O ladrão de Bagdad
Antigamente - como estes «antigamentes» são relativos! - as reportagens de imagem de guerra davam para ver, ao vivo, como as acções se desenrolavam e, a partir da guerra do Vietname, as notícias passaram a ter, elas próprias, um peso grande no desenrolar dos conflitos. Os repórteres filmavam tudo, acompanhando as tropas, tornavam correndo a meter as bobinas enlatadas no correio aéreo, nos aeroportos alguém as pescava e corria a revelar os filmes, a correr se faziam montagens e, de coração apertado, nessa noite ou no dia seguinte, as famílias viam na TV como era grave e horrível e triste uma guerra assim.
Depois da Guerra do Golfo, a coisa «melhorou»: na noite dos desertos, riscadas a verde, passavam as bombas cirúrgicas, nem sequer os ardentes incêndios se viam, vozes havia que contavam os mortos, outras vozes, pagas a bom dólar, asseguravam que a liberdade se instalava à bomba sem matar ninguém. E tudo era em directo, isto é, podia-se não ver nada mas o que se via era instantâneo, sem correrias nem esfalfamentos.
Desta vez, o melhoramento foi de arromba. Cercados num hotel e ainda assim bombardeados pelo fogo amigo, os jornalistas mostravam a cara e ouviam-se ao longe os estrondos. Do outro lado, jornalistas que mais se assemelhavam a apresentadores de botas botildes, davam as notícias que o amigo deixava. De dia, viam-se, de um lado, os «alegados» feridos a dar entrada nos hospitais; do outro lado, civis apelidados de militares eram obrigados a ajoelhar-se no pó do deserto, meia dúzia de mulheres imploravam água.
Durante uma semana, a guerra contada pelo Tio Sam: um soldado a dar um pontapé num vidro. Na semana seguinte, colunas progrediam na poeira, enquanto as vozes davam conta da «queda» de cidades que nunca mais caíam. Na terceira semana, a guerra passou a ser um general a explicar porque estavam parados. Todo este tempo, Saddam, filhos e ministros, sentados em sombrias salas, conversavam para a gente ver. Eram sósias, diziam, os tais que eram tantos que nenhum foi apanhado para amostra.
Finalmente, a liberdade, as verdadeiras cenas da guerra. O saque. Mas as imagens continuaram a ser pobres, sempre os mesmos a correr agarrados a jarrões, a cadeiras e a frigoríficos, enquanto os verdadeiros ladrões, a coberto das câmaras, iam esvaziando museus. Por fim, o ladrão de Bagdad chegou e disse que vai ser tudo muito rápido, os planos de reconstrução estão feitos, os orçamentos aprovados, é só começar a chupar o petróleo.
Prefiro outro Hollywood, o outro ladrão, que usava turbante e voava sobre um tapete.
Depois da Guerra do Golfo, a coisa «melhorou»: na noite dos desertos, riscadas a verde, passavam as bombas cirúrgicas, nem sequer os ardentes incêndios se viam, vozes havia que contavam os mortos, outras vozes, pagas a bom dólar, asseguravam que a liberdade se instalava à bomba sem matar ninguém. E tudo era em directo, isto é, podia-se não ver nada mas o que se via era instantâneo, sem correrias nem esfalfamentos.
Desta vez, o melhoramento foi de arromba. Cercados num hotel e ainda assim bombardeados pelo fogo amigo, os jornalistas mostravam a cara e ouviam-se ao longe os estrondos. Do outro lado, jornalistas que mais se assemelhavam a apresentadores de botas botildes, davam as notícias que o amigo deixava. De dia, viam-se, de um lado, os «alegados» feridos a dar entrada nos hospitais; do outro lado, civis apelidados de militares eram obrigados a ajoelhar-se no pó do deserto, meia dúzia de mulheres imploravam água.
Durante uma semana, a guerra contada pelo Tio Sam: um soldado a dar um pontapé num vidro. Na semana seguinte, colunas progrediam na poeira, enquanto as vozes davam conta da «queda» de cidades que nunca mais caíam. Na terceira semana, a guerra passou a ser um general a explicar porque estavam parados. Todo este tempo, Saddam, filhos e ministros, sentados em sombrias salas, conversavam para a gente ver. Eram sósias, diziam, os tais que eram tantos que nenhum foi apanhado para amostra.
Finalmente, a liberdade, as verdadeiras cenas da guerra. O saque. Mas as imagens continuaram a ser pobres, sempre os mesmos a correr agarrados a jarrões, a cadeiras e a frigoríficos, enquanto os verdadeiros ladrões, a coberto das câmaras, iam esvaziando museus. Por fim, o ladrão de Bagdad chegou e disse que vai ser tudo muito rápido, os planos de reconstrução estão feitos, os orçamentos aprovados, é só começar a chupar o petróleo.
Prefiro outro Hollywood, o outro ladrão, que usava turbante e voava sobre um tapete.