Depois da Reportagem
Um dia destes (mais exactamente: uma destas madrugadas), a SIC-Notícias transmitiu uma reportagem acerca da situação dos velhos no Japão. A avaliar pelo tema, iria ser-nos dito que naquele país onde milhares se acotovelam apressadamente em espaços acanhados, onde o culto da eficácia parece ter-se substituído aos velhos cultos, os velhos seriam em maior ou menos grau marginalizados porque, na óptica de um pragmatismo muito rigoroso e extremo, «não interessam nada», como por cá se diria. Para mais, os níveis etários no Japão não parecem de fazer inveja aos que, como entre nós, muito se queixam de que há velhos a mais, com péssimas consequências para diversos sectores: no Japão, segundo a reportagem, 25% da população tem mais de 65 anos. Sendo assim, seriam talvez de esperar imagens chocantes de abandono e miséria, pelo menos tão impressionantes quanto as imagens que em Portugal seria possível colher se uma reportagem se propusesse muito a sério saber como sobrevivem milhares de velhos portugueses. Porém, não aconteceu nada disso. Não acrescentarei que para minha surpresa, por duas razões. A primeira delas é que já obtivera acerca da reportagem informações que de antemão me defendiam quanto ao seu conteúdo, pelo menos até certo ponto. A segunda razão é que julgo saber, até por uma pequena experiência pessoal num país próximo do Japão, que os velhos mantêm no Oriente, pelo menos em parte deles, um estatuto de respeitabilidade a que corresponde um tratamento cuidadoso, senão reverencial. Assim, quando a reportagem trouxe a notícia de bons lares de acolhimento para os japoneses idosos, centros de convívio diurno bem equipados e um eficaz serviço de apoio domiciliário, confirmou-se-me uma boa notícia: a de que o Japão não é apenas o país da tecnologia avançada e do trabalho intenso, tendo guardado a tradição de considerar os velhos senão repositórios de sabedoria ao menos criaturas experimentadas por muitos anos de dificuldades e amarguras, de tal modo que lhes é devido um final de percurso que não seja um tempo de humilhação e horror.
Televisão, o que é?
Como é inevitável e, espero, compreensível, depois de ver aquilo apetece-me muito mais escrever sobre a situação dos velhos em Portugal que sobre os velhos japoneses. Dirão os sábios, os rigorosos, os ultraprofissionais, que isso não é coisa que se faça no quadro de uma crónica de TV porque, exactamente, dos velhos portugueses não se falou na reportagem transmitida pela SIC-Notícias e eu não posso começar aqui a exorbitar, a metamorfosear a suposta crítica de televisão numa outra coisa. Acontece, porém, que tenho dúvidas. A primeira delas é em torno do que pode e deve ser um comentário crítico à televisão publicado na imprensa não-especializada no estudo aprofundado dos media. A segunda dúvida talvez avance um pouco mais em direcção à raiz das coisas: pergunta o que e ao certo a televisão, onde começa e onde acaba; se falar de TV e apenas referir o fluxo de imagens e sons emitidos por uma estação ou também é falar dos efeitos que provoca no público receptor, isso é, na sociedade. Como se compreenderá, esta última questão é fundamentalíssima: pode alargar o âmbito de intervenção da crítica para a função social da TV e até fazê-lo com carácter imperativo, libertando-a do espartilho que quase a reduziria à avaliação das luzes, da montagen, dos sons, dos planos, e assim a condenaria a um certo tipo de irrelevância. Na verdade, talvez a televisão seja uma dessas realidades que só ganham importância pelas consequências que têm na vida das sociedades, isto é, dos homens. O que é quase o mesmo que aplicar neste caso a velha regra que ensina ser o homem a medida de todas as coisas.
No caso da reportagem de que tenho vindo a falar, e sem o menor desapreço pelos japoneses envelhecidos e pelo que é feito para lhes amenizar os últimos anos, o que me pareceu mais importante é que, por evidente contraste, tenha feito lembrar a situação dos nossos velhos. Isto porque não estou a falar da reportagem em abstracto, como se saída das mãos que a produziram no país de origem, mas da reportagem transmitida aqui, em Portugal, para os olhos portugueses. Um trabalho feito para a televisão só se torna televisão de facto quando é transmitido, isto é, quando a um emitente se adiciona o receptor, e num dado lugar, não sendo indiferente que a emissão seja feita em Portugal ou na Finlândia ou na África Austral. Porque a TV é uma habilidade prodigiosamente engenhosa, é comunicação social, e esta condição é que lhe confere a gigantesca importância que tem. É isto que condiciona decisivamente todo o comentário crítico à televisão. E fora disto não sei se valerá a pena.
Televisão, o que é?
Como é inevitável e, espero, compreensível, depois de ver aquilo apetece-me muito mais escrever sobre a situação dos velhos em Portugal que sobre os velhos japoneses. Dirão os sábios, os rigorosos, os ultraprofissionais, que isso não é coisa que se faça no quadro de uma crónica de TV porque, exactamente, dos velhos portugueses não se falou na reportagem transmitida pela SIC-Notícias e eu não posso começar aqui a exorbitar, a metamorfosear a suposta crítica de televisão numa outra coisa. Acontece, porém, que tenho dúvidas. A primeira delas é em torno do que pode e deve ser um comentário crítico à televisão publicado na imprensa não-especializada no estudo aprofundado dos media. A segunda dúvida talvez avance um pouco mais em direcção à raiz das coisas: pergunta o que e ao certo a televisão, onde começa e onde acaba; se falar de TV e apenas referir o fluxo de imagens e sons emitidos por uma estação ou também é falar dos efeitos que provoca no público receptor, isso é, na sociedade. Como se compreenderá, esta última questão é fundamentalíssima: pode alargar o âmbito de intervenção da crítica para a função social da TV e até fazê-lo com carácter imperativo, libertando-a do espartilho que quase a reduziria à avaliação das luzes, da montagen, dos sons, dos planos, e assim a condenaria a um certo tipo de irrelevância. Na verdade, talvez a televisão seja uma dessas realidades que só ganham importância pelas consequências que têm na vida das sociedades, isto é, dos homens. O que é quase o mesmo que aplicar neste caso a velha regra que ensina ser o homem a medida de todas as coisas.
No caso da reportagem de que tenho vindo a falar, e sem o menor desapreço pelos japoneses envelhecidos e pelo que é feito para lhes amenizar os últimos anos, o que me pareceu mais importante é que, por evidente contraste, tenha feito lembrar a situação dos nossos velhos. Isto porque não estou a falar da reportagem em abstracto, como se saída das mãos que a produziram no país de origem, mas da reportagem transmitida aqui, em Portugal, para os olhos portugueses. Um trabalho feito para a televisão só se torna televisão de facto quando é transmitido, isto é, quando a um emitente se adiciona o receptor, e num dado lugar, não sendo indiferente que a emissão seja feita em Portugal ou na Finlândia ou na África Austral. Porque a TV é uma habilidade prodigiosamente engenhosa, é comunicação social, e esta condição é que lhe confere a gigantesca importância que tem. É isto que condiciona decisivamente todo o comentário crítico à televisão. E fora disto não sei se valerá a pena.