Uma tremenda trapaça (5)

O veneno mortal

Jorge Messias
Uma leitura, mesmo superficial, das relações que pouco a pouco se vão conhecendo e ligam os interesses (materiais e ideológicos) das esferas financeiras, políticas e religiosas, revela-se sempre esclarecedora. Esta preocupação justifica que voltemos ao Encontro do Beato e às linhas gerais das suas conclusões.
A geração dos novos patrões autocriticou-se e concluiu que os critérios de gestão até aqui adoptados em Portugal não tinham sido os mais correctos. Faltou ao patronato iniciativa, ambição e «sangue novo». Assim, a nova geração exigiu a liberalização total dos despedimentos, a assinatura de um «Pacto pela Pátria» entre as forças políticas e sociais, a constituição de uma cúpula empresarial única, a entrega à gestão privada das empresas com capitais públicos, etc. Sem grande surpresa, diga-se a verdade, veio a saber-se que o movimento COMPROMISSO POR PORTUGAL nascera de uma ideia gerada no âmbito da Universidade Católica e a partir de um grupo de ex-alunos da UCP (Independente, 13.2.04). Observe-se, de passagem, como este recurso às associações de ex-alunos (Pedro Nunes, S. João de Brito, Salesianos, etc.) fez caminho entre os que defendem as dinâmicas inovadoras do binómio igreja/empresa. E o certo é que, entre os promotores deste movimento do Convento do Beato abundam os tecnocratas católicos, os membros confessos (ou considerados como próximos) do Opus Dei ou os homens da ACEGE - a Associação Cristã de Empresários e Gestores de Empresa que representa a poderosa e pontifícia multinacional UNIAPAC – Union Internationale Chrétienne des Dirigeants d’Entreprise. Se as conclusões deste encontro fossem examinadas em pormenor e à luz da carta apostólica «Responsabilidade solidária pelo bem comum», publicada pela Conferência Episcopal Portuguesa, em 18.9.03, ver-se-ia como a mensagem dos bispos deu prévia cobertura ética às exigências meses depois formuladas pelos jovens patrões.
Finalmente, a evidência da existência de um terceiro elo (a ligar os interesses financeiros e religiosos com as forças que apoiam os governos no poder), é tão nítida que quase seria inútil tentar evidenciá-la um pouco mais. No caso presente em Portugal, os membros do governo governo PSD/PP revelam-se, invariavelmente, ultracapitalistas e fanaticamente católicos. Os ministros são na sua maioria empresários e gestores que aparentam deixar os negócios para se dedicarem à administração pública, com sacrifício das suas carreiras. Mas esse divórcio, como todos sabemos, é de simples conveniência. Quando deixam as pastas e regressam ao mundo financeiro, são promovidos e prosperam na vida privada. Passam, simplesmente, a exercer o poder de outra maneira. Também, quanto à Igreja, o governo de Durão Barroso não se cansa de anunciar a concessão de novos galardões e privilégios. O capitalismo precisa da protecção das hierarquias religiosas. E não se diga (no caso do actual governo) que a direita é muito católica e se preocupa em «dar testemunho cristão». Bem pelo contrário! Moralmente, nunca a sociedade portuguesa esteve tão de rastos como agora.
Assim o polvo estende os seus tentáculos. Os políticos passeiam-se entre a opulência dos Mellos ou dos Champallimaud e o severo recato dos Franciscanos. É nesses percursos que encontram inspiração para a gestão do poder. Declaram o estado de crise económica, decretam sacrifícios nacionais mas, simultaneamente, garantem, por respeito à propriedade privada e à iniciativa empresarial, os privilégios das grandes fortunas. Para o povo comum, a saúde é cada vez mais cara, a educação cada vez mais rara, o direito ao trabalho uma miragem. Os imigrantes são brutalmente explorados, as famílias soçobram, esmagadas pela pobreza, pela droga e pelas gigantescas violações da sociedade de consumo. O obscurantismo trava as decisões que se impõem como a despenalização da interrupção da gravidez, a educação sexual, a regionalização, o levantamento do sigilo bancário, a luta contra os crimes de colarinhos brancos e tantas outras mais. Nas raras ocasiões em que despertam do sono aparente, os bispos procuram a palavra que abençoa o poder.
Envolve-nos uma tremenda trapaça. Vivemos no reino do escândalo e da mentira. Importa reagir e recuperar os grandes ideais de justiça e liberdade.


Mais artigos de: Argumentos

Na terra dos Miau

Há poucos meses tive a sorte de visitar a terra dos Miau na província de Guizhou, no sul da China. Para quem não saiba, devo informar que 97% dos 1300 milhões de chineses são «han» e que o resto se distribui por 56 nacionalidades distintas. Os Miau são cerca de 8 milhões e têm, como as outras minorias nacionais,...

O professor e o “R”

O senhor professor não teria necessidade de entrar naquela guerra. Mais: pareceu que não tinha muita vontade de o fazer: quando a questão foi suscitada pelo Júlio Magalhães (e decerto não sem antes ter havido um acordo prévio entre ambos, pois não é crível que os temas surjam ali por inteira surpresa), o senhor professor...