O teatro, a dança e a música
O Avanteatro é, desde sempre na Festa do Avante!, um espaço dedicado à representação nas suas múltiplas vertentes.
Juntando a dança e a música na programação deste ano, procura-se abrir o leque e criar formas de expressão comuns às diversas artes de palco.
«Muitas pessoas só vêm teatro uma vez por ano, na Festa do Avante!»
Para perceber as linhas que conduziram a elaboração do programa, fomos conversar com Manuel Mendonça, Maria José Bernardino e Claudia Dias da Comissão do Avanteatro, com Ana Gouveia e Marina Nabais da companhia A Menina dos Meus Olhos e com Elsa Valentim do Teatro dos Aloés.
Da conversa, informal e descontraída, destacam-se as novidades e singularidades dos espectáculos que serão apresentados, dias 3, 4 e 5 de Setembro no «palco dos sonhos» da Festa do Avante!.
Quais as principais componentes da programação deste ano do Avanteatro?
Manuel Mendonça: O Avanteatro abriu-se às artes de espectáculo ou artes de palco, inicialmente com música e, posteriormente, dança.
Retomamos o formato de co-produção, este ano com a companhia Menina dos Meus Olhos, procurando dar importância à estreia, para que as estreias no teatro não se percam como tem acontecido nos últimos anos.
Eu destacaria a programação no seu todo, mas permite-me fazer duas notas.
Em primeiro a co-produção no projecto «A Padeira de Aljubarrota», recusado pela Câmara Municipal de Alcobaça e que nós, dentro das nossas possibilidades, estamos a apoiar.
E um outro espectáculo que é «A Grande Imprecação Diante as Muralhas da Cidade».
Então «A Padeira de Aljubarrota» é uma peça que nunca esteve em cena?
Marina Nabais: Este espectáculo é um risco do Avanteatro, porque apadrinha um projecto que, para nascer, precisa de alguma base, e este foi o primeiro sítio que nos acolheu. Não se trata de uma recriação histórica da Padeira de Aljubarrota, é antes um mote que passa por uma heroína nacional - com todas as especulações que foram feitas em torno da sua figura - para levantar uma série de questões mais universais, como a da condição da mulher numa visão contemporânea como ponto de partida.
E o facto de apresentarem na Festa do Avante! uma peça que coloca questões tão centrais tem para vocês um significado especial?
M. N. : Penso que sim, até porque essa é uma das temáticas da Festa. Como obviamente é tratada na peça, tem bastante peso.
Esta será uma versão de alguma forma satírica, porque recusamos uma visão exclusivamente negra e por isso procuramos mostrar outro lado da mesma realidade.
M. M. : É um espectáculo multidisciplinar, abrange áreas como a representação, os audiovisuais e, essencialmente, a dança.
A dança utiliza cada vez mais esta vertente, mas não só. Algumas companhias de teatro já começam a integrar outras áreas nos seus espectáculos e é nesse sentido que vai também a nossa co-produção.
Essa componente evolutiva que se tem denotado no Avanteatro, ao longo de 28 edições da Festa do Avante!, ainda tem muitos caminhos por onde se alargar?
M. M. : Só tem, até porque dentro das artes de espectáculo nada é imutável e, ao longo dos anos, o teatro, a dança ou a música têm sofrido alterações constantes. Podemos continuar a chamar-lhes os mesmos nomes, mas no futuro terão eventualmente outras formas de apresentação.
Como espaço de uma célula profissional das artes de espectáculo do Partido, com esta expressão na Festa, mal de nós seria se parássemos por aqui. Temos é que acolher os novos projectos, como acontece com as co-produções de há quatro anos para cá.
Quando falámos com A Menina dos Meus Olhos não colocámos o mais pequeno condicionalismo, mesmo que um projecto no papel seja uma coisa diferente que depois de concretizado.
È um risco que corremos com a companhia, pode ser um êxito ou não, ainda não sabemos a reacção do público, é uma estreia, mas é certo que acreditamos e da nossa parte queremos dar todas as condições aos criadores e actores.
Digamos que não há um fechamento e, assim, porque não avançar para outras áreas, como as artes circenses, que começam a aparecer como concretizáveis em salas de espectáculo. O que virá a seguir não sei, a ideia é avançar.
30 anos de Abril no Avanteatro
Os 30 anos da Revolução percorrem a Festa, é um tema que aparece no Avanteatro com os «Autos da Revolução», mas também com «A Grande Imprecação Diante das Muralhas da Cidade», um texto que estreou em Portugal ainda antes do 25 de Abril...
Elsa Valentim: A peça foi proibida na época. O director do Instituto Alemão acolheu a encenação do Mário Barradas porque a censura não podia lá ir, mas penso que hoje não terá a mesma carga política que teve na altura, ou pelo menos não se fará uma ligação tão directa como então.
Do que se trata na peça é de uma muralha intransponível onde uma mulher vai reclamar o marido que foi levado para a guerra. Esta muralha era a muralha intransponível do regime, e muito do sentido era dado pelas pessoas que assistiram, ainda que eu ache que esse tipo de poder ainda existe, mas sob formas diferentes.
E levar essa peça ao palco do Avanteatro é festejar 30 anos de Abril?
E. V. : Sim, desde logo como homenagem aos que tiveram coragem de a fazer antes do 25 de Abril. Passados 30 anos, é uma boa forma de reflectir sobre as mudanças ocorridas e de que forma é que esta «muralha» ganha outros tentáculos, mais subtis provavelmente, mas que se mantêm entre o poder e o cidadão comum.
M. M. : É ainda uma homenagem à companhia, Os Bonecreiros, que na altura teve coragem de levar esta peça à cena e que, ironicamente, acabou por desaparecer depois do 25 de Abril devido às tais «muralhas» que foram surgindo.
Um espaço que marca a diferença
A existência do Avanteatro num evento como a Festa do Avante!, que se diferencia dos restantes, é também uma afirmação da necessidade de espaços dedicados ao teatro, que lhe dêem visibilidade?
E. V. : Penso que é muito importante, tanto para o teatro como para a dança. Imagino que não existam muitos eventos do género da Festa do Avante!.
Cláudia Dias: Um outro aspecto é que o público da Festa e do Avanteatro é muito heterogéneo, com pessoas de várias gerações, faixas etárias, profissões, e muitas vão lá consumir bens culturais como não fazem no seu dia-a-dia.
Isso torna mais fácil ou mais difícil representar no Avanteatro?
C. D. : Depende muito do intérprete, do encenador, do coreógrafo, da postura que assumem, não penso que seja uma questão de facilidade ou dificuldade. Acredito é que para um actor seja gratificante actuar perante um público que quotidianamente não consome bens culturais, muitas vezes por questões sociais, não só económicas.
Como é que isso se traduz? Numa falta de «sensibilidade» para o teatro?
M. M. : Não é uma questão de sensibilidade. Por vezes temos uma ideia errada do País em que vivemos.
Se percorrermos Portugal encontramos réplicas do La Scala de Milão ou grupos de teatro amador que vão resistindo.
As companhias itinerantes, umas profissionais, outras amadoras, iam a muitos lugares, hábito que começou a ser destruído pelo Estado Novo.
Após o 25 de Abril tivemos espectáculos que esgotaram durante um ano, como no Teatro Aberto, que tinha 450 lugares. Essa peça saiu da sala porque o secretário de Estado decidiu cortar subsídios ao teatro dito «independente», que tinha emergido com o 25 de Abril.
Mas os espectadores que então se formaram mantiveram-se fiéis. Por vezes nas condições mais vagabundas as pessoas resistiram e continuaram a lotar sessões de espectáculos que muita gente considera como sendo de teatro «difícil», «sério», não eram a comédia de sofá ou a Revista.
Depois, o poder começou a limitar as pessoas através das condições económicas, com o custo de vida a aumentar e a receita de cada um a diminuir, obrigando a escolher entre a comida para toda a semana e os bilhetes para peças de teatro.
C. D. : Claro que a isso acrescentam-se questões de formatação das escolhas e os interesses políticos na área cultural, no sentido de a transformar numa grande indústria, num negócio rentável.
Muitos palcos
Vai funcionar ainda uma vertente musical no bar do Avanteatro. O que é que se pretende com esta iniciativa?
Maria José Bernardino: Um ambiente descontraído que, mesmo não tendo o peso do Auditório 1.º de Maio, prima pela qualidade dos músicos como o Quarteto Miguel Amado, com jazz, e o Rui Júnior, com percussão.
C. D. : É a Festa, logo a componente de confraternização e convívio, com a música e o bar, fazem parte.
M. M. : Sublinhar que a programação do bar do Avanteatro corresponde a uma necessidade que temos sentido, a existência de um espaço de confraternização e debate neste contexto.
A abertura do Avanteatro a outras áreas faz do bar um espaço onde isso pode acontecer. Este ano com a componente musical vamos ter jazz e percussão.
Por outro lado é uma forma de estendermos a Festa. Ela só dura três dias, gostávamos que fosse mais, e o bar surge como local abrangente para dignificar outras formas expressão das artes de palco, como a música ou a dança, dando-lhes possibilidade e condições para actuarem.
Dizer também que participar no Avanteatro é extremamente gratificante, tanto para quem faz como para quem assiste. Muitas pessoas só vêm teatro uma vez por ano, na Festa do Avante!, um evento de dimensão nacional que funciona como uma montra de possibilidades e convites para as companhias.
Gostava de destacar por fim qualidade da programação, para além das duas peças que já referi.
O CENDREV, com os «Autos da Revolução», que foi das primeiras companhias a assumir um projecto fora de Lisboa e que aposta na formação multidisciplinar, ou o Teatro Extremo com « Velho Palhaço Precisa-se».
Depois as componentes de teatro infantil da Fio D’Azeite, em que a peça «O Gato Cantor» ajuda a formação na área do canto; o atelier de dança para todas as idades com o projecto «Subtone» e a «Sima Meta Morfosis», apresentada pela Cooperativa Cultural PIA, que traz teatro de rua para a Festa.
E em relação à dança, o que é que podemos esperar?
C. D. : O que vamos fazer no Avanteatro!, e que temos feito nos últimos três anos, é mostrar ao público da Festa do Avante! a existência do movimento da nova dança portuguesa.
Este ano vamos ter o «Subtone», que será seguido de um atelier para crianças e adolescentes, uma solução interessante porque depois do espectáculo passa-se à sua desconstrução e à apresentação de todos os intervenientes. Depois há um trabalho prático com duas vertentes pedagógicas: uma para explicar a cenografia e o argumento, outra para o movimento o som e a imagem.
Temos ainda um outro espectáculo de dança, com o Miguel Pereira, que é um dos mais conhecidos representantes do movimento.
O que é que é o movimento da nova dança?
C. D. : É algo que surge no final dos anos oitenta através de uma série de coreógrafos e bailarinos que regressaram do estrangeiro - onde estiveram a trabalhar por sua conta e risco - trazendo o conhecimento de uma dança que não se praticava em Portugal. Isto deu lugar a uma série de estruturas profissionais ao nível do trabalho independente, reclamando conteúdos e soluções claramente associados à contemporaneidade.
Projectos a prosseguir
HJ: E depois da Festa, que projectos é que se seguem?
E. V. : No Teatro dos Aloés temos, até ao final do ano, uma co-produção que se chama «A Dança da Morte»,com o Teatro da Rainha.
Um outro projecto é levar o teatro às escolas, recordando Tchecov no ano do centenário da sua morte. A ideia é aproximar o teatro das crianças, que use e intervenha no seu espaço habitual.
M. N. : A Menina dos Meus Olhos vai fazer circular a peça que apresentamos no Avanteatro. Já temos confirmado um espectáculo na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão e, se conseguirmos, queremos representar em Lisboa, embora isso seja cada vez mais difícil.
Continuamos com a componente pedagógica dos ateliers e queremos iniciar uma nova criação.
Da conversa, informal e descontraída, destacam-se as novidades e singularidades dos espectáculos que serão apresentados, dias 3, 4 e 5 de Setembro no «palco dos sonhos» da Festa do Avante!.
Quais as principais componentes da programação deste ano do Avanteatro?
Manuel Mendonça: O Avanteatro abriu-se às artes de espectáculo ou artes de palco, inicialmente com música e, posteriormente, dança.
Retomamos o formato de co-produção, este ano com a companhia Menina dos Meus Olhos, procurando dar importância à estreia, para que as estreias no teatro não se percam como tem acontecido nos últimos anos.
Eu destacaria a programação no seu todo, mas permite-me fazer duas notas.
Em primeiro a co-produção no projecto «A Padeira de Aljubarrota», recusado pela Câmara Municipal de Alcobaça e que nós, dentro das nossas possibilidades, estamos a apoiar.
E um outro espectáculo que é «A Grande Imprecação Diante as Muralhas da Cidade».
Então «A Padeira de Aljubarrota» é uma peça que nunca esteve em cena?
Marina Nabais: Este espectáculo é um risco do Avanteatro, porque apadrinha um projecto que, para nascer, precisa de alguma base, e este foi o primeiro sítio que nos acolheu. Não se trata de uma recriação histórica da Padeira de Aljubarrota, é antes um mote que passa por uma heroína nacional - com todas as especulações que foram feitas em torno da sua figura - para levantar uma série de questões mais universais, como a da condição da mulher numa visão contemporânea como ponto de partida.
E o facto de apresentarem na Festa do Avante! uma peça que coloca questões tão centrais tem para vocês um significado especial?
M. N. : Penso que sim, até porque essa é uma das temáticas da Festa. Como obviamente é tratada na peça, tem bastante peso.
Esta será uma versão de alguma forma satírica, porque recusamos uma visão exclusivamente negra e por isso procuramos mostrar outro lado da mesma realidade.
M. M. : É um espectáculo multidisciplinar, abrange áreas como a representação, os audiovisuais e, essencialmente, a dança.
A dança utiliza cada vez mais esta vertente, mas não só. Algumas companhias de teatro já começam a integrar outras áreas nos seus espectáculos e é nesse sentido que vai também a nossa co-produção.
Essa componente evolutiva que se tem denotado no Avanteatro, ao longo de 28 edições da Festa do Avante!, ainda tem muitos caminhos por onde se alargar?
M. M. : Só tem, até porque dentro das artes de espectáculo nada é imutável e, ao longo dos anos, o teatro, a dança ou a música têm sofrido alterações constantes. Podemos continuar a chamar-lhes os mesmos nomes, mas no futuro terão eventualmente outras formas de apresentação.
Como espaço de uma célula profissional das artes de espectáculo do Partido, com esta expressão na Festa, mal de nós seria se parássemos por aqui. Temos é que acolher os novos projectos, como acontece com as co-produções de há quatro anos para cá.
Quando falámos com A Menina dos Meus Olhos não colocámos o mais pequeno condicionalismo, mesmo que um projecto no papel seja uma coisa diferente que depois de concretizado.
È um risco que corremos com a companhia, pode ser um êxito ou não, ainda não sabemos a reacção do público, é uma estreia, mas é certo que acreditamos e da nossa parte queremos dar todas as condições aos criadores e actores.
Digamos que não há um fechamento e, assim, porque não avançar para outras áreas, como as artes circenses, que começam a aparecer como concretizáveis em salas de espectáculo. O que virá a seguir não sei, a ideia é avançar.
30 anos de Abril no Avanteatro
Os 30 anos da Revolução percorrem a Festa, é um tema que aparece no Avanteatro com os «Autos da Revolução», mas também com «A Grande Imprecação Diante das Muralhas da Cidade», um texto que estreou em Portugal ainda antes do 25 de Abril...
Elsa Valentim: A peça foi proibida na época. O director do Instituto Alemão acolheu a encenação do Mário Barradas porque a censura não podia lá ir, mas penso que hoje não terá a mesma carga política que teve na altura, ou pelo menos não se fará uma ligação tão directa como então.
Do que se trata na peça é de uma muralha intransponível onde uma mulher vai reclamar o marido que foi levado para a guerra. Esta muralha era a muralha intransponível do regime, e muito do sentido era dado pelas pessoas que assistiram, ainda que eu ache que esse tipo de poder ainda existe, mas sob formas diferentes.
E levar essa peça ao palco do Avanteatro é festejar 30 anos de Abril?
E. V. : Sim, desde logo como homenagem aos que tiveram coragem de a fazer antes do 25 de Abril. Passados 30 anos, é uma boa forma de reflectir sobre as mudanças ocorridas e de que forma é que esta «muralha» ganha outros tentáculos, mais subtis provavelmente, mas que se mantêm entre o poder e o cidadão comum.
M. M. : É ainda uma homenagem à companhia, Os Bonecreiros, que na altura teve coragem de levar esta peça à cena e que, ironicamente, acabou por desaparecer depois do 25 de Abril devido às tais «muralhas» que foram surgindo.
Um espaço que marca a diferença
A existência do Avanteatro num evento como a Festa do Avante!, que se diferencia dos restantes, é também uma afirmação da necessidade de espaços dedicados ao teatro, que lhe dêem visibilidade?
E. V. : Penso que é muito importante, tanto para o teatro como para a dança. Imagino que não existam muitos eventos do género da Festa do Avante!.
Cláudia Dias: Um outro aspecto é que o público da Festa e do Avanteatro é muito heterogéneo, com pessoas de várias gerações, faixas etárias, profissões, e muitas vão lá consumir bens culturais como não fazem no seu dia-a-dia.
Isso torna mais fácil ou mais difícil representar no Avanteatro?
C. D. : Depende muito do intérprete, do encenador, do coreógrafo, da postura que assumem, não penso que seja uma questão de facilidade ou dificuldade. Acredito é que para um actor seja gratificante actuar perante um público que quotidianamente não consome bens culturais, muitas vezes por questões sociais, não só económicas.
Como é que isso se traduz? Numa falta de «sensibilidade» para o teatro?
M. M. : Não é uma questão de sensibilidade. Por vezes temos uma ideia errada do País em que vivemos.
Se percorrermos Portugal encontramos réplicas do La Scala de Milão ou grupos de teatro amador que vão resistindo.
As companhias itinerantes, umas profissionais, outras amadoras, iam a muitos lugares, hábito que começou a ser destruído pelo Estado Novo.
Após o 25 de Abril tivemos espectáculos que esgotaram durante um ano, como no Teatro Aberto, que tinha 450 lugares. Essa peça saiu da sala porque o secretário de Estado decidiu cortar subsídios ao teatro dito «independente», que tinha emergido com o 25 de Abril.
Mas os espectadores que então se formaram mantiveram-se fiéis. Por vezes nas condições mais vagabundas as pessoas resistiram e continuaram a lotar sessões de espectáculos que muita gente considera como sendo de teatro «difícil», «sério», não eram a comédia de sofá ou a Revista.
Depois, o poder começou a limitar as pessoas através das condições económicas, com o custo de vida a aumentar e a receita de cada um a diminuir, obrigando a escolher entre a comida para toda a semana e os bilhetes para peças de teatro.
C. D. : Claro que a isso acrescentam-se questões de formatação das escolhas e os interesses políticos na área cultural, no sentido de a transformar numa grande indústria, num negócio rentável.
Muitos palcos
Vai funcionar ainda uma vertente musical no bar do Avanteatro. O que é que se pretende com esta iniciativa?
Maria José Bernardino: Um ambiente descontraído que, mesmo não tendo o peso do Auditório 1.º de Maio, prima pela qualidade dos músicos como o Quarteto Miguel Amado, com jazz, e o Rui Júnior, com percussão.
C. D. : É a Festa, logo a componente de confraternização e convívio, com a música e o bar, fazem parte.
M. M. : Sublinhar que a programação do bar do Avanteatro corresponde a uma necessidade que temos sentido, a existência de um espaço de confraternização e debate neste contexto.
A abertura do Avanteatro a outras áreas faz do bar um espaço onde isso pode acontecer. Este ano com a componente musical vamos ter jazz e percussão.
Por outro lado é uma forma de estendermos a Festa. Ela só dura três dias, gostávamos que fosse mais, e o bar surge como local abrangente para dignificar outras formas expressão das artes de palco, como a música ou a dança, dando-lhes possibilidade e condições para actuarem.
Dizer também que participar no Avanteatro é extremamente gratificante, tanto para quem faz como para quem assiste. Muitas pessoas só vêm teatro uma vez por ano, na Festa do Avante!, um evento de dimensão nacional que funciona como uma montra de possibilidades e convites para as companhias.
Gostava de destacar por fim qualidade da programação, para além das duas peças que já referi.
O CENDREV, com os «Autos da Revolução», que foi das primeiras companhias a assumir um projecto fora de Lisboa e que aposta na formação multidisciplinar, ou o Teatro Extremo com « Velho Palhaço Precisa-se».
Depois as componentes de teatro infantil da Fio D’Azeite, em que a peça «O Gato Cantor» ajuda a formação na área do canto; o atelier de dança para todas as idades com o projecto «Subtone» e a «Sima Meta Morfosis», apresentada pela Cooperativa Cultural PIA, que traz teatro de rua para a Festa.
E em relação à dança, o que é que podemos esperar?
C. D. : O que vamos fazer no Avanteatro!, e que temos feito nos últimos três anos, é mostrar ao público da Festa do Avante! a existência do movimento da nova dança portuguesa.
Este ano vamos ter o «Subtone», que será seguido de um atelier para crianças e adolescentes, uma solução interessante porque depois do espectáculo passa-se à sua desconstrução e à apresentação de todos os intervenientes. Depois há um trabalho prático com duas vertentes pedagógicas: uma para explicar a cenografia e o argumento, outra para o movimento o som e a imagem.
Temos ainda um outro espectáculo de dança, com o Miguel Pereira, que é um dos mais conhecidos representantes do movimento.
O que é que é o movimento da nova dança?
C. D. : É algo que surge no final dos anos oitenta através de uma série de coreógrafos e bailarinos que regressaram do estrangeiro - onde estiveram a trabalhar por sua conta e risco - trazendo o conhecimento de uma dança que não se praticava em Portugal. Isto deu lugar a uma série de estruturas profissionais ao nível do trabalho independente, reclamando conteúdos e soluções claramente associados à contemporaneidade.
Projectos a prosseguir
HJ: E depois da Festa, que projectos é que se seguem?
E. V. : No Teatro dos Aloés temos, até ao final do ano, uma co-produção que se chama «A Dança da Morte»,com o Teatro da Rainha.
Um outro projecto é levar o teatro às escolas, recordando Tchecov no ano do centenário da sua morte. A ideia é aproximar o teatro das crianças, que use e intervenha no seu espaço habitual.
M. N. : A Menina dos Meus Olhos vai fazer circular a peça que apresentamos no Avanteatro. Já temos confirmado um espectáculo na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão e, se conseguirmos, queremos representar em Lisboa, embora isso seja cada vez mais difícil.
Continuamos com a componente pedagógica dos ateliers e queremos iniciar uma nova criação.