Dois dedos em Ramallah

Correia da Fonseca
Foi numa dessas recapitulações do ano que finda, frequentes se não inevitáveis em diversos canais. Neste caso era da Euronews, mas não garanto que as mesmas imagens ou algumas que se lhe assemelhem não tenham surgido noutro canal, tanto mais que se tratava do Médio Oriente, que em 2004 foi o lugar das grandes tragédias e dos mais indignantes crimes. Contudo não era o Iraque, onde sem dúvida foram colhidas das mais terríveis imagens que as câmaras das reportagens fixaram nas últimas décadas: era a Palestina, era Ramallah. A câmara mostrara milhares de palestinianos que esperavam Yasser Arafat no regresso de Paris, morto mas ainda líder, resistente, presidente. Depois, a câmara virara-se para os céus: lá vinha, no alto, o helicóptero que trazia o corpo que continuava afinal vivo como símbolo, como luta. E, em baixo, o clamor redobrara na expectativa fremente do reencontro que seria o último ou, quem sabe?, apenas mais um. Isto por várias razões, entre as quais avultará que o líder morto não quisera ser sepultado ali, mas sim em Jerusalém, vontade a que o ocupante se opusera num último gesto de agressão mas de cujo cumprimento, mais tarde ou mais cedo, não consta que o povo palestiniano tenha desistido.
Estava, pois, o heli a recortar-se no céu, e estava o povo de Arafat de olhos fitos nele. No dia seguinte, os poderes mediáticos do tandém USA/Israel fariam o possível para convencer o mundo de que aquela chegada apoteótica redundara afinal numa espécie de tumulto com laivos de agressividade, sinal da incivilidade daquela gente que, segundo chegou a sugerir-se, ainda não está madura para a independência e a paz. É, como bem sabe quem tenha memória e/ou informação, um argumento habitual que os ocupantes disparam contra os ocupados, mas essa versão não foi confirmada pelo jornalismo então presente no local, incluindo alguns nomes portugueses. É certo que aquela massa ardente não estava alinhada disciplinada e mansamente; fervia provavelmente de amor e ódio: amor pelo líder morto e pela terra a libertar, ódio pelo agressor e pelos que desde sempre vêm patrocinando a agressão. Mas aquele era sem dúvida um grande momento de patriotismo, de comunhão numa espécie de arripio épico que parecia passar das imagens para quem as olhava no ecrã do televisor. Era, até para o telespectador abrigado na pacatez de um lar distante, um momento difícil de esquecer.

Um dia destes

Aconteceu então que a câmara deixou de enquadrar o helicóptero que ia descendo e passou a focar pormenores da multidão que o esperava. Mais exactamente, aplicou-se a focar o que naquele quadro era quase apenas um apontamento se esta palavra não fosse inadequada para a grandeza do momento: empoleirado no alto de um poste de fios telefónicos, um garoto palestiniano, desses que muitas vezes defrontam os tanques israelitas atirando-lhes pedras palestinianas, desses que tantas vezes são abatidos a tiro pelos soldados ocupantes que atiram sobre eles como caçador que dispara sobre coelhitos esquálidos, erguera o rosto para o aparelho que trazia o presidente Arafat. Com a mão esquerda, segurava-se ao poste a que trepara. A mão direita, estendia-a na direcção do seu líder, e dois dedos separados formavam o V que era não apenas o da vitória que um dia chegará mas o claro sinal de que os israelitas defrontam um exército sem fardas nem armas mas inextinguível, e por isso invencível, por ser integrado não só pelas gerações que já podem lutar mas também por todas as gerações que, uma após outra, chegarão à luta. Aquele era o V de uma invencibilidade de que uma boa parte dos israelitas já se deu conta. Dois dedos de uma mão ainda infantil alcandorada num poste de fios telefónicos formavam o sinal do futuro.
Talvez aquela imagem tenha corrido o largo mundo, talvez tenha sido vista por olhos norte-americanos, mas parece-me de todo improvável que tenha sido olhada pelo quase inverosímil George W. Bush. Ainda que o fosse, porém, é claro que ele ficaria longe de sequer pressentir que aquele miúdo anónimo e insignificante era, de facto, seu vencedor. Porque nem mesmo há margem para dúvidas: um dia destes, mais tarde ou mais cedo, o homem vai sair de cena e vai para qualquer lado mais ou menos obscuro envolto na densa nuvem de infâmias por que é o primeiro responsável. Isto é: um dia destes, ou talvez daqueles que infelizmente demoram a chegar, Bush e tudo o que Bush formalmente liderou vão ser derrotados. E num outro lado do mundo aquele garoto, ou outro a ele idêntico se porventura este tiver sido assassinado entretanto, saberá que venceu. Que se cumpriu enfim o desenlace que era prometido por aqueles dois dedos apontados para um heli que descia para Ramallah.


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