Viajar cá dentro

Rogério Feitor
Apesar de ser um pequeno país, Portugal apresenta uma forte diversidade, não só a nível paisagístico como também a nível cultural, por vezes mesmo linguístico. Note-se, por exemplo, nas diferenças das margens do Douro, do Tejo e do Guadiana para uma melhor compreensão. Destas terras nascem os homens e os seus costumes e tradições. E como o homem não vive para sempre, a sua memória tem de ser preservada através da palavra, escrita, oral ou mesmo filmada, dependendo da época e dos costumes. Era uma vez...

Veredas

João César Monteiro, o cineasta e poeta português, no início da sua obra, andou pelo Norte do País. Dessa sua vivência deixou duas longas metragens: Veredas, de 1978, e Silvestre, de 1982, que podemos descobrir em casa através da edição em DVD da Atalanta. O primeiro, Veredas, mais documentário do que ficção, mais poético do que narrativo, embrenha-se pelas lendas e mitos portugueses. JCM deixa um pouco para trás o formato clássico, interessa-se pela terra, pelos homens da terra. Os actores profissionais não têm lugar neste filme mas os habitantes locais sim, sobretudo se têm histórias a contar. Deambulamos com JCM pelo Norte de Portugal, o verde absorve-nos assim como os ruídos campestres, a música dos rios e os sons humanos, os cantares do povo. O efeito é muito belo e interessante, a história do filme perde-se nos confins da memória colectiva portuguesa. Do interior do País chegamos ao mar no fim deste périplo. E também nos apercebemos do despontar de JCM como criador duma obra cinematográfica ímpar no nosso panorama.

Silvestre

Quatro anos mais tarde, uma segunda longa metragem é concluída por JCM: Silvestre. Fruto de muito trabalho e duma primeira tentativa falhada de filmar uma lenda popular portuguesa no seu contexto verdadeiro, isto é, na região transmontana, JCM arrisca num estilo cenograficamente próximo do teatro. Depois das primeiras filmagens, JCM não gosta do resultado. O que vê não é o que tinha em mente. Com o director de fotografia do filme, o sempre excelente Acácio de Almeida, decide-se por um punhado de fotografias seleccionadas da paisagem minhota que amplia num formato gigantesco. E assim resolve o problema do cenário, colocando as fotografias como pano de fundo e tendo especial atenção à iluminação para as disfarçar um pouco, criando assim uma atmosfera única e mágica. Com o também excelente Vasco Pimentel, o director de som do filme, calcorreia os montes, charcos, veredas, florestas do Norte de Portugal e grava a banda sonora do filme. O efeito impressiona e cria as condições para que o teatro filmado possa começar.
A nível de actores, JCM confessa não gostar dos profissionais, com algumas excepções. Neste filme Maria de Medeiros é Silvestre, mulher a casar, homem-criança que parte à procura do pai e duma vingança contra o maléfico Luís Miguel Cintra. Registe-se também o histriónico Jorge Silva Melo, o autêntico bobo da corte, feliz no meio da fortuna que lhe concede o seu colega cineasta. Ou também João Guedes como D. Rodrigo. Um teatro servido por actores deste calibre está condenado aos aplausos finais do público.
Plasticamente, o filme é uma pérola. Como que não querendo repetir a experiência de Veredas, JCM decide-se por uma receita onde mistura em porções mais justas poesia e prosa, sensações e factos, tendo uma especial atenção à verdade em cena, ou seja, um cinema que respeita a fonte popular onde foi buscar a inspiração.

Os pés na terra

Numa entrevista, JCM disse uma vez que por acaso tinha nascido em Portugal, que podia ter nascido num qualquer outro país e aí criado a sua obra. A verdade é que, além das suas idiossincrasias que, até a um certo ponto, diferenciam e caracterizam o seu estilo artístico, JCM inspirava-se no que o rodeava. E, mostrando um trabalho sério de pesquisador, atreveu-se a ir aos confins do nosso país, para mostrar quem nós somos, portugueses, através das nossas lendas e mitos, passando pelo nosso âmago. E, ao mesmo tempo, prolongar a função do artista do povo: contar uma história, preservar a memória colectiva, continuar com a tradição, progressista, da arte portuguesa. O resultado não podia deixar de ser belo.


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