Na Alemanha, com cedências sindicais

Chantagem para abolir direitos

Gigantes industriais alemães ameaçam deslocalizar fábricas se não virem aumentada a jornada de trabalho. Alguns sindicatos cedem e quem perde são os trabalhadores.

Os sindicatos assinaram acordos inaceitáveis, que permitem quase tudo

A supressão dos tempos de pausa remunerados e do pagamento suplementar do trabalho nocturno, bem como a limitação dos aumentos salariais, são as exigências feitas pela DaimlerChrysler para manter a sua fábrica em Sindelfingen, perto de Estugarda. As negociações entre trabalhadores e administração começaram em Junho, mas as posições endureceram nos últimos dias. No dia 15, milhares de trabalhadores da fábrica estiveram em greve.
A direcção pretende condicionar os investimentos suplementares para produzir na fábrica o modelo Classe C à aceitação das suas exigências. Segundo a empresa, as medidas que pretende tomar contribuem para «libertar» os 500 milhões de euros necessários para o avanço desta produção. A administração ameaça – caso não veja satisfeitos os seus intentos – com a deslocalização da produção para a África do Sul e para Bremem, no norte da Alemanha, onde as pausas não são remuneradas e o trabalho nocturno é pago a singelo. Confrontados com esta chantagem, os 12 mil trabalhadores da fábrica começaram os protestos no passado dia 9, inviabilizando a produção de mil veículos com a realização de greves de aviso.
O patronato do sector metalúrgico quer impor em várias empresas aquilo que conseguiu na fábrica da Siemens em Bade-Wurtenburg. Nesta empresa, o sindicato IG Metall acordou o aumento do tempo de trabalho semanal das 35 para as 40 horas, suprimindo os subsídios de Natal e de férias. Os trabalhadores perderam mais de um mês de salário, substituído por um prémio inferior. A empresa conseguiu assim a redução de 30 por cento nos custos de trabalho.

Em muitas empresas e sectores

Desde que, na Primavera, o sindicato dos metalúrgicos aceitou a cláusula que prevê o aumento da jornada de trabalho nas empresas «em dificuldade» ou em casos de despedimento iminente, que estas situações se têm vindo a repetir. E em grandes empresas, longe de caberem na categoria de «empresa em dificuldades».
Na fábrica de Hanover da Continental, mais de 900 trabalhadores cumprem já, desde Junho, uma jornada semanal de 40 horas. Na Bosch de Estugarda há rumores de estar em preparação o aumento dos horários. Também na Bosch, mas em Leinfelden-Echterdingen, a medida poderá afectar 1500 trabalhadores, a quem foi proposta a aceitação de uma quota de horas extraordinárias gratuitas, alegadamente para evitar a deslocalização da produção. A empresa exige a redução de 20 por cento nos custos do trabalho.
A chantagem do patronato para aumentar a jornada de trabalho e reduzir as remunerações dos trabalhadores tem vindo a alastrar aos mais variados sectores. No sector bancário, o sindicato Ver.di assinou no dia 8 um acordo que preconiza um aumento salarial de 2 por cento ao ano, com uma cláusula que admite a possibilidade, «em condições especiais», do aumento do tempo de trabalho sem qualquer compensação na remuneração. Está também prevista a eliminação dos subsídios de férias e Natal.
Esta cláusula, válida por dez anos, é aplicável aos cerca de 430 mil bancários cobertos por esta convenção. A reestruturação em curso no sector bancário alemão provocou já o desaparecimento de 30 mil empregos.
No sector da construção, o patronato exige o aumento da jornada de trabalho das actuais 39 horas para 42. A justificação utilizada é a mesma de outros sectores: a «redução de custos».

Vários sectores põem em causa direitos
Acordo na Siemens deu o mote

Desde o «acordo» selado na Siemens entre o patronato e os sindicatos – a que o deu relevo na sua última edição – que em vários sectores se reclama o aumento da jornada de trabalho bem como a abolição de outros direitos dos trabalhadores. Os patrões têm vindo a pronunciar-se pelo aumento generalizado dos tempos de trabalho e em várias empresas este é já uma realidade.
Enquanto um responsável da federação do grande comércio e exportação, Michael Fuchs declarou que «uma semana de férias a menos não mata ninguém», o chefe do patronato da indústria, Michael Rogowski, contestava as seis semanas de férias pagas, bem como os feriados remunerados.
Já alguns economistas preconizam a semana de 40 horas, com um corredor de flexibilidade entre as 30 e as 50 horas, obviamente ao sabor dos interesses patronais. Também a oposição de direita (conservadores e liberais), concorda com o aumento generalizado da jornada de trabalho.
Ao mesmo tempo, a federação sindical DGB pediu para que não se extrapolasse o «acordo» alcançado na Siemens a outras empresas e sectores, enquanto que a federação da metalurgia IG Metall ameaçou recorrer à greve para defender a jornada das 35 horas.
O primeiro-ministro alemão, Gerard Schröeder, apelou a que não se introduza ideologia na discussão de «um número particular como 35 ou 40 horas». E, em sintonia com as exigências patronais, apelou à flexibilidade.


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