A Palma e o crime

Correia da Fonseca
De um modo geral, as estações portuguesas de televisão não foram muito abundantes quanto à notícia da atribuição da Palma de Ouro do Festival de Cannes ao filme «9/11» de Michael Moore. Aconteceu mesmo que foi graças ao Euronews, como se sabe distribuído por cabo, que tive acesso a um maior número de minutos acerca do galardão. Não sei a que se deva atribuir com justiça esta parcimónia das TVs lusitanas mas, entre outras explicações possíveis, inclino-me a suspeitar de que a decisão de Cannes não agradou a alguns com poder bastante para condicionarem estas coisas do laconismo ou da tagarelice na área das notícias. Aliás, o mesmo azedo desagrado foi mais que sensível, óbvio, nos textos que alguns enviados especiais de jornais de referência mandaram de Cannes: a decisão não lhes caiu bem. E, de resto, mesmo em Cannes o desagrado de muitos terá sido suficiente para que tenha havido uma conferência de imprensa dada para pública explicação das razões do júri. Achei lindamente, já se vê. Simetricamente, acho que os contestatários da decisão deviam também eles dar conferência de imprensa para informarem as populações, com verdade e o coração nas mãos, por que diabo se zangaram tanto por verem o maior prémio do mais prestigiado festival de cinema ser atribuído a um filme adequadamente etiquetado como «anti-Bush». Receio, porém, que no caso de o fazerem se entrincheirassem preferentemente em argumentos fluidos da área da teoria estética e de conceitos de arte supostamente pura. Por falta de coragem, de lucidez ou de sinceridade, parece-me.

Uma excomunhão com endereço

De qualquer modo, a Palma de Ouro atribuída em 2004 a um filme abertamente «engagé», muitos anos depois de estar generalizada, embora não unanimemente aceite, a regra de que a arte ou o que com ela se pareça não deve meter-se nestas coisas da política, sob pena de ser excomungada pelos sumos sacerdotes que mandam no templo, é extremamente interessante e, com um bocado de sorte, pode ser fecunda. A «apolitização da arte» decretada com um carácter quase sagrado fez um longo caminho nos últimos cinquenta anos, contas redondas, com a curiosa particularidade de exibir uma coerência interna duvidosa: fulminava com uma tendencial irradiação o empenhamento de expressão literária, cinematográfica ou outra, que consubstanciasse uma intervenção contra os valores das direitas triunfantes e hegemónicas, mas tolerava de bom grado, quando não abençoava, produções que prolongassem no território das artes a cruzada anticomunista que continua bem viva e admiravelmente alimentada, a despeito do sempre proclamado óbito do comunismo. A escandalizada reprovação com que muitos respondem à Palma de Ouro de Cannes integra-se perfeitamente nesta interessante dualidade. Já ninguém de jeito se atreve a cuspinhar algum desdém sobre «O Ditador» de Chaplin, mas «9/11» chegou agora, está aí a jeito, e, embora com méritos decerto desiguais, é também a denúncia de um assassino internacional com poderes de chefia de um estado. Desmascará-lo, denunciá-lo à consciência mundial, é um imperativo de civismo elementar. E não consta que os artistas e a arte estejam isentos do dever primordial de militarem em favor da vida e das condições concretas que fazem com que a vida mereça ser vivida.

Penso que esta última afirmação é susceptível de ser objectada: há quem pense que as artes não têm de preocupar-se com esses pormenores rasteiros que serão a justiça, a solidariedade, coisas assim. É uma velha polémica: se bem me lembro, já há um ror de anos, ainda o nazifascismo se preparava para mergulhar o mundo no horror, a expressão gideana «au dessus de la melée», foi entendido como um apelo aos intelectuais para não se meterem em brigas menores. Rodaram décadas, e agora surgem espíritos maldispostos porque o júri de Cannes achou muito bem que Moore, envolvendo-se na «melée», fez um filme a informar o mundo em geral e os norte-americanos em especial de que W. Bush, sendo provavelmente imbecil (Hitler era «louco», lembram-se?) é um criminoso perigosíssimo cuja carreira deve terminar. Para mal desses, porém, acontece que há escritores e artistas que, não estando a soldo directo ou indirecto dos grandes poderes, se recusam a renunciar à condição de gente viva e desperta. E não separam o acto criador do dever de intervir. E às vezes, lá de vez em quando, recebem uma Palma de Ouro.


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