Fronteiras e nevoeiros

Correia da Fonseca
O programa «Prós e Contras» da RTP decidiu consagrar uma das suas emissões, que nunca são breves, à discussão de uma suposta dúvida que permanentemente fascina a direita: isso da distinção entre Esquerda e Direita ainda terá alguma validade? A emissão surgiu na sequência de uma sondagem feita pela Universidade Católica para a RTP e o jornal Público, mas de facto a inquirição não utilizou a pergunta directa sobre a sobrevivência daqueles dois pólos de opção política, preferindo como que cercar a dúvida através de interrogações periféricas. No programa de televisão, o método utilizado não foi exactamente o mesmo, mas dele não ficou muito distante. E logo de entrada o telespectador atento deparou com um dado interessante: entre os convidados em palco não estava ninguém sequer da área do PCP ou com ela conotável: a Esquerda estava representada por Rui Pereira, Manuel Alegre e Francisco Louçã. Mais uma vez se confirmava que o PS e o BE são a Esquerda de que a RTP gosta, porventura a que mais lhe convém. Significa isto que ainda a conversa se não havia iniciado e já o telespectador pouco tolerante perante batotas podia dizer que «estávamos conversados». Por coisas destas, alguém poderá pensar que a RTP se descredibiliza e desacredita, mas isso será desvalorizar o sábio trabalho de habituação e anestesia cívica a que o telepúblico desde há anos vem sendo sujeito.
É sabido que a Direita há muito anda empenhada em lançar o boato de que a diferença entre a Esquerda e a Direita é coisa do passado, obsoleta e de todo imprópria para o consumo actual. Isso mesmo denunciou, embora de passagem, Manuel Alegre no decurso da conversa. E não será inútil reflectir sobre o que leva a Direita a repetir essa impostura que já ganhou foros de cassete: ela, a Direita, sabe lindamente que tem má fama, que se sabe ser habitada por individualismos, egoísmos ávidos e sem escrúpulos; que tem um cadastro histórico que não orgulha ninguém; ao passo que a Esquerda é olhada como solidária, generosa, amiga dos mais fracos perante a brutalidade dos mais fortes. Daqui que ninguém «queira ser» de Direita e, na impossibilidade de passar por pertencer à área da Esquerda, tenta-se apagar a distinção. Tem-se chegado mesmo ao ponto de a Direita mais feroz integrar na sua prática alguns sinais da Esquerda: o nazismo era nacional-socialista e «protegia» os trabalhadores alemães, o fascismo salazarista tinha «obra social». E até o dr. Nogueira Pinto, no «Prós e Contras», resolveu citar supostos pendores socialistas do velho Bismarck.

Alguns exemplos

O caso é que a Direita lança constantemente nuvens de fumo sobre essa questão e trata de bombardeá-la com várias aldrabices. Por isso convém talvez reparar em que, no mínimo, em cada momento histórico há um dado, uma questão, que corresponde a uma linha de fronteira entre Esquerda e Direita, embora sem prejuízo de outros factores que também contribuem para iluminar a situação. Por exemplo, nos anos entre 61 e 74, essa fronteira terá sido definida pela posição de cada um perante a guerra colonial. Nos anos imediatamente posteriores a 74, terá sido o apoio ou a hostilização à transferência para a posse estatal de grandes empresas da área financeira ou de produções estratégicas. Hoje, será porventura da gestão e responsabilidade públicas dos grandes serviços de interesse nacional: a Saúde, a Educação, a Segurança Social, alguns outros. E se se quiser buscar uma «linha fronteiriça» de carácter mais permanente, podemos encontrá-la na defesa efectiva de todos os direitos consignados na Declaração Universal dos Direitos do Homem: defesa de todos e não apenas dos dois ou três que convenha relevar; defesa ininterrupta e na prática, não apenas invocação teórica desrespeitada a cada passo. E não será inútil recordar que a Declaração, que contempla várias dezenas de direitos, é de facto constantemente censurada pelos que, referindo-se-lhe por desvergonhada demagogia e usando-a como arma de propaganda primária, não hesitam em amputá-la de direitos fundamentalíssimos: à Habitação, ao Trabalho, à Segurança Social, à Educação. De qualquer modo, e quanto ao «Prós e Contras» da passada segunda-feira, o fundamental é referir que a nítida e esforçada procura das diferenças entre Esquerda e Direita foi de facto substituída por um emaranhado de abordagens marginais e fragmentárias, do que inevitavelmente resultou a manutenção do nevoeiro conveniente a quem queira sustentar a caducidade da divisão. Isto é, à Direita. Custa-me a resistir à tentação de escrever: à RTP.


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