Bush ganhou. Ganhou?

Pedro Campos
Não estamos a falar de 2000. Aí não há dúvida. Bush perdeu o voto popular e só foi proclamado presidente por duas razoes. Primeiro, devido a uma particularidade muito pouco democrática do sistema eleitoral norte-americano – o famoso colégio eleitoral – que permite que um candidato derrotado pelo voto popular ganhe graças aos votos dos «grandes eleitores». Já sucedeu. Segundo – e muito mais importante – pela batota no estado da Florida, onde governa o «mano» Jeff Bush. A chapelada teve múltiplas variantes: eliminação pura e simples das listas de eleitores dos que tinham tido algum tipo de problema legal; negação de votos aos que tinham um nome parecido a alguém do grupo que acabamos de mencionar; anulação de votos por perfuração pouca clara. Tudo o anterior, mais uns quantos passes adicionais de magia, sempre e com particular
zelo nos condados democratas, somado ao castigo do voto de cor – os votos dos negros «estragaram-se» 900% mais vezes do que os dos brancos [1] – foi o que permitiu
levar Bush à Casa Branca.

Em 2004 é Ohio que está no olho do furacão

Kenneth Blackwell, republicano e secretário de estado de Ohio, foi minimamente sincero ao admitir, vários meses antes da votação de Novembro, «que a possibilidade de umas eleições renhidas com os cartões de perfuração como principal dispositivo de votação do estado convida a uma calamidade semelhante à de Florida». Claro, não diz nunca quanto ele contribuiu para essa calamidade, nada fazendo pela instalação de máquina leitoras, que teriam evitado boa parte dos 93 mil votos «estragados» – Bush ganhou com uma diferença de 136 mil – maioritariamente democratas.
Temos depois as calamidades do voto «provisional». Este tipo de voto, proposto pelo Grupo de Congressistas Negros para salvaguardar os direitos dos que eram abusivamente eliminados das listas de eleitores, acabaram por ser uma arma contra os votantes negros nos estados controlados pelos republicanos. Blackwell também não se refere a este tema e a que 155 mil votos – igualmente com preponderância democrata – foram estrategicamente desviados para esta categoria. Mais tarde, a maioria deles não foram contados por diferentes tecnicismos legalistas.
«Na eleição presidencial, nem todos os votos foram contados, e nem todo o voto conta», acusa uma coligação de militantes dos direitos civis, entre os quais encontramos o reverendo Jesse Jackson, que numa entrevista recente afirmou que o ocorrido em Novembro de 2004 seria considerando «uma verdadeira farsa», se tivesse sucedido na África do Sul, Haiti, México ou Iraque. O que vimos em Ohio, afirma, «sugere um padrão de fraude» e que «o plano (dos republicanos) para privar os direitos dos cidadãos do voto foi maior e melhor pensado do que em Florida, em 2000».
Pouco antes das eleições, Kerry fez estas esta afirmação de peso sobre os votos que não se contam. «Não nos digam que na democracia mais forte do mundo o melhor que podemos fazer é conseguir um milhão de afro-norte-americanos sem direito ao voto», e acrescentou uma promessa: «Neste mês de Novembro, vamo-nos assegurar de que se conte até ao último voto». Palavras, palavras, palavras …
Evidentemente, não foi assim e em relação à rápida aceitação dos resultados eleitorais por parte do candidato democrata, o reverendo Jackson não a poupou a críticas e adiantou que essa precipitação fez com que as «luzes se apagassem e os média decidissem não avançar na análise do processo eleitoral.»
Para princípios de Janeiro estão convocadas duas marchas, uma na capital de Ohio e outra em Washington, para exigir a recontagem dos votos [2] e uma revisão dos processos eleitorais do estado. Entretanto, um grupo de advogados denuncia a existência de uma série de irregularidades que favorecem os republicanos e o próprio Bush, as quais «sugerem que foram intencionais e formam parte de alguma coisa que só se pode identificar como fraude». Além disso, preparam-se para pedir que Bush, Dick Cheney e Blackwell, entre outros, sejam chamados a depor sobre o processo eleitoral de Ohio.
Assim se deram as coisas em Ohio – e não só [3] – mas o mais provável é que tudo fique como dantes. Bush, posto no lugar certo pelo interesses monopolistas mais reaccionários dos Estados Unidos, tem todos os fios do poder nas suas mãos, incluindo o Supremo Tribunal, cujos membros – é bom recordar – são nomeados pelo presidente. Como se trata de lugares vitalícios, muitos já vêm do tempo de Reagan, que escolheu gente jovem precisamente para evitar nomeações afectas aos democratas. Hoje são todos republicanos.
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[1] Denúncia de Greg Palast, jornalista norte-americano que trabalha para a BBC e para The Guardian, de Londres.
[2] Greg Palaste afirma que mais de 250 mil votos de Ohio não foram contados por «estragados» ou «provisionais», os quais seriam potencialmente suficientes para virar o resultado eleitoral.
[3] No estado de Novo México, os votos dos eleitores hispanos – democratas numa
proporção de 2 cada 3 – «estragaram-se» cinco vezes mais rapidamente do que o dos brancos.


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