«O Crime do Padre Amaro»

Rogério Feitor
Em 1875, um jovem Eça de Queirós termina o seu romance «O Crime do Padre Amaro». Muito provavelmente influenciado pelo episódio sangrento da Comuna de Paris ocorrido 4 anos antes - cerca de 25 mil execuções para um levantamento justo contra um governo déspota, capitulacionista e anti-republicano -, Eça descreve-nos um Portugal provinciano, com o seu clero devasso e uma pequena burguesia beata e conservadora. A forma romanceada é ultrapassada, pois o seu manuscrito é também a ilustração social de uma época herdeira deste acontecimento tão marcante para a percepção da luta de classes.
No ano passado foi exibido um filme mexicano baseado no romance de Eça, «El Crimen del Padre Amaro», de Carlos Carrera, México. Carrera sublinha a hipocrisia do clero mexicano numa sociedade tão dependente deste como o é da droga. É certo que o seu filme não tem o mesmo valor da escrita de Eça, mas, ao renunciar ao filme de época para aceitar fazer o retrato contemporâneo dum tão influente actor social como é o clero, num país tão rico e tão miserável, Carrera compartilha connosco a sua compreensão da relação dialéctica Homem-Sociedade. E essa é a mesma capacidade de observação presente no romance de Eça.

A droga

No filme, a transposição do romance para a sociedade mexicana contemporânea é o resultado de um trabalho escorreito e bem pensado. A relação entre o padre Amaro e Amélia continua a ser a melodia principal do argumento, apesar das muitas alterações introduzidas: a ligação do clero com a droga, o aborto de Amélia, a ligação do padre progressista com os rebeldes. No México a ligação do clero aos traficantes de droga é frequente, assim como a lavagem de dinheiro sujo através da sua utilização em obras de beneficência. A situação é complexa se bem que o conflito de interesses é desequilibrado: procurarão os traficantes uma absolvição dos seus pecados ao doar dinheiro para a construção de hospitais para crianças? Mas, sendo assim, não é aplicado nenhum processo judicial, uma vontade «divina» (neste caso a vontade institucional da Igreja Mexicana) sobrepõe-se à vontade humana, do povo. Como que para contrabalançar os argumentos, Carrera utiliza a personagem do padre Natalio. Em Chiapas, padres trabalham ao lado dos rebeldes contra um liberalismo imposto pela verdadeira pátria da Coca-Cola e a manipulação da palavra de Deus em prol dos mais ricos. Essa situação é mostrada no filme, onde o padre Natalio prefere prosseguir o seu caminho de fé com uma espingarda na mão, lutando contra os barões da droga e contra as injustiças humanas, recusando continuar a pertencer ao corrupto aparelho eclesiástico mexicano.

A mulher

Amélia, a seduzida, morre em ambas as obras. O que difere é o tratamento dado à sua morte. Tudo se passa assim: devido a uma gravidez indesejada Amélia e Amaro discutem. Ela quer ter o filho, Amaro não. No seu livro, Eça é impiedoso e brutal com Amélia ao mesmo tempo que diaboliza Amaro que, com um agonizante gesto fatal em relação ao seu filho, justifica a vontade «divina» da morte da sua amada. Nada lhe é concedido no palco literário, eis todo o mundo decrépito que matou a comuna de Paris, que prosseguia com a opressão do homem pelo homem escarrapachado pelo nosso grande escritor.
No filme, mais uma vez mostrando a cuidadosa observação do quotidiano mexicano do realizador, Amaro e Amélia resolvem fazer um aborto clandestino numa clínica ilegal. O espectador português facilmente reconhecerá esta situação tão hipócrita e retrógrada, assim como se emocionará com a consequência da falta dos cuidados indispensáveis numa operação tão delicada como esta. Tanto no contexto do livro como no do filme a morte de Amélia é inevitável, fruto do seu pecado ao ter uma relação com um padre e castigo para com Amaro, o padre sedutor. Mas, se no livro esta morte é preparada pelo estado debilitado de Amélia, tanto físico como mental, no filme a causa da sua morte é uma causa comum a uma política tacanha, miserável e reaccionária. Amélia morre assim como muitas outras mulheres morrem no México, em Portugal e em todos os outros países onde ainda atacam a vida, a saúde, a dignidade e a liberdade da mulher. E o filme de Carlos Carrera assume o seu valor de documento sociológico, ao lado do livro de Eça de Queirós, ambos revoltados com as injustiças humanas presentes em ambas as épocas.


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