Na cola dos Jogos Paralímpicos

E depois dos Jogos Olímpicos vieram os Jogos Paralímpicos. Um hábito que se vai consolidando em nós, em particular nas nossas atenções e mentes. Um processo de consolidação que nos vai transportando mais e mais de uma antiquíssima atitude de compaixão dos «normais» pelos outros, pelos «coitados» das necessidades especiais - uma atitude quantas vezes impregnada de dissimulada sobranceria e de mediatismo moralista -, um processo de consolidação, dizia, através do qual vamos sendo transportados para uma outra atitude de compaixão, esta sendo de novo tipo. Uma compaixão nova já não tanto num sentido em que estão uns perante os outros - uns pertencendo ao núcleo da sociedade e os outros situados nas suas margens -, mas, cada vez mais, em que todos são membros de um mesmo conjunto composto por diferentes indivíduos possuindo «certas» características diferentes.
Com efeito, já de outras situações que não as desportivas tinha ficado entendido o facto que o conhecimento que se detém sobre os «normais» - incluindo as acções que lhe são próprias, úteis e necessárias, constituindo estas, mesmo, o próprio motor do conhecimento - é, portanto, um conhecimento redutor, o conhecimento inculcado pelas normas, pelas médias, pelas medianas, pelas modas! E todos sabem os erros a que nos conduzem tão estreitos indicadores. Pelo menos deviam procurar - esses todos - emancipar-se das ilusões a que esses indicadores podem conduzir. Depois, como consequência de tais limitações, sabe-se, aplicam-se em estatística outros conceitos, complementares daqueles, como os desvios padrões e, como estes ainda se referem a normalidades ou a padrões de distribuições normais, no caso de estas não o serem - normais - como em tantas situações concretas acontece, também outras distribuições foram conceptualizadas. Por isso, sendo certo que todos estes instrumentos da Estatística possuem a sua valia quando aplicados com sabedoria (ou sem intuitos manipuladores), também é certo que só estudando os casos concretos os podemos conhecer e que, também, é através das diferenças - nas suas diversas direcções e nos seus diversos sentidos - que melhor podemos conhecer as necessidades de cada um - os outros e os «normais» -, isto é, de todos os que pertencem, pertenceram, ou venham a pertencer, à maravilhosa distribuição «mais ou menos normal» da nossa espécie (1).
É então desta atitude nova perante a compaixão que se trata. Dir-me-ão: gato piedoso escondido [mais uma vez], mas deixando o seu rabo de fora. Penso que não.
Ora vejamos.
Pedindo desculpa pela longa excursão da escrita deixada atrás em torno da Estatística e suas distribuições, pareceu-me necessário enquadrar deste modo aquilo a que o Desporto, incluindo a faceta de competição cooperativa - e, ainda mais a dos Jogos Paralímpicos -, acaba por conduzir: uma segmentação da população por categorias. Ou seja, no caso dos atletas ditos portadores de deficiência(s), estes são agrupados de modo a participarem em categorias de limitada variabilidade das características sensoriais, motoras, mentais. Isto é, em categorias definidas de modo a que sejam proporcionas as situações de competição de acordo com as capacidades dos atletas intervenientes.
Daí, por exemplo, a assistir-se mesmo a destrinças que a um leigo, poderão parecer já muito finas. Assim, tratando-se da deficiência visual, pude assistir a corridas em que os atletas, consoante o grau de deficiência, participavam em provas acompanhados por guia ou sozinhos,
no caso de poderem orientar-se sem ajuda na pista de atletismo. No limite, poderia até ser o caso de perguntar-se por que concorrem estes últimos em Jogos Paralímpicos e não nos Jogos Olímpicos. Haverá, penso eu, razões para assim ser. Mas, para mim, a questão mais interessante mostrada por esta situação é o facto de poder ser traçada uma linha sem hiatos ligando os normais, os quase normais (ou quase deficientes visuais), os deficientes visuais em graus diversos, até às pessoas que não vêem. Este é um exemplo, mas haverá também outros eloquentes.
O certo é neste caso vermos a forma como todos poderão fazer Desporto, participar em competições, lutar pela superação própria, enquanto dádiva maior desta actividade.
Entre os normais existem categorias etárias para jovens e veteranos, provas femininas e masculinas, categorias de pesos nas lutas. Mas não existem, por exemplo, categorias por alturas. Para quando estender os ensinamentos paralímpicos ao conjunto dos «normais»?
_______________

(1)E também da generalidade das espécies.


Mais artigos de: Argumentos

Conhecimento e investigação

A investigação fundamental foi objecto de numerosas tentativas de definição que têm importância teórica ou operacional. As aplicações concretas de uma teoria ou de uma descoberta muitas vezes são imprevisíveis e verificam-se muito mais tarde; aliás o relacionamento de um hipotético ponto de partida com um hipotético ponto de chegada, facilmente omite etapas e contribuições afluentes intermédias. Como será fácil ignorar, no que toca a uma invenção técnica, se ela é ou uma etapa final de uma linha de investigação intencionalmente prosseguida, ou acidentalmente alcançada, ou uma transposição oportuna, de um domínio científico para um outro, de um método já conhecido.

«Media», cabeças e luta

Não estava nada inclinado a ver aquele programa. A questão, na verdade, é que nunca estou inclinado a ver programas em que a entrevistadora é Maria João Avilez, e manda a cortesia que não acrescente os meus motivos, justificados ou não, para esse fastio. Contudo, nessa emissão estariam não apenas a entrevistadora frente...