Os políticos na era da sua reprodutibilidade técnica

Manuel Augusto Araújo
Pelo título desta crónica pode parecer que decidimos abandonar os temas que normalmente são o objecto destes textos para optarmos pelos da política. O motivo não será muito difícil de adivinhar, a eleição de um tal José Sócrates (Sócrates perdoa-lhes porque eles sabem o que fazem) para secretário-geral do Partido Socialista, o que tanto espaço tem ocupado, desde o primeiro minuto, na comunicação social.
De facto é esse o tema central deste texto que se inscreve perfeitamente nos temas nucleares dos nossos escritos até pela ameaça que essa eleição também representa para a cultura.
Repare-se que muitos dos cronistas, mesmo os mais esclarecidos, que mantém colunas firmes na nossa comunicação social, desatam a salientar as simetrias que existem entre o Lopes e o Sousa, mais conhecido por Sócrates, descobrindo que acabaram as diferenças ideológicas e que iniciou uma nova era em que a avaliação que é feita nas urnas não é entre diferentes visões do mundo, de esquerda e de direita mas ao modelo gestionário e à qualidade de gestão de uns e de outros.
Essas análises embarcam todas no mesmo barco, donde aliás nunca saíram.
Nunca notaram que o capitão Ahab foi guinando o Pequod à direita e à esquerda com maior ou menor velocidade conforme os tempos aconselhavam, mudou de linguagem conforme os ventos, vestiu vários uniformes, uns mais rosa outros mais alaranjados, completou as indumentárias, sempre que necessário, com adereços amarelos e azuis, teve vários nomes e caras, mas o rumo e o objectivo foram sempre os mesmos e foram perseguidos com convicção desde o primeiro minuto depois do 25 de Abril. Claro que há diferenças notórias entre as diversas personagens do capitão Ahab e diferenças, até substanciais, nas maneiras de manobrar o barco, mas Moby Dick foi sempre a mesma e o rumo é para o desastre. Os Ishmaeis não perceberam o que é essencial perceber neste sistema de democracia representativa, em que as alternativas políticas foram substituídas por uma competição corporizada por partidos que medem a sua representatividade unicamente pelo número de votos que conseguem agenciar e fazem confundir a defesa da democracia com a defesa desses partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático.

Há uma alternativa

A insistência em reduzir toda e qualquer representatividade das massas populares ao sistema partidário, procurando encurralar as lutas e económicas, sociais, políticas e culturais no «areópago» da Assembleia da República de onde sairiam com a regularidade de um relógio suíço para serem avaliadas em eleições, é o percurso que se quer para um sistema democrático representativo, onde uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre os partidos de direita e os ditos de esquerda reduzem a sua acção política e medem o seu peso pelos resultados das corridas eleitorais. Partidos que se tornaram numa finalidade em si-próprios, representativa de determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável, premiando ou castigando os seus serviços, e que alimentam uma clientela interna ávida de benesses pessoais. Partidos que são organizações eleitorais de caça ao voto sem definição nem mobilização ideológica, o que é um retrocesso democrático.
Mas para alcançar esse desiderato muitas foram e são as armas utilizadas. Muitas da principais estão exactamente na comunicação social, não só pela discriminação descarada, ominosa que diariamente se faz à alternativa política e à política de esquerda, qualquer que seja o sujeito, a forma e a área em que se manifeste, mas com artigos de opinião dirigidos à negação da hipótese de mudança mesmo que minimamente radical e também com as revistas cor-de-rosa (não é piada), os programas televisivos e os telejornais que apelam à irracionalidade emocional, o excesso de jornais desportivos explorando as paixões clubistas, toda uma teia que constrói uma realidade que mascara a realidade e onde a política se transforma num espectáculo de Lopes&Sousas que, e essa é a grande novidade da eleição do dito Sócrates, já se reproduzem tecnicamente nos partidos maioritários.
Tudo isto desvaloriza a política e tende a aproximá-la dos padrões bipartidários norte-americanos, é uma das faces da globalização, em que a democracia representativa deixou de ser o lugar mesmo para uma luta de classes pacífica.
Contrariamente ao que pensam os crónicos cronistas há uma alternativa e uma alternativa de esquerda e talvez nunca como hoje a luta ideológica, em todos os campos e mesmo com a maior desigualdade de armas, é uma urgência. E quem não pensa assim, conformando-se com a realidade actual é porque alinha com essa direita mais ou menos reaccionária, mais ou menos polida, mais ou menos culta, mas sempre direita que nos quer raivosamente tornar impossível a possibilidade de pensar uma sociedade outra. Que nos quer castrar a capacidade de inventar, de sonhar, de conhecer a utopia.
Este é um tema cultural de fundo porque mais do que nunca é preciso politizar a cultura e a arte contra os que desejam uma estética desta política para a mistificar.


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