Um homem subindo a pé

Correia da Fonseca
Ia eu a descer com cuidado a ladeira íngreme e cheia de curvas, carregando mais vezes no pedal do travão do que desejaria porque as voltas apertadas eram ameaças de despiste, quando me cruzei com ele. Não era velho, tinha seguramente menos idade que eu, mas era claro que a vida sempre o tratara tão mal, com tamanha dureza, que naquele cruzar de percursos eu fazia figura de jovem, ou quase, e ele de velho, e velho decrépito. A dificuldade com que ia escalando a encosta sob o peso de um saco que continha sabe-se lá o quê, as passadas difíceis, os olhos cravados no chão em busca do melhor sítio para firmar os pés, eram certidões de velhice. Seria decerto homem daquela zona, mas a figura a vários títulos dramática marcava um terrível contraste com a doçura da paisagem. Já encontrara por ali outros homens e mulheres que davam um testemunho mudo, mas conclusivo, acerca das tristes condições de vida da gente da região, mas nunca como aquele trepador surgido da dobra de uma curva. E, contudo, não estava em nenhum lugar do Portugal do interior, dito profundo, onde o tempo parece ter parado há muitos anos em plena Idade da Pobreza; era, afinal, faixa litoral, apenas uns cem quilómetros ao norte de Lisboa. E, contudo, o que li no rosto daquele homem, devastado por cansaços intermináveis, foi que ali não era ainda a Europa, era um qualquer terceiro mundo de antigas rotinas sem horizontes nem esperanças. Por isso tanto me lembrei dele, meu compatriota, mais de todos os homens e mulheres que encontrei durante aqueles dias em que andei por ali, por aquela zona, a fazer figura de privilegiado, a verificar que de facto o sou em confronto com eles. E, à noite, a surpreender-me por vezes ao verificar que as notícias do meu País que a televisão me traz não me falam nunca daquele homem, nem de outros como ele que seguramente existem e que de norte a sul vão subindo penosas ladeiras, ao fim da tarde, carregados de sacos e cansaços, enquanto outros descem os mesmos caminhos mas ao volante de carros, sejam ou não velhos carros como o meu.

Sem eles, quase o deserto

Não é que a TV de todo suprima qualquer informação acerca da vida real dos portugueses, não da vida de faz-de-conta, tolinha e insignificante, que nos é narrada como quotidiano nas novelas da TVI e da SIC para consumo acéfalo, mas da vida efectivamente vivida. No mesmo dia em que me cruzei com o meu compatriota aparentemente esmagado por uma existência arrasante, vi na TV as gentes da vila do Redondo, com a qual tenho por sinal uma relação específica embora só por lá tenha passado poucas e breves vezes, a enfrentar na rua a GNR só por não querer que lhe encerrem o Centro de Saúde local quando ainda há luz diurna no céu. E, na verdade, todos os dias os telenoticiários das diversas estações, mais das privadas que da institucional RTP, nos trazem notícias de algo que vai mal aqui e ali e dos protestos populares que essas situações geram. São, porém, apenas salpicos de desconforto num quadro global que se presume positivo, a caminho de ser feliz um dia destes se é que não o é desde já. Até porque, todos os dias algumas destacada figura nacional o repete perante as câmaras da TV: a retoma já aí está, à porta, prestes a entrar. Talvez só lhe falte limpar as solas dos sapatos, que devem vir bem sujas dos caminhos por onde andou, se é que andou.
Contudo, confronto estes anúncios de retoma iminente ou já iniciada com a imagem do meu compatriota a escalar, de saco às costas, a colina que eu desci com cuidado, agarrado ao volante. A questão é que duvido de que a tal retoma tenha alguma coisa a ver com ele. E não apenas com ele como com os muitos velhos que vi a manquejar ou não pelas ruas de vilas e aldeias, pelas bermas de estradas. E com os muitos desempregados de longa duração com quem falei e em quem encontrei um desespero que já não se atenua com cantiguinhas de embalar, mesmo se entoadas pelas gargantas bem afinadas e ensaiadas dos solistas da área do governo. Deste nosso País onde há um punhado de anos habitou um projecto de justiça, retirem-se os doentes que não conseguem ser tratados como é preciso, os jovens que não conseguem um emprego que minimamente lhes permita construir a sua vida, os velhos que não têm dinheiro para comer o que lhes é necessário nem para os medicamentos que a doença lhes reclama, os trabalhadores que de todo não sabem se o seu emprego vai durar mais um ano, retire-se toda essa gente e fica o deserto, ou quase. E é disso que não me fala a «nossa» televisão. A mim, que estou cansado de esperar que ela se torne, de facto, portuguesa.


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