Kerbala

Henrique Custódio
A cidade santa de Kerbala, no Iraque, está neste momento a mostrar ao mundo os primeiros indícios do desastre – em proporções e consequências inimagináveis - que a invasão militar norte-americana abriu no país e, inevitavelmente, na região e no mundo.
Esses indícios são concretos – traduzem-se em pessoas que estão a acorrer a Kerbala em peregrinação -, e são mensuráveis – já registaram a chegada de mais de um milhão de peregrinos, apontando as previsões para a presença de vários outros milhões que estão a caminho.
A caminho de quê?
A resposta é o indício maior de que o desastre já está em marcha: a caminho de uma república islâmica - fundamentalista, pois claro -, claramente reivindicada pelos líderes religiosos locais e avassaladoramente aplaudida pelos crescentes milhões que estão a desembocar em Kerbala.
Recorde-se que um dos objectivos afirmados pelos EUA para justificar a agressão ao Iraque era, precisamente, o de derrubar o regime totalitário de Saddam Hussein para o «substituir por uma democracia» que, por sua vez, teria um efeito de simpatia na região, «convertendo» e atraindo ao sistema democrático ocidental as diversas ditaduras confessionais que imperam na região.
O que está a acontecer é exactamente o contrário, com o único regime não confessional da região – por acaso o de Saddam Hussein, outrora tão apoiado pelos EUA – em vias de ser também substituído por uma república islâmica fundamentalista.
As contas são fáceis de fazer.
Perante tão avassaladora manifestação popular reivindicando uma república islâmica, e considerando que quem tal reivindica é a população xiita, que constitui 60% da população iraquiana, está-se mesmo a ver qual será o resultado de um escrutínio eleitoral segundo o modelo da democracia burguesa: o partido confessional - que certamente se formará sob a direcção dos mullahs e ayatollahs que neste momento já reivindicam uma república islâmica semelhante à do Irão - obterá uma vitória absoluta e esmagadora.
Tudo isto era fácil de prever, tão demonstrado está pelo curso da história recente na região.
Basta lembrar o que aconteceu no Irão, com o ascenso irreprimível do fundamentalismo islâmico liderado pelo ayatollah Khomeiny, para se ter a certeza - num saber de experiência feito -, que os líderes espirituais xiitas do Iraque (fundamentalistas islâmicos, como os seus irmãos do Irão) não desperdiçariam a oportunidade de ocupar o vazio de poder que a remoção da ditadura de Saddam acarretaria, liderando a extrema desorientação, o sofrimento e o enxovalho que a ocupação militar dos EUA fez desabar sobre os iraquianos.
Mas a administração Bush desprezou tudo disso: concentrada no objectivo fundamental de controlar o petróleo iraquiano e, através desse controlo, definir uma nova ordem internacional sob liderança imperial dos EUA, avançou para a operação desprezando todas as consequências e apenas admitindo, nas previsões, uma obtusa convicção de que tudo e todos se vergariam ao poder militar avassalador que iam colocar no terreno.
Actuando no Iraque e no mundo segundo configuradas opções fundamentalistas - e portanto totalitárias -, a administração Bush libertou os demónios que afirmava combater e abriu caminho, no Iraque e na região do Golfo, para um imprevisível recrudescimento de fundamentalismos de sinal contrário, mas nem por isso diferentes ou menos perigosos.
O que ficará no terreno, será um confronto de consequências inimagináveis.
O que opõe o fiundamentalismo cripto-fascista da administração Bush ao fundamentalismo islâmico, que palpita e medra nos imensos agravos que o império capitalista, liderado pelos EUA, vem infligindo ao mundo do Islão.



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