Médicos

Francisco Mota
Chegávamos à escola e lá estava o inevitável mapa de Portugal com as serras, os rios e as linhas de caminhos de ferro. Ao lado, outro com um homem meio aberto onde se viam os pulmões, coração, estômago, intestinos e outras miudezas que se supõe que todos temos debaixo da pele. Depois tínhamos que dizer de cor uma quantidade de nomes de coisas, de utilidade duvidosa, mas que ficavam dentro de nós. Eu continuo a saber todas as serras do sistema galaico-duriense: Peneda, Soajo, Gerês, Larouco, Marouco, Falperra, etc, e que acabava como uma linha avançada de uma equipa de futebol daquela altura: Montesinho, Bornes, Nogueira, Mogadouro e Moncorvo. Estava claro, Nogueira era o avançado centro.
As linhas de caminho de ferro também tinham o seu interesse mas a minha preferência ia para os ramais: Ramal de Cáceres: Torre das Varjens, Cunheira, Vale do Peso, Castelo de Vide e Marvão. Ou para o de Braga que era dos fáceis/difíceis: «de Nine a Braga».
Também sabíamos os rios. Alguns tinha-lhes dado para nascer em Espanha, mas na primeira linha já tinham entrado em Portugal e não se lhe conheciam afluentes que não fossem nossos. Com os afluentes eu mantinha uma relação de grande intimidade, quer os do Douro: Sabor, Tua, Corgo, Tâmega e Sousa, ou do Tejo: Erges, Ponsul, Ocreza, Zêzere, Maior e Trancão. Devo dizer que uma vez que me perdi numa estrada, de repente, vejo um letreiro que dizia «Rio Ocreza». Parei, olhei para a pequena linha de água e disse-lhe: Já tinha ouvido falar de ti, mas não tinha a certeza de que existisses, obrigado, amigo, ja sei onde estou.
Do nosso corpo aprendiamos o esqueleto e os aparelhos. Isso mesmo: o aparelho digestivo, respiratório, circulatório, etc. De aparelho reprodutor (ou recreativo, como diziam os malcriados da escola) disso nada. E o teu aparelho (circulatório, entenda-se), querido médico e amigo, que era? A resposta correcta era: «compõe-se de coração, artérias, veias e vasos capilares e destina-se a levar o oxigénio ao corpo e a transportar o anidrido carbónico para ser expulso». À parte de ficarmos com má impressão do tal anidrido (se vai ser expulso, é porque fez alguma) acabava aqui.
E de comer que aprendiamos, que aprendeste, doutor? Nada.
E na Faculdade de Medicina que aprendeste? Nada.
Por isso quando hoje te consulto, na tua função de cardiologista (talvez o nome correcto fosse:
coraçãoartériasveiasevasoscapilarogista,
mas admito que não cabia nas vossas placas e no papel das receitas) o que tu e os teus colegas das outras especialidades fazem é receitar proibições: não comas gorduras saturadas, nada de refogados, porco, nem vê-lo, carnes jovens, nada, por causa do ácido úrico.

E se experimentássemos?

Porque é que vocês não falam ao contrário? Um exemplo:
1. - Experimente fazer um bom caldo de vaca, deixe ferver muito, com muito alho, salsa, cenoura e no fim um pouco de arroz ou massa.
2. - Cozinhe porco e outras carnes segundo as receitas tradicionais, aumentando a quantidade de vegetais e no fim ponha no frigorífico e tire a gordura que solidifica à superfície.
3. - Experimente comer legumes, grelhados e legumes grelhados, só com um fio de azeite, na linha do que agora se chama a cozinha mediterrânica, mas que, ao fim e ao cabo, foi o que se comeu durante séculos.
4. - Aumente o consumo de açordas e outras preparações com pão não branco, o velho pão de segunda.
Por outras palavras, porque não aprendem os médicos a cozinhar se todos estamos de acordo que é uma das razões mais importantes da saúde e do bem estar.
Já sei que há pastilhas para fazer baixar o colesterol, a glucose o BUN, os LDL, o GOT, o GPT, mas usando a comidinha não seria mais humano? Claro os laboratórios não iam gostar, mas podiam dedicar-se a inventar comprimidos contra as bactérias PSD/CDS, que tanto mal fazem.
Imagino que estou a pedir muito, porque excepto uns livrinhos de cozinha da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e da Associação dos Diabéticos, de escassa difusão tanto quanto sei, não há nada. Não interessa ao sistema que uma parte do negócio desapareça e, por isso, cada vez se come pior e mais perigosamente.
Então estamos para aqui a sonhar? Pois estaremos. Mas como diz o nosso admirado cantor espanhol Joaquin Sabina «podes sempre ir à farmácia e pedir pastilhas para não sonhar».
Ah! Saltou-me agora de repente: como era o ramal de Tomar? Claro, não te lembras. Era «de Lamarosa a Tomar».
As coisas realmente importantes, querido amigo, nunca podem ser esquecidas.


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