Discursos não matam a fome
As consequências sociais da globalização e a solução dos principais problemas associados a este fenómeno dominaram os discursos de abertura da 59.º Sessão da Assembleia Geral das ONU.
«As intervenções iniciais prometeram “boas intenções”»
A agenda do plenário, que teve início na terça-feira, discutirá questões como a «reforma das Nações Unidas», a cooperação económica internacional, o «terrorismo», os conflitos no Médio Oriente e as sanções aplicadas pelos EUA a Cuba, mas foram a pobreza e a fome no mundo que abriram um dos debates mais participados de sempre da organização.
As intervenções iniciais prometeram «boas intenções», embora seja quase certo que tal não se traduza, mais uma vez, do papel para a «barriga» de quem não come, não tem trabalho ou um tecto para viver.
Kofi Annan abriu a sessão com um discurso que se centrou na necessidade de uma «globalização justa», onde a maioria da população mundial não se sinta «servidora dos mercados» mas, afirmou, «sejam os mercados a prestar-lhes serviços».
O secretário-geral da ONU incitou ainda os representantes a tomarem medidas de superação do que chamou de «défice democrático» nas relações entre os países e nas instituições, para depois apelar ao aperfeiçoamento dos mecanismos de cooperação multilateral.
Um mundo de empregadores e empregados
Momento aguardado era o discurso do presidente brasileiro, Lula da Silva, a quem muitos reservavam o papel de dinamizador de um alerta aos restantes líderes da dita «comunidade internacional».
Com base num relatório elaborado pela Comissão Mundial sobre as Dimensões Sociais da Globalização, grupo de trabalho pertencente à Organização Internacional do Trabalho (OIT), Lula manteve o acento tónico nas mesmas preocupações anteriormente reveladas por Annan, ou seja, na construção de um processo de globalização dotado de «consciência, ética social e legitimidade».
O ponto de partida para que tal possa passar a acontecer é, de acordo com Lula e com o espírito fundamental do documento da OIT, a gestão equilibrada dos modelos de investimento com o comércio e o mercado de trabalho, cujo principal objectivo deverá ser «um trabalho digno para todos».
O ex-sindicalista e actual chefe de Estado do Brasil referiu-se também ao inadiável combate à fome e à miséria, «a mais mortífera arma de destruição em massa», disse.
Pegando no exemplo do programa «Fome Zero», Lula sublinhou ser possível, com «vontade política», combater um flagelo comum a todo o planeta, que exige, portanto, «compromissos urgentes e ambiciosos, mas também viáveis», no quadro dos desafios das sociedades contemporâneas que «exigem soluções integradas».
Um refrão que todos conhecem
Enquanto o presidente norte-americano, George W. Bush, não mudou o rumo das palavras para os mais que previsíveis capítulos do «terrorismo» e da «segurança mundial», pelo púlpito passaram outros líderes governamentais que alinharam em coro pelas disposições gerais de Lula da Silva e do documento da OIT.
Alessandro Toledo, presidente do Peru, pediu perdão aos «amigos dos países desenvolvidos» para reclamar um «comércio internacional mais equitativo» e uma «rota comercial internacional de mão dupla», palavras consubstanciadas pelo seu homónimo do Uruguai, Jorge Batle, que propôs um fundo da ONU para auxiliar países subdesenvolvidos a construírem infra-estruturas básicas.
Ricardo Lagos, presidente do Chile, foi mesmo mais longe que os seus pares da América Latina. Numa declaração que merece atenção para mais tarde conferir com as práticas, exigiu recursos de «discriminação positiva» para sustentar «medidas políticas internacionais que assegurem que a riqueza chegue a todos por igual».
Tudo por cumprir
A Declaração do Milénio (DM), assinada em 2000 por chefes de Estado de 189 países, previa a erradicação, até 2015, da fome e da miséria no mundo. Quatro anos passados nada foi cumprido.
- Dos países que se comprometeram a doar 0,7 por cento do PIB para auxilio internacional, a Itália e os EUA são os que mais longe se encontram da meta.
- A DM contava reduzir a metade as pessoas que sobrevivem com menos de um dólar por dia ou morrem de fome. Actualmente, um bilião e duzentos milhões de pessoas não têm esse rendimento e outras 800 mil padecem de subnutrição.
- Longe do objectivo da DM, um quinto das crianças em idade escolar continua a não ter instrução primária.
- Ao invés de regredir, a SIDA é a principal causa de morte na África subsahariana e a quarta no mundo.
- Um quinto da população mundial não acede a água potável e a mortalidade infantil, longe do objectivo de redução para um terço da actual, mata 1200 crianças menores de cinco anos em cada hora.
As intervenções iniciais prometeram «boas intenções», embora seja quase certo que tal não se traduza, mais uma vez, do papel para a «barriga» de quem não come, não tem trabalho ou um tecto para viver.
Kofi Annan abriu a sessão com um discurso que se centrou na necessidade de uma «globalização justa», onde a maioria da população mundial não se sinta «servidora dos mercados» mas, afirmou, «sejam os mercados a prestar-lhes serviços».
O secretário-geral da ONU incitou ainda os representantes a tomarem medidas de superação do que chamou de «défice democrático» nas relações entre os países e nas instituições, para depois apelar ao aperfeiçoamento dos mecanismos de cooperação multilateral.
Um mundo de empregadores e empregados
Momento aguardado era o discurso do presidente brasileiro, Lula da Silva, a quem muitos reservavam o papel de dinamizador de um alerta aos restantes líderes da dita «comunidade internacional».
Com base num relatório elaborado pela Comissão Mundial sobre as Dimensões Sociais da Globalização, grupo de trabalho pertencente à Organização Internacional do Trabalho (OIT), Lula manteve o acento tónico nas mesmas preocupações anteriormente reveladas por Annan, ou seja, na construção de um processo de globalização dotado de «consciência, ética social e legitimidade».
O ponto de partida para que tal possa passar a acontecer é, de acordo com Lula e com o espírito fundamental do documento da OIT, a gestão equilibrada dos modelos de investimento com o comércio e o mercado de trabalho, cujo principal objectivo deverá ser «um trabalho digno para todos».
O ex-sindicalista e actual chefe de Estado do Brasil referiu-se também ao inadiável combate à fome e à miséria, «a mais mortífera arma de destruição em massa», disse.
Pegando no exemplo do programa «Fome Zero», Lula sublinhou ser possível, com «vontade política», combater um flagelo comum a todo o planeta, que exige, portanto, «compromissos urgentes e ambiciosos, mas também viáveis», no quadro dos desafios das sociedades contemporâneas que «exigem soluções integradas».
Um refrão que todos conhecem
Enquanto o presidente norte-americano, George W. Bush, não mudou o rumo das palavras para os mais que previsíveis capítulos do «terrorismo» e da «segurança mundial», pelo púlpito passaram outros líderes governamentais que alinharam em coro pelas disposições gerais de Lula da Silva e do documento da OIT.
Alessandro Toledo, presidente do Peru, pediu perdão aos «amigos dos países desenvolvidos» para reclamar um «comércio internacional mais equitativo» e uma «rota comercial internacional de mão dupla», palavras consubstanciadas pelo seu homónimo do Uruguai, Jorge Batle, que propôs um fundo da ONU para auxiliar países subdesenvolvidos a construírem infra-estruturas básicas.
Ricardo Lagos, presidente do Chile, foi mesmo mais longe que os seus pares da América Latina. Numa declaração que merece atenção para mais tarde conferir com as práticas, exigiu recursos de «discriminação positiva» para sustentar «medidas políticas internacionais que assegurem que a riqueza chegue a todos por igual».
Tudo por cumprir
A Declaração do Milénio (DM), assinada em 2000 por chefes de Estado de 189 países, previa a erradicação, até 2015, da fome e da miséria no mundo. Quatro anos passados nada foi cumprido.
- Dos países que se comprometeram a doar 0,7 por cento do PIB para auxilio internacional, a Itália e os EUA são os que mais longe se encontram da meta.
- A DM contava reduzir a metade as pessoas que sobrevivem com menos de um dólar por dia ou morrem de fome. Actualmente, um bilião e duzentos milhões de pessoas não têm esse rendimento e outras 800 mil padecem de subnutrição.
- Longe do objectivo da DM, um quinto das crianças em idade escolar continua a não ter instrução primária.
- Ao invés de regredir, a SIDA é a principal causa de morte na África subsahariana e a quarta no mundo.
- Um quinto da população mundial não acede a água potável e a mortalidade infantil, longe do objectivo de redução para um terço da actual, mata 1200 crianças menores de cinco anos em cada hora.