As imitações chinesas
A pauperização dos programas em todos os canais de sinal aberto, apenas com alguns oásis na «2» contudo ainda povoada por programas que não deveriam estar ali nem provavelmente em lado nenhum, leva-me, a mim como seguramente a muitos outros, a buscar refúgio num ou noutro canal distribuído por cabo. Foi assim que, um dia destes, encontrei no SIC-Notícias uma reportagem da CBS que me pareceu um pouco mais interessante do que à primeira vez poderia parecer. Tratava da produção pela China de imitação de artigos de marca, fabricados nas enormíssimas quantidades de que os chineses são capazes. Nos Estados Unidos chamam-lhes falsificações. Sê-lo-ão, sem dúvida, se ou quando ostentarem a marca do artigo original: sê-lo-ão ou não, diga-o quem sabe, se a marca aposta no produto for diferente, ainda que só ligeiramente. Nesta questão, a decisão decorrerá do enquadramento legal, porventura de algum aspecto do Direito Internacional, de ter a China assinado ou não convenções internacionais que regulem essa matéria. Não sei, e nessa selva não quero eu arriscar-me nem tenho a menor qualificação para o fazer.
Sei, isso sim, que os artigos existem, vimo-los no decurso da reportagem, e ouvi que as providências adoptadas contra eles são ineficazes para conter as enormes vagas que saem da China e se abatem sobre os mercados ocidentais, designadamente o norte-americano. Acrescento, já agora, que na óptica dos interesses do consumidor não me parece que as contrafacções sejam graves. Um sujeito veio dizer que os tacos de golfe que os chineses fabricam se partem muito, mas como não jogo golfe a acusação deixou-me um bocado indiferente e a pensar que isso é caso para o Presidente Sampaio. Fiquei sensível, isso sim, ao facto de os artigos chineses serem muitíssimo mais baratos, já que a vida está má e a doutora Manuela impõe que nos apliquemos a reduzir despesas. Mas esta minha tendencial benevolência perante o que a reportagem mostrou não se aplica nem ou poucochinho à contrafacção de medicamentos com prejuízos dos seus efeitos curativos, o que é um crime gravíssimo. Aí lembrei-me de «O Terceiro Homem» de Greene/Read, de Harry Lime, que não era chinês, e penso que o governo da China, como aliás qualquer outro, tem de combater duramente e estou certo que o fará.
A «orientalização» do trabalho
Contudo, com boas razões ou sem elas, a reportagem da CBS arrastou-me as reflexões para uma outra área. Digamos que mais ampla. É sabido que a produção dos países ocidentais desenvolvidos ou que por isso passam tem vindo a sofrer danos e angústias em resultado da concorrência de países do Oriente onde os factores de produção são muito mais baixos. Designadamente o custo da mão-de-obra. É também sabido que exactamente em concorrência, ou pelo menos invocando-a, o empresariato do Ocidente tem pressionado não apenas os salários no sentido da sua baixa real, mas também os encargos complementares que beneficiarão o exercício dos direitos sociais dos trabalhadores. Dir-se-ia que, no fundo, o patronato tende a reduzir os trabalhadores à condição dos trabalhadores do Oriente, explorados em condições de miséria, para que, enfim, a concorrência mercantil num mercado globalizado seja perfeita. Saliente-se, porém, que o caso da China será específico, pois em gestão de perfil socialista o salário indirecto, consubstanciado em serviço de carácter social gratuitos ou perto de o serem, retira a salários eventualmente baixos o seu carácter atrozmente exploratório.
De qualquer modo, a questão que parece levantar-se é a de saber até que ponto é não apenas legítimo, mas possível, defender a produção de muitos artigos com altos preços de venda sabendo-se, ou pelo menos suspeitando-se, que uma grande parte desses preços não paga custos de mão-de-obra, por toda a parte tão explorada quanto se torna possível, mas sim os circuitos intermédios por vezes monstuosamente hipertrofiados e, sobretudo, grandes remunerações do capital, assumidas ou não. Entende-se, naturalmente, que o empresariato só queira encarar duas soluções: o aviltamento dos salários até ao rasteiríssimo nível de certos lugares do Oriente e a pura e simples proibição da concorrência mediante a protecção das marcas. Contudo, nem é preciso lembrar direitos humanos ou a mera moralidade para perceber que tem de haver outros caminhos. Que o esmagamento dos trabalhadores encontra um ponto em que a indignação se transforma em rebelião. Que a mundialização do comércio tem de ser acompanhada pela mundialização dos direitos sociais de quem trabalha. Que a estrutura de distribuição nas sociedades capitalistas pode e deve ser libertada das muitas intervenções parasitárias que encarecem os custos finais nos mercados. Que, enfim, tudo precisa de ser justo, racionalizado, organizado. Porventura numa só palavra: socializado. O que, garante-o a própria realidade, terá de acontecer um dia.
Sei, isso sim, que os artigos existem, vimo-los no decurso da reportagem, e ouvi que as providências adoptadas contra eles são ineficazes para conter as enormes vagas que saem da China e se abatem sobre os mercados ocidentais, designadamente o norte-americano. Acrescento, já agora, que na óptica dos interesses do consumidor não me parece que as contrafacções sejam graves. Um sujeito veio dizer que os tacos de golfe que os chineses fabricam se partem muito, mas como não jogo golfe a acusação deixou-me um bocado indiferente e a pensar que isso é caso para o Presidente Sampaio. Fiquei sensível, isso sim, ao facto de os artigos chineses serem muitíssimo mais baratos, já que a vida está má e a doutora Manuela impõe que nos apliquemos a reduzir despesas. Mas esta minha tendencial benevolência perante o que a reportagem mostrou não se aplica nem ou poucochinho à contrafacção de medicamentos com prejuízos dos seus efeitos curativos, o que é um crime gravíssimo. Aí lembrei-me de «O Terceiro Homem» de Greene/Read, de Harry Lime, que não era chinês, e penso que o governo da China, como aliás qualquer outro, tem de combater duramente e estou certo que o fará.
A «orientalização» do trabalho
Contudo, com boas razões ou sem elas, a reportagem da CBS arrastou-me as reflexões para uma outra área. Digamos que mais ampla. É sabido que a produção dos países ocidentais desenvolvidos ou que por isso passam tem vindo a sofrer danos e angústias em resultado da concorrência de países do Oriente onde os factores de produção são muito mais baixos. Designadamente o custo da mão-de-obra. É também sabido que exactamente em concorrência, ou pelo menos invocando-a, o empresariato do Ocidente tem pressionado não apenas os salários no sentido da sua baixa real, mas também os encargos complementares que beneficiarão o exercício dos direitos sociais dos trabalhadores. Dir-se-ia que, no fundo, o patronato tende a reduzir os trabalhadores à condição dos trabalhadores do Oriente, explorados em condições de miséria, para que, enfim, a concorrência mercantil num mercado globalizado seja perfeita. Saliente-se, porém, que o caso da China será específico, pois em gestão de perfil socialista o salário indirecto, consubstanciado em serviço de carácter social gratuitos ou perto de o serem, retira a salários eventualmente baixos o seu carácter atrozmente exploratório.
De qualquer modo, a questão que parece levantar-se é a de saber até que ponto é não apenas legítimo, mas possível, defender a produção de muitos artigos com altos preços de venda sabendo-se, ou pelo menos suspeitando-se, que uma grande parte desses preços não paga custos de mão-de-obra, por toda a parte tão explorada quanto se torna possível, mas sim os circuitos intermédios por vezes monstuosamente hipertrofiados e, sobretudo, grandes remunerações do capital, assumidas ou não. Entende-se, naturalmente, que o empresariato só queira encarar duas soluções: o aviltamento dos salários até ao rasteiríssimo nível de certos lugares do Oriente e a pura e simples proibição da concorrência mediante a protecção das marcas. Contudo, nem é preciso lembrar direitos humanos ou a mera moralidade para perceber que tem de haver outros caminhos. Que o esmagamento dos trabalhadores encontra um ponto em que a indignação se transforma em rebelião. Que a mundialização do comércio tem de ser acompanhada pela mundialização dos direitos sociais de quem trabalha. Que a estrutura de distribuição nas sociedades capitalistas pode e deve ser libertada das muitas intervenções parasitárias que encarecem os custos finais nos mercados. Que, enfim, tudo precisa de ser justo, racionalizado, organizado. Porventura numa só palavra: socializado. O que, garante-o a própria realidade, terá de acontecer um dia.