas sim por ter maior e melhor conhecimento de partidos diferentes, mas já não é possível aceitar que parta de devaneios anticomunistas cristalizados em esclerose para enformar uma boa parte de uma entrevista de televisão.
Ser livre para escrever
Porém, ainda estava por vir a pior e mais feia parte, pelo menos para meu gosto. Aconteceu quando Ruben de Carvalho, a propósito do seu longo período de trabalho na redacção do «Avante!», caracterizou em dois ou três adjectivos justíssimos a actividade jornalística aqui prosseguida. Nessa altura, achou Maria João adequado intercalar quase entre dentes uma palavra que desejaria acrescentar à resposta de Ruben, uma palavra que no seu condicionado entendimento, ou talvez no seu não muito dissimulado desejo, faltaria: «livre». Assim insinuou ela, em perfeita integração na ininterrupta campanha anti-PCP sempre em curso, que a escrita dos redactores e colaboradores do «Avante!» não seria livre, mas disparou a ampolazinha de veneno de tão discreta maneira que estou convencido de que Ruben de Carvalho mal deu por ela ou, talvez melhor, só dela se deu conta quando passara o tempo de lhe dar resposta. Ou talvez antes tenha preferido ignorar provocação tão rasteirinha, não sei. O que sei, e isso sei eu lindamente por ser sabedoria resultante de experiência própria, é que, depois de durante décadas ter escrito para diversos jornais de Lisboa e não só, antes e depois de 74, nunca me senti tão livre de escrever o que penso como ao escrever para o «Avante!». E note-se que isto nem sequer significa menor democraticidade dos jornais onde actualmente colaboro, mas tem a ver com o facto de as convicções de um homem de esquerda nem sempre ficarem optimamente num contexto onde, muitas vezes, a óbvia pertença ao PCP ser considerada como uma espécie de defeito só suportável graças a um esforço democrático. Assim, só nestas colunas me sinto inteiramente livre, e decerto não sou caso único, longe disso. Complementarmente, há por aí muitos jornais onde o meu nome não é nada desejado, antes pelo contrário, e contudo suspeito que não o será por eu escrever muito pior que a generalidade dos que lhes habitam as colunas. Suponho, com algumas razões para isso, que essa é a imprensa que Maria João Avilez considera mais livre que a redacção do «Avante!», ignorando a circunstância contudo óbvia de que entre um jornal e quem lá escreve tem de haver uma mínima convergência de entendimentos básicos.
Muito para lá disso, porém, o importante naquela entrevista, falhada quanto às feias tentativas da entrevistadora, foi a completa capacidade do entrevistado para esquivar provocações, desfazer inverdades ou apenas equívocos, evidenciar sabedorias e competências. Não foi nada que eu não esperasse, é certo. Pergunto-me se Maria João Avilez teria a esperança de que fosse coisa diferente.
Ser livre para escrever
Porém, ainda estava por vir a pior e mais feia parte, pelo menos para meu gosto. Aconteceu quando Ruben de Carvalho, a propósito do seu longo período de trabalho na redacção do «Avante!», caracterizou em dois ou três adjectivos justíssimos a actividade jornalística aqui prosseguida. Nessa altura, achou Maria João adequado intercalar quase entre dentes uma palavra que desejaria acrescentar à resposta de Ruben, uma palavra que no seu condicionado entendimento, ou talvez no seu não muito dissimulado desejo, faltaria: «livre». Assim insinuou ela, em perfeita integração na ininterrupta campanha anti-PCP sempre em curso, que a escrita dos redactores e colaboradores do «Avante!» não seria livre, mas disparou a ampolazinha de veneno de tão discreta maneira que estou convencido de que Ruben de Carvalho mal deu por ela ou, talvez melhor, só dela se deu conta quando passara o tempo de lhe dar resposta. Ou talvez antes tenha preferido ignorar provocação tão rasteirinha, não sei. O que sei, e isso sei eu lindamente por ser sabedoria resultante de experiência própria, é que, depois de durante décadas ter escrito para diversos jornais de Lisboa e não só, antes e depois de 74, nunca me senti tão livre de escrever o que penso como ao escrever para o «Avante!». E note-se que isto nem sequer significa menor democraticidade dos jornais onde actualmente colaboro, mas tem a ver com o facto de as convicções de um homem de esquerda nem sempre ficarem optimamente num contexto onde, muitas vezes, a óbvia pertença ao PCP ser considerada como uma espécie de defeito só suportável graças a um esforço democrático. Assim, só nestas colunas me sinto inteiramente livre, e decerto não sou caso único, longe disso. Complementarmente, há por aí muitos jornais onde o meu nome não é nada desejado, antes pelo contrário, e contudo suspeito que não o será por eu escrever muito pior que a generalidade dos que lhes habitam as colunas. Suponho, com algumas razões para isso, que essa é a imprensa que Maria João Avilez considera mais livre que a redacção do «Avante!», ignorando a circunstância contudo óbvia de que entre um jornal e quem lá escreve tem de haver uma mínima convergência de entendimentos básicos.
Muito para lá disso, porém, o importante naquela entrevista, falhada quanto às feias tentativas da entrevistadora, foi a completa capacidade do entrevistado para esquivar provocações, desfazer inverdades ou apenas equívocos, evidenciar sabedorias e competências. Não foi nada que eu não esperasse, é certo. Pergunto-me se Maria João Avilez teria a esperança de que fosse coisa diferente.