As importações perigosas
No passado domingo, ainda não chegara a hora em que a generalidade dos telespectadores portugueses haveria de ligar para a TVI, era preciso “fazer horas”, como é de uso dizer-se. Dos que são assinantes da TV por cabo, alguns terão sintonizado o canal Hollywood e começado a ver o filme cuja transmissão se iniciou por volta das 16 e 30: «Suspect», de Peter Yates. Se o terão visto até ao fim ou se, a partir das 17 e 15, a atracção da final da Taça foi mais forte, é uma outra questão que será lá com eles. Embora me palpite que pouquíssimos, se apesar de tudo alguns, terão ficado até ao ponto em que Cher, a protagonista, consegue finalmente provar a inocência de um surdo-mudo que a vida degradara e acabara por estar sob suspeita de prática de um homicídio. De qualquer modo e não apenas para benefício de quantos optaram pelo futebol, isto é, confesso que com segundas e pérfidas intenções, quero acrescentar que não apenas o surdo-mudo foi ilibado mas também se tornou visível a existência de corrupções, cumplicidades e até delinquências no tecido judicial norte-americano, pelo menos a avaliar por aquela estória que decerto se inspirou na realidade, ainda que apenas numa pequena parte dela.
Alguns pensarão que venho aqui lembrar o argumento de “Suspect” e a realidade que lhe estará subjacente para, embora indirectamente e com as cautelas que a manobra implicaria, sugerir que também no nosso país, cada vez mais sucumbido à tentativa de imitar os Estados Unidos da América, essa grandessíssima pátria da liberdade e da democracia, naquilo que vá podendo ser, alguns juízes, também eles, vão seguindo o exemplo dos seus homólogos de além-Atlántico até nas práticas eticamente menos recomendáveis, já que noutras áreas, designadamente nas que têm a ver com remunerações e nível de vida, lhes estará vedado seguir-lhes as pisadas. Mas não senhores, longíssimo de mim qualquer vestígio de insinuações desse tipo. O que não estará longe da intenção que me vai guiando os dedos sobre o teclado é, isso sim, coisa diferente: o registo de que está aí à nossa disposição, sob a forma de filmes ou de reportagens, de livros e até de uma ou outra série de TV, material bastante para que saibamos sem margem para dúvidas que os Estados Unidos são um gigantesco armazém de crimes, podridões, violências e práticas correlativas. E que tendem a exportar essa sua tristíssima dimensão para o resto do mundo.
O dever de alerta
Se, porventura, lesse estas linhas algum dos indefectíveis amigos não dos Estados Unidos mas dos poderes que hoje dominam aquela grande nação, logo eu ficaria sob a acusação de anti-americanismo primário. Tal como em muitíssimos outros casos semelhantes, nada seria mais injusto, mas bem se sabe que a defesa do eticamente indefensável, de comportamentos miseráveis de vária ordem, obriga a que se parta desde logo para a calúnia a fim de descredibilizar denúncias, e é isso que os caçadores de “antiamericanos primários” todos dos dias vão fazendo. Contudo, convém saber que se um sujeito, seja ele um obscuro comentador de televisão (e, natural e inevitavelmente, dos conteúdos que a TV transporta), seja uma destacada figura de qualquer área, vem denunciar crimes e podres made in USA, não é pelo suposto gosto de apontar manchas negras e repugnantes no que bem podia ser coisa diferente, mas sim com a intenção de alertar a comunidade a que pertence para os riscos verdadeiramente terríveis que a hegemonia norte-americana ou, dito de outro modo, a colonização cultural (lato senso) que os States exercem sobre o resto do mundo, comporta e implica. Como acima se disse, ainda que apenas de passagem, os Estados Unidos despejam sobre o planeta, de mistura com as variadíssimas exportações que de um modo ou de outro afinal de facto impõem, também o total inescrúpulo, o amoralismo, as diversas formas de violência, que estão no próprio âmago das suas práticas correntes. Sublinha-se: a América US, o espírito americano, a sua verdadeira cultura, não têm nada a ver com esse invisível território de infâmias variadas, e para o sabermos ao certo basta lembrarmo-nos dos grandes escritores e artistas norte-americanos que ao longo do século XX tiveram a coragem de serem “de esquerda”, o que por lá nunca foi nada fácil. Mas o que hoje os Estados Unidos exportam, além das armas e da morte, não tem nada a ver com esses homens e essas mulheres. E é contra a importação pela Europa, pelo nosso País, pelo resto do mundo, dessa mercadoria fétida e letal , que é dever imperioso alertar e travar um combate cultural, isto é, também ideológico. E, sem dúvida, ético.
Alguns pensarão que venho aqui lembrar o argumento de “Suspect” e a realidade que lhe estará subjacente para, embora indirectamente e com as cautelas que a manobra implicaria, sugerir que também no nosso país, cada vez mais sucumbido à tentativa de imitar os Estados Unidos da América, essa grandessíssima pátria da liberdade e da democracia, naquilo que vá podendo ser, alguns juízes, também eles, vão seguindo o exemplo dos seus homólogos de além-Atlántico até nas práticas eticamente menos recomendáveis, já que noutras áreas, designadamente nas que têm a ver com remunerações e nível de vida, lhes estará vedado seguir-lhes as pisadas. Mas não senhores, longíssimo de mim qualquer vestígio de insinuações desse tipo. O que não estará longe da intenção que me vai guiando os dedos sobre o teclado é, isso sim, coisa diferente: o registo de que está aí à nossa disposição, sob a forma de filmes ou de reportagens, de livros e até de uma ou outra série de TV, material bastante para que saibamos sem margem para dúvidas que os Estados Unidos são um gigantesco armazém de crimes, podridões, violências e práticas correlativas. E que tendem a exportar essa sua tristíssima dimensão para o resto do mundo.
O dever de alerta
Se, porventura, lesse estas linhas algum dos indefectíveis amigos não dos Estados Unidos mas dos poderes que hoje dominam aquela grande nação, logo eu ficaria sob a acusação de anti-americanismo primário. Tal como em muitíssimos outros casos semelhantes, nada seria mais injusto, mas bem se sabe que a defesa do eticamente indefensável, de comportamentos miseráveis de vária ordem, obriga a que se parta desde logo para a calúnia a fim de descredibilizar denúncias, e é isso que os caçadores de “antiamericanos primários” todos dos dias vão fazendo. Contudo, convém saber que se um sujeito, seja ele um obscuro comentador de televisão (e, natural e inevitavelmente, dos conteúdos que a TV transporta), seja uma destacada figura de qualquer área, vem denunciar crimes e podres made in USA, não é pelo suposto gosto de apontar manchas negras e repugnantes no que bem podia ser coisa diferente, mas sim com a intenção de alertar a comunidade a que pertence para os riscos verdadeiramente terríveis que a hegemonia norte-americana ou, dito de outro modo, a colonização cultural (lato senso) que os States exercem sobre o resto do mundo, comporta e implica. Como acima se disse, ainda que apenas de passagem, os Estados Unidos despejam sobre o planeta, de mistura com as variadíssimas exportações que de um modo ou de outro afinal de facto impõem, também o total inescrúpulo, o amoralismo, as diversas formas de violência, que estão no próprio âmago das suas práticas correntes. Sublinha-se: a América US, o espírito americano, a sua verdadeira cultura, não têm nada a ver com esse invisível território de infâmias variadas, e para o sabermos ao certo basta lembrarmo-nos dos grandes escritores e artistas norte-americanos que ao longo do século XX tiveram a coragem de serem “de esquerda”, o que por lá nunca foi nada fácil. Mas o que hoje os Estados Unidos exportam, além das armas e da morte, não tem nada a ver com esses homens e essas mulheres. E é contra a importação pela Europa, pelo nosso País, pelo resto do mundo, dessa mercadoria fétida e letal , que é dever imperioso alertar e travar um combate cultural, isto é, também ideológico. E, sem dúvida, ético.