Colonização pela fome

Jorge Messias
Em recente reunião preparatória, os membros do G8 (os sete países mais industrializados, além da Rússia) decidiram perdoar a dívida contraída por 18 países africanos e latino-americanos, no valor de 33 mil milhões de euros. A notícia deixou os observadores confusos. Que doce milagre se teria manifestado entre os super-banqueiros do G8? E, por quê, aquele lote de 18 países subdesenvolvidos quando, em idênticas circunstâncias, vivem 62 nações, em todo o mundo?
Mais tarde, vieram a conhecer-se alguns detalhes desta sensacional decisão. Soube-se que a proposta tinha sido sugerida e apoiada pelos representantes ingleses e norte-americanos, sem que alcançasse maioria entre os restantes membros do G8. A decisão final terá, assim, de ser conseguida durante a próxima reunião magna entre os chefes de estado e dos governo dos países do G8, a realizar na Escócia, no mês de Julho.
Por outro lado, foi divulgado que os perdões das dívidas estavam condicionados à aceitação prévia de duas condições. Cada estado beneficiado com o perdão comprometer-se-ia a aceitar um plano comum para o combate à corrupção, elaborado a nível do G.8. Por outro lado, na área política, teria de obrigar-se a respeitar os padrões de um «modelo» de governo de tipo europeu e ocidental. O documento é omisso quanto às consequências de eventuais resistências a estas condições, por parte dos países subdesenvolvidos. Também nada refere quanto à natureza da dívida a perdoar (se é só a pública ou a pública e a privada) e se os valores dos juros acumulados também estão compreendidos no perdão. Mas foi anunciado que as medidas abrangerão todas as dívidas caucionadas pelo Banco Africano de Desenvolvimento, pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial. Ou seja, por todas as superestruturas do sistema monetário internacional. De um só golpe, o G.8 instala no terceiro mundo um império colonial de novo tipo. Os países que ousarem resistir às suas proposta ficarão de antemão isolados e condenados à miséria e ao bloqueio económico.
Não se conhecem, pelo menos por enquanto, reacções do Vaticano a esta imposição dos países mais ricos. Mas será curioso recordar neste momento o projecto que a Igreja já há alguns anos apresentou, nos quadros da sua Nova Ordem Mundial. As grandes linhas desse documento estão contidas na encíclica «A Solicitude Social da Igreja», assinada por João Paulo II mas cujo verdadeiro arquitecto terá sido o cardeal Joseph Ratzinger.
Tratava-se, segundo se afirma na encíclica, de salvaguardar os direitos fundamentais da pessoa humana, através da reforma radical das instituições políticas e económicas. Assim, propunha-se: a reforma do sistema internacional de comércio; a correcção da divisão internacional de trabalho; um novo sistema monetário e financeiro mundial; a reforma do sistema de intercâmbio de tecnologias e das suas transferências; e a revisão das estruturas das organizações internacionais existentes. Em conclusão, afirma-se nesta encíclica social: «É necessário passar-se a um grau superior de ordenação a nível internacional, ao serviço das sociedades, das economias e das culturas do mundo inteiro.» Estava-se, então, no ano de 1987 e começavam a circular os primeiros boatos acerca da globalização capitalista.
A carta pastoral foi lida no sentido positivo, considerada na generalidade uma abertura ao mundo por parte da igreja católica e recebeu o aplauso de todas as forças progressistas. Depois, o Vaticano emudeceu acerca do conteúdo reformador da sua própria proposta. Foi necessário passarem-se quase vinte anos para voltarmos a encontrar, no ultimato do FMI, a mesma estrutura da encíclica mas com leitura muito diferente da que fora feita pelo Vaticano. Impõe-se aos governos nacionais a aceitação de uma nova ordem, concebida a um grau superior de organização e ao serviço das sociedades, das economias e das culturas, desde que previamente globalizadas e conduzidas pelo FMI. Vamos encontrar nomes de países lusófanos entre os que se vergam, de imediato, às ordens das cúpulas do capital: Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. A República de Angola prepara-se para anunciar a sua adesão.
Entretanto, António Guterres encetou, sem delongas, a sua importante tarefa de manipulação das áreas da pobreza e do aproveitamento das mais-valias que a miséria em si mesma contém.


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