Valor de troca no negócio futebolístico

Francisco Silva
Quando aproveitaste (refiro-me, claro, ao autor destas linhas), dizia, quando aproveitaste, há algum tempo, a oportunidade da mediática operação «apito dourado» para escrever sobre a natureza – natu elaboraste ter reza em termos de valor de troca, bem entendido – do negócio do futebol, o texto que então á ficado, no mínimo, um bocado opaco quanto a este objectivo. É indubitável o facto de que aproveitar os factos ocorrentes – que vão sendo notícia –, ligando-os a assuntos cujo tratamento se considera serem importantes, constitui mesmo o método adequado a este género de escrita. Contudo, também não é menos certo deverem os textos deste tipo cingir-se – serem focados –, de modo suficiente (?), ao assunto em questão; e isto por mais complexa e carecida de referências de enquadramento que a concreta situação comunicacional pareça ser e estar. Sabe-se. Por vezes não é fácil, mais vezes ainda falta a arte ao escriba, mas, nem por isso, deverá este desistir dos princípios de clareza e focagem. Por isso, volto aqui ao assunto daquilo que vale bom dinheiro no negócio do futebol.
Com tal objectivo, segue-se escrevendo: o futebol (tal como o basquetebol, sobretudo nos EUA, ou a Fórmula 1, ou outros), enquanto negócio de «conteúdo» que é – utilizando o calão «perito» em voga –, deve ser pensado e operado sem esquecer as suas origens competitivas. E estas origens implicam o facto de a vontade de usufruir – de consumir (?) – do serviço prestado através das competições futebolísticas aos espectadores dever ser cuidada levando em conta, como uma prioridade, os sentimentos dos clientes – e as suas derivadas paixões – de pertença a grupos, clubes, países-nações, comunidades (este último é um termo muito usado hoje em dia), sentimentos próprios, neste caso, de apoiantes que aqueles são. Mas, junto a estes sentimentos de pertença, constitui com frequência também um factor de reforço, de grande importância – é certo –, mas quantas vezes em contradição com o objectivo de obtenção de resultados positivos nas competições, o tratamento emocional dado às estrelas que alcançam a primeira grandeza mediática.

O miolo

Com efeito, o destacar e glorificar as estrelas favoritas, as suas vidas, o que comem, o que arrotam, quem e como namoram, como trabalham para a sua imagem, inclusive através de fintas e rodriguinhos enquanto actuam em campo, etc., pode constituir, e constitui, uma atracção para o «público» e contribuem de forma decisiva para o seu share dos média.
Contudo, a criação de lendas de meninos de ouro mediáticos e o trabalhar para o sonho dos consumidores com base em histórias de meninos que eram pobres e se transformaram em milionários só por acaso é compatível com a obtenção de bons resultados nas competições. Resultados a exigirem antes posturas que são o contrário das do jogador «dói-dói», tal como entendi de Scolari, as posturas de queixas de pequenas maleitas ou mesmo de maleitas imaginárias. Resultados a requererem, para acontecerem, doses enormes de trabalho [colectivo e individual para o colectivo] e sacrifício, ambos incompatíveis com os expontaneísmos e diletantismos – os milagres, o maravilhoso –, ambas as vertentes, por outro lado, necessárias à construção dos sucessos mediáticos, incluindo na indispensável área da publicidade da oferta de produtos para o conjunto do sistema económico.
Porque, sem resultados positivos nas competições, obtidos com uma certa regularidade, é impossível sustentar a criação de valor só com base em sentimentos de pertença – de pertença a algo que só tem hoje valor imaginário, que o teve no passado ou mesmo nunca? E sem trabalho sério não há criação de valor, mais ainda em actividades de conteúdo, onde o trabalho eficaz e criativo – isto é, não consistindo apenas em tarefas de complemento ao trabalho «morto» de «instalações técnicas» que «produzem» - é a mola real da actividade.
Em conclusão: não obstante a existência de interesses envolvidos noutras áreas correlacionadas de criação de valor – acima de todas, as dos cimentos e dos terrenos por alturas da construção de infra-estruturas «estadiais» de grande impacto nos territórios dos municípios e regiões –, são, de facto, as receitas do conteúdo que constituem o miolo do empreendimento futebolístico.
Já agora, desculpem o atrevimento que foi o do curioso, mas pensar – e se é mal ou bem pensar, é uma questão de outro nível – pode tornar-se num incoercível vício. Além disso: não percepcionem o dito como um exercício de maldizer. Não foi esse o objectivo.


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