Saudades do «Acontece»
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, os mortos esquecem depressa. A regra, se regra é, tem naturalmente excepções e não se aplica apenas às pessoas que «deixaram de ser vistas», como escreveu Pessoa: também, por exemplo aos programas de televisão. Assim, tendo-se completado há alguns dias um ano sobre o desaparecimento do programa «Acontece», assassinado por um ainda inexplicado furor do ministro Morais Sarmento, pareceu-me que poucos se lembrariam da triste efeméride. Enganei-me, e ainda bem. Conversando com uns e com outros, dei-me conta de que não apenas o «Acontece» continua a ser lembrado como é a própria RTP a fazer, embora involuntariamente, para que seja assim. E até tive a surpresa de deparar no «DN» com um artigo do dr. João César das Neves abordando com assumida mágoa o desaparecimento do programa de Carlos Pinto Coelho e o ano desde então decorrido. Foi, para mim, mais uma lição, e esta motivada postumamente pelo «Acontece»: é tão verdade que nada é impossível neste mundo que até eu, um dia, me surpreendi a concordar quase fervorosamente com o dr. César das Neves. Talvez com um ou outro ponto de tendencial discordância, o que me parece de todo irrelevante em confronto com a dimensão do inesperado fenómeno. Quanto à frequente, se não generalizada, lembrança saudosa do «Acontece» entre os telespectadores, é afinal compreensível e o meu erro foi não reflectir um poucochinho: é que todas as noites os telespectadores da «2:», pelo menos esses, deparando com os programas que pretensamente vieram substituir o programa eliminado, fazem um confronto entre o que agora lhes é fornecido e o que há um ano lhes foi roubado. É, pois, como acima ficou escrito: a própria RTP se encarrega, aparentemente sem dar por isso, de nos impedir que esqueçamos o «Acontece». Também é, digamos, natural: não são poucas as vezes em que a RTP não sabe ao certo o que faz. Mas, infelizmente., vai fazendo.
A apetência e o fastio
Muitas vezes se disse, embora por outras palavras: o «Acontece» era feito por gente da terra, não por anjos dos céus, e por isso tinha defeitos. Muitos, talvez. E é curiosa esta minha incerteza quanto ao número e à dimensão dos defeitos do «Acontece», porque dos seus méritos julgo lembrar-me muito bem, e isto é capaz de querer dizer alguma coisa. Sabe-se que as matérias acerca das quais «Acontece» nos dava informação sumária, mas também alguma coisa mais, estão agora dispersas por diversas emissões de «Magazine»: livros, música, artes plásticas, cinema, artes ditas «do palco» (teatro, bailado, algumas outras), por aí fora. De cada uma delas dá-nos «Magazine» não apenas notícias. Mas comete um pecado mortal: é chato, às vezes tende a ser retorcido, não dá o mínimo sinal de ter a vocação de ser agente de ligação entre vida cultural e público, sequer de se aperceber de que esse é o seu dever primeiro como programa num meio de comunicação de massas. Em suma, «Acontece» apetecia e «Magazine» provoca fastio. Pelo que, já se vê, desliza de momento cultural para mensagem desculturalizante.
Curiosamente, recordo-me que, numa entrevista dada à imprensa, o dr. Nuno Morais Sarmento, de quem não direi que foi a alma danada da paixão e morte do «Acontece» porque uma coisa dessas não se diz de um senhor ministro (para mais, recentemente promovido a «de Estado»), disse desejar que a acção da RTP no plano cultural se aproximasse mais de um nível popular da fruição da cultura e dos seus bens. As palavras são minhas, mas creio que não traem o pensamento ministerial, necessariamente elevado. Pois bem: acontece (...) que a execução do «Acontece» e a partilha dos seus despojos pelas diversas emissões do «Magazine» corresponderam de facto a um movimento em sentido contrário ao preconizado pelo senhor ministro. Admito, é claro, que os que se encarregaram da tarefa e a puseram na prática que hoje testemunhamos entendam que o senhor ministro é ministro, sim senhor, e ministro bem respaldado, mas não é preciso ligar a tudo quanto ele diga. Podem até ter suspeitas de que a popularização da cultura pode significar, nas palavras ministeriais, Marco Paulo com braços no ar em fundo ou, no pólo oposto, qualquer coisa como «sexo, drogas e rock’n roll», pelo que terão achado melhor esquecer. Uma coisa, porém, é certa: «Magazine» exige com frequência alguma força de vontade do telespectador médio, «Acontece» era um encontro saboroso e, por isso, apelativo. De onde lembrá-lo um ano depois. De onde as saudades.
A apetência e o fastio
Muitas vezes se disse, embora por outras palavras: o «Acontece» era feito por gente da terra, não por anjos dos céus, e por isso tinha defeitos. Muitos, talvez. E é curiosa esta minha incerteza quanto ao número e à dimensão dos defeitos do «Acontece», porque dos seus méritos julgo lembrar-me muito bem, e isto é capaz de querer dizer alguma coisa. Sabe-se que as matérias acerca das quais «Acontece» nos dava informação sumária, mas também alguma coisa mais, estão agora dispersas por diversas emissões de «Magazine»: livros, música, artes plásticas, cinema, artes ditas «do palco» (teatro, bailado, algumas outras), por aí fora. De cada uma delas dá-nos «Magazine» não apenas notícias. Mas comete um pecado mortal: é chato, às vezes tende a ser retorcido, não dá o mínimo sinal de ter a vocação de ser agente de ligação entre vida cultural e público, sequer de se aperceber de que esse é o seu dever primeiro como programa num meio de comunicação de massas. Em suma, «Acontece» apetecia e «Magazine» provoca fastio. Pelo que, já se vê, desliza de momento cultural para mensagem desculturalizante.
Curiosamente, recordo-me que, numa entrevista dada à imprensa, o dr. Nuno Morais Sarmento, de quem não direi que foi a alma danada da paixão e morte do «Acontece» porque uma coisa dessas não se diz de um senhor ministro (para mais, recentemente promovido a «de Estado»), disse desejar que a acção da RTP no plano cultural se aproximasse mais de um nível popular da fruição da cultura e dos seus bens. As palavras são minhas, mas creio que não traem o pensamento ministerial, necessariamente elevado. Pois bem: acontece (...) que a execução do «Acontece» e a partilha dos seus despojos pelas diversas emissões do «Magazine» corresponderam de facto a um movimento em sentido contrário ao preconizado pelo senhor ministro. Admito, é claro, que os que se encarregaram da tarefa e a puseram na prática que hoje testemunhamos entendam que o senhor ministro é ministro, sim senhor, e ministro bem respaldado, mas não é preciso ligar a tudo quanto ele diga. Podem até ter suspeitas de que a popularização da cultura pode significar, nas palavras ministeriais, Marco Paulo com braços no ar em fundo ou, no pólo oposto, qualquer coisa como «sexo, drogas e rock’n roll», pelo que terão achado melhor esquecer. Uma coisa, porém, é certa: «Magazine» exige com frequência alguma força de vontade do telespectador médio, «Acontece» era um encontro saboroso e, por isso, apelativo. De onde lembrá-lo um ano depois. De onde as saudades.