A Igreja «civil» e o poder do capital

Jorge Messias
Retomemos o fio à meada. Os meses recentes têm sido férteis em apontamentos úteis mas desapontantes, a nível da cumplicidade que liga a hierarquia católica e os grandes grupos empresariais. Basta citarem-se breves exemplos. Por detrás deles adivinha-se a existência de uma organização, de um projecto em curso e de uma estratégia comum.
Na Universidade Católica, a Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais decidiu reforçar o respectivo Conselho de Orientações Estratégicas que, a alto nível, é coordenado pelos professores Cavaco Silva e Borges Assunção. Esta estrutura tem a finalidade declarada de promover o intercâmbio entre a vida académica e a empresarial. Trata-se, portanto, de um órgão de subida importância estratégica para a intervenção capitalista de poder. São de peso os nomes que se apontam como novos integrantes do conselho estratégico da UCP: António Borges, António Carrapatoso, Horta Osório, Viana Baptista, Diogo Vaz Guedes, Manuela Ferreira Leite e vários outros dirigentes federativos empresariais, juntam-se em torno de Cavaco Silva, no seio da Católica. Chegam, sobretudo, dos movimentos «Compromisso Portugal» nascidos no Beato. Auto-proclamam-se representantes e condutores da «sociedade civil». Identificam-se com a ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores) e têm por lema «Liderança e Concorrência». Visam a conquista do poder político, a completa descaracterização do regime democrático e a aliança indestrutível entre a coroa e a cruz.
A «sociedade civil» é arma de reconquista particularmente querida da hierarquia religiosa e das elites financeiras. É por ela e através dela que se constituem ou reconstruem impérios. E a televisão pública que temos é disto um bom exemplo após a recente remodelação que sofreu. Também ela foi entregue à «sociedade civil». E esta, através, das suas mais variadas organizações aderentes (sociais, educativas, associativas, éticas, etc.) assumiram a responsabilidade do fornecimento dos chamados «conteúdos de programação». E é assim que - hora a hora, dia a dia, ano a ano - os trabalhadores e o povo em geral poderão ser «convertidos» pela imagem à excelência da sociedade de consumo e ao obscurantismo de uma igreja fundamentalista. Esquecerão as misérias do desemprego, as angústias dos aumentos constantes dos preços e consentirão passivamente na exploração da sua própria pessoa. Como na Roma antiga, incumbirá à «sociedade civil» deixar-se esmagar pelo «Império» dos ricos e sentir-se feliz por ter acesso ao espectáculo circense, agora protagonizado pela TV pública portuguesa.
Um outro aspecto recente em plena fase de crescimento foi-nos dado (cremos que a contragosto da própria hierarquia), pelo estendal de manifestações obscurantistas provocadas pela doença do Papa, pelas «secas» (no Alentejo e um pouco por todo o país), pela probabilidade evidente de uma próxima despenalização dos actos de interrupção da gravidez e pelo retorno indesejável de uma igreja pré-conciliar que nada tem a ver com a decantada imagem do Vaticano II, do aggiornamento ou da afirmação das igrejas nacionais como representantes das aspirações dos homens à justiça e à paz.
Em que descampados a Igreja se foi descartando dos belos princípios de renúncia à riqueza, de opção pelos pobres, de defesa e divulgação das suas próprias propostas de economia social de mercado ou de abertura de novas janelas para o mundo? A verdade é que essa igreja utópica nunca existiu.
A busca da riqueza e do poder faz inevitavelmente parte do universo em que gira. É por isso que procura activamente as alianças com os poderosos e inventa, através da História, as canções de embalar da reconciliação de classes como base da «sociedade civil». No século XVIII, dizia Jean-Jacques Rousseau a propósito de sociedade civil: «Aquele que, tendo lançado um muro à volta de um terreno, com o cuidado de proclamar bem alto "Isto é meu!" e encontrou um povo suficientemente ingénuo para nisso acreditar, foi o verdadeiro inventor da "sociedade civil". Quantos crimes, guerras, assassínios; quantas misérias e quantos horrores, não teriam sido poupados ao género humano se então alguém, arrancando as estacas ou atulhando os fossos, tivesse bradado aos seus semelhantes: Não escuteis este impostor! Ficareis perdidos se esquecerdes que estes frutos são de todos nós e que a terra não é de ninguém.»


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