«Estratégia de Lisboa» em termos futebolísticos

Sérgio Ribeiro
A Comissão Europeia elaborou, para o Conselho Europeu (da Primavera), um relatório sobre a «estratégia de Lisboa». A intenção seria a de se fazer um balanço dessa chamada «estratégia», que foi lançada no Conselho Europeu de Lisboa, de 2000, afirmando objectivos cheios de boas intenções… daquelas de que estará pavimentado o inferno.
O balanço seria útil se não tivesse a preocupação de provar que a «estratégia» é bela mas as concretizações é que têm dado cabo dela. Aliás, o título do relatório é Concretizar Lisboa. Pelo que cabe perguntar: concretizar?... mesmo que o balanço prove que a dita «estratégia» é má, que não se cumprem quaisquer objectivos que apenas são demagógicos e ao serviço – cobrindo-a/encobrindo-a – da real estratégia, a dos senhores da economia e da finança?
De várias maneiras se pode pegar neste tema. E, em ano e ambiente Euro2004, porque não utilizar terminologia e critérios futebolísticos?
Ora, no relatório, a avaliação dos resultados resume-se em gráficos onde uma lista de 14 indicadores sociais e económicos (1) são tratados por países. Assim, no tratamento relativo, consideram-se aqueles indicadores em que os países melhoraram, aqueles em que tiveram comportamento ao nível da média do conjunto, e aqueles em que houve evolução no sentido de terem piorado, relativamente, os resultados durante este período de quatro anos.
Futebolêsmente, dando 3 pontos às ditas prestações positivas, equivalentes a vitória, 1 ponto a comportamentos médios, equivalentes a empate, e 0 (zero) aos desempenhos negativos, equivalentes a derrota, a classificação actual, após estes quatro anos de “estratégia”, seria a seguinte:

01. Suécia - 26 pontos
02. Áustria - 24
03. Holanda - 24
04. Luxemburgo - 22
05. Reino Unido - 21
06. Dinamarca - 20
07. Alemanha - 18
08. Finlândia - 17
09. França - 16
10. Bélgica - 15
11. Irlanda - 13
12. Espanha - 11
13. Portugal - 11
14. Itália - 9
15. Grécia - 8

Face a esta classificação, com o «campeonato da estratégia de Lisboa» a aproximar-se do fim, o que se pode dizer é que os 6 candidatos às «competições europeias», Taça dos Campeões ou UEFA, são a Suécia, a Áustria, a Holanda, o Luxemburgo, o Reino Unido e a Dinamarca, isto é, os «clubes» que já estavam entre os mais ricos, com as respectivas SAD bem cotadas em Bolsa.
A Alemanha, a Finlândia, a França e a Bélgica, que também são «clubes» ricos, embora alguns tenham tido resultados inesperados, têm garantida a sua permanência na 1ª Liga, enquanto que, abaixo da «linha de água», estão a Irlanda, a Espanha, Portugal, a Itália e a Grécia, ou seja, a Itália de Berlusconi e os clubes de outro «campeonato» – noutra terminologia: os 4 Estados-membros do Fundo de Coesão por terem um PIB por cabeça inferior a 90% da média da UE –, o que quer dizer que estão em risco de descer à Divisão de Honra, o que bem pouco os honra.
Mas o que muito menos honrada fica é a dita «estratégia» que só veio agravar as desigualdades e as assimetrias que, demagogicamente, se afirmou que viria combater.
Logo, a questão é esta: aceita-se a demagogia de uma «estratégia» que provoca o contrário dos objectivos que afirma, ou deve responsabilizar-se a estratégia real, a do capitalismo em fase transnacional, que leva a estes resultados e se esconde atrás de demagógicos objectivos que, com a roupagem de serem estratégicos, não se cumprem, bem pelo contrário?
Depois não venham, os que acham a «estratégia» bela, dizer que a culpa é do árbitro…
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(1) PIB/cabeça em PPC
Despesa em investigação e desenvolvimento - Dispersão regional desemprego - Produtividade do trabalho - Investimento em negócios - Emissão de gases - Taxa de emprego - Níveis de preços comparados - Energia na economia - Emprego trabalhadores idosos - Taxa de risco de pobreza - Volume de transporte - Níveis de educação (20-24) - Desemprego de longo prazo
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