Se me quiseres ver, vai ao Paris

Francisco Mota
Para : Anabela Fino, em cumprimento de uma promessa

Aqui há uns anos, entrar num restaurante dumas termas, do Norte ou do Sul, era entrar numa viagem no tempo. Dizia-se «desculpe, enganei-me no restaurante», mas o que se pensava era «desculpe, enganei-me de ano». O ambiente, os donos, os clientes, a ementa, as moscas, tudo era de há 40 anos atrás. Até as conversas: «Como vai a sua artrite, dona Joana? Um bocadinho melhor; o problema agora são os joanetes, não me deixam dormir». E o passante tinha a sensação que já tinha lido aquilo no Eça ou no Camilo.
Com a renovação do termalismo este mundo tem outro ar, e os aquistas falam em termos técnicos modernos: LDL, HDL, pressão máxima e mínima, o seu coeficiente relativo. Já não se diz: «teve um problema na cabeça», mas sim «o AVC parece superável».
Mas para os românticos praticantes de ambientes, como eu, em quase todas as cidades se podem encontrar restaurantes, cafés e alguma tasca onde respirar o passado. Quando algum dia um amigo te diga que me viu triste, um pouco deprimido, se me quiseres ver, Anabela, vai ao Paris da Rua Arco da Bandeira, aqui em Lisboa, e numa mesa encostada à parede, a olhar para o pequeno aquário decorativo da entrada, seguramente me encontrarás.
Que eu tenha notado esta casa teve três revoluções nos últimos cinquenta anos, a saber: 1. Revestir os arcos da sala, que devem ser do tempo do Sr. D. Sebastião José de Carvalho e Melo, também conhecido pelas alcunhas de Conde de Oeiras ou Marquês de Pombal, com uns mosaicos mínimos azuis e vermelhos, que também eram muito populares nos apartamentos do J. Pimenta, ou do Xavier de Lima; 2. Afixar no exterior um letreiro de néon que diz «Restaurante Paris»; 3. Colocar uns balcões/expositores frigoríficos onde o cliente pode ver carapaus de escabeche, doces e outras coisas necessitadas de frio. Quando se entra, apesar de tudo parecer normal, tudo é diferente. O primeiro sinal é o «boa tarde» que o empregado nos diz em tom tão baixo, apesar de correcto e simpático, que pensamos que aquilo é uma igreja. Tudo vai ser assim, com mais ou menos gente na sala. Os clientes falam baixo, os empregados deslizam e nunca vi em muitas visitas, sinais de drama ou alegria separados por mais de 10 decibeis.

E tudo tão quieto

Os momentos mais belos são os jantares de fim de semana: poucas mesas, mas bem definidas. Numa o Sr. Costa, dono de uma casa de lanifícios da Rua dos Fanqueiros, janta sozinho, como sempre, com o olhar perdido. Sem qualquer razão objectiva, começo a pensar que o Sr. Costa, viúvo, tinha esperança que o filho único, que não deu para estudar, tomasse conta do negócio e pudesse dar-lhe um novo ar para combater as modernices do pronto-a-vestir e da espanholada que toma conta de tudo. Mas o rapaz, numa noite de loucura conheceu no Meco uma Australiana e para lá foi. Parece que tem uma escola de surf, e uma casa de hamburgueres. Também parece que o sr. Costa já é avô. Pode ser que venham cá pelo Natal.
Noutra mesa, a Tia Luísa põe em prática o jantar semanal, com o sobrinho Tiago, a mulher Vanessa (nunca gostou do nome dela) e os filhos Luisinha e Gonçalinho. A conversa sempre a meio tom, é um resumo semanal dos grandes acontecimentos mundiais: a Luisinha já está melhor da constipação, o estúpido do chefe da Vanessa parece que vai ser substituído, e o resultado das análises do Tiago só se saberá para a semana. Tudo harmonia, tudo suavidade e tudo certezas de que a herança da Tia Luísa não vai para outro lado.
Sussurrando, o empregado pergunta: Sr. Costa, pescada de Vigo cozidinha com legumes? Sim, mas hoje com meia garrafinha de Branco de Bucelas. (Loucura, vinho! Pensa o empregado, mas diz: com certeza). D. Luísa, os filetes de peixe-galo estão muito frescos! Está bem, mas só meia dose, e com salada.
No meu sítio, e olhando para outras mesas com gente parecida, penso: algum dia, talvez, também vou ser assim. E olhava e vejo tudo tão quieto e tudo tão parado que com uma força imparável começaram a bater na minha cabeça os versos que alterei ao Manuel da Fonseca

Uma sala,
Dois arcos,
E por baixo dos arcos, vinte mesas,
E no meio das mesas
Uma garrafa de vinho.

E tudo tão parado
E tudo tão quieto
Que quando uma colher cai no chão
Levantam-se os pombos do Rossio
E todos os clientes despertam assustados, dos sonhos
Que sonhavam.


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