Um retrato desfocado
Com honestidade mínima, não é possível dizer que a televisão portuguesa tem a tradição de reflectir com verdade e com coragem o país que a olha e que, por seu turno, ela deveria olhar com olhos de ver. Para que tenhamos a certeza de que é hoje assim, basta reparar na actual proliferação de programas supostamente cómicos, em que a vedeta deveria ser o riso (infelizmente néscio), num tempo em que a vida nacional não está para risos, muito pelo contrário. Contudo, é certo que nos telenoticiários, e não apenas neles, surgem notícias da desgraça que assola o País desde que os interesses empresariais mascarados de «leis do mercado» assaltaram o poder político. Os casos mais notórios são os dos súbitos encerramentos de empresas com o consequente lançamento de centenas de trabalhadores no desemprego, a um ritmo que ameaça ser diário. Na TV apenas surgem as situações que, pelo número de trabalhadores despedidos, pelo vigor da sua resistência ou por qualquer outro motivo, forçam um destino mais mediático. Significa isto que os casos de menor dimensão, os dramas mais discretos, não sabe deles a televisão por presumível falta de interesse e, por isso, não os conheceremos nós. E, como regra geral de que só haverá raras excepções, se é que há alguma, após um ou dois dias de presenças nos noticiários não mais saberemos da gente despedida, de como prosseguiram as vidas destroçadas. Nem de como prosseguem provavelmente na senda do êxito as carreiras dos gestores que mandaram fechar portas sem pagar o trabalho já prestado e «recusaram fazer declarações» aos telejornais.
Perguntar-se-á talvez o que mais poderia fazer a televisão, essa santinha sempre tão mal compreendida, sobretudo quando não deixou de dar importância ao encerramento de mais uma fábrica, falou com uma trabalhadora despedida, tentou sem êxito ouvir o patronato e até talvez tenha entrevistado o Carvalho da Silva, quem sabe? A verdade é que aquelas existências truncadas não acabam ali, vão continuar, e o modo como continuam também é notícia. É notícia quando, algum tempo depois, passam a viver de ajuda de parentes ou de empréstimos cujo avolumar irá lançar alguns em angústias e depressões. É notícia quando o senhorio lhes escreve a ameaçar de despejo se não pagarem as rendas em atraso, ou, em alternativa, a carta é do banco que lhes financiou a compra do T-3. É notícia quando, alguns meses depois, vêem aproximar-se o termo do período com direito a desemprego sem que tenham conseguido encontrar novo posto de trabalho. Em muitos casos, será notícia o primeiro dia de fome dos pais. Tal como, algum tempo depois, será notícia o primeiro dia de fome dos filhos.
Material abandonado
Admitindo, porém, que aos telenoticiários quotidianos só interessa o que é mais visível, nessa visibilidade residindo o chamado «interesse jornalístico» para um serviço de notícias dessa índole, resta que o tecido de tristezas e misérias que vai cobrindo o País é material de primeiríssimo interesse para um retrato da realidade portuguesa e, contudo, é material de todo abandonado. Reportagens sobre o percurso de um casal de trabalhadores despedidos, de um trabalhador com cinquenta anos de idade cuja empresa se deslocalizou após trinta e cinco anos de dedicado trabalho seu, de um jovem que de trabalho precário em trabalho precário foi deslizando para a desesperança de estabilizar minimamente a sua vida e deu o tristíssimo salto para a área da delinquência, seriam reportagens que, honestas e fiéis à actual realidade portuguesa, haviam de ser um contributo decisivo para um fiel retrato da nação. Mas não as há. Não, decerto, porque não haja jornalistas que as queiram fazer, estas ou outras igualmente verdadeiras e necessárias, mas sim porque, como se sabe, não é um qualquer jornalista que pode escrever e fazer publicar o que melhor lhe pareça. Mesmo que não esteja, também ele, a trabalhar com vínculo precário ou mesmo sem vínculo nenhum.
É assim que a crise que se abateu não sobre o País inteiro, como se repete sem inteira verdade, mas apenas sobre aqueles que habitualmente pagam crises que servem para que outros arredondem o seu pecúlio, não existe na TV nos seus aspectos mais graves e pungentes, só num ou noutro momento mais óbvio, mais espectacular, mais agudo. De onde um retrato desfocado. E diluído num fluxo televisivo que, apostando no superficial, no tonto, no fragmentário, no insignificante, vá tecendo nas cabecinhas de muitos telespectadores uma espécie de outra realidade feita de poeira, de faz-de-conta e de teias de aranha.
Perguntar-se-á talvez o que mais poderia fazer a televisão, essa santinha sempre tão mal compreendida, sobretudo quando não deixou de dar importância ao encerramento de mais uma fábrica, falou com uma trabalhadora despedida, tentou sem êxito ouvir o patronato e até talvez tenha entrevistado o Carvalho da Silva, quem sabe? A verdade é que aquelas existências truncadas não acabam ali, vão continuar, e o modo como continuam também é notícia. É notícia quando, algum tempo depois, passam a viver de ajuda de parentes ou de empréstimos cujo avolumar irá lançar alguns em angústias e depressões. É notícia quando o senhorio lhes escreve a ameaçar de despejo se não pagarem as rendas em atraso, ou, em alternativa, a carta é do banco que lhes financiou a compra do T-3. É notícia quando, alguns meses depois, vêem aproximar-se o termo do período com direito a desemprego sem que tenham conseguido encontrar novo posto de trabalho. Em muitos casos, será notícia o primeiro dia de fome dos pais. Tal como, algum tempo depois, será notícia o primeiro dia de fome dos filhos.
Material abandonado
Admitindo, porém, que aos telenoticiários quotidianos só interessa o que é mais visível, nessa visibilidade residindo o chamado «interesse jornalístico» para um serviço de notícias dessa índole, resta que o tecido de tristezas e misérias que vai cobrindo o País é material de primeiríssimo interesse para um retrato da realidade portuguesa e, contudo, é material de todo abandonado. Reportagens sobre o percurso de um casal de trabalhadores despedidos, de um trabalhador com cinquenta anos de idade cuja empresa se deslocalizou após trinta e cinco anos de dedicado trabalho seu, de um jovem que de trabalho precário em trabalho precário foi deslizando para a desesperança de estabilizar minimamente a sua vida e deu o tristíssimo salto para a área da delinquência, seriam reportagens que, honestas e fiéis à actual realidade portuguesa, haviam de ser um contributo decisivo para um fiel retrato da nação. Mas não as há. Não, decerto, porque não haja jornalistas que as queiram fazer, estas ou outras igualmente verdadeiras e necessárias, mas sim porque, como se sabe, não é um qualquer jornalista que pode escrever e fazer publicar o que melhor lhe pareça. Mesmo que não esteja, também ele, a trabalhar com vínculo precário ou mesmo sem vínculo nenhum.
É assim que a crise que se abateu não sobre o País inteiro, como se repete sem inteira verdade, mas apenas sobre aqueles que habitualmente pagam crises que servem para que outros arredondem o seu pecúlio, não existe na TV nos seus aspectos mais graves e pungentes, só num ou noutro momento mais óbvio, mais espectacular, mais agudo. De onde um retrato desfocado. E diluído num fluxo televisivo que, apostando no superficial, no tonto, no fragmentário, no insignificante, vá tecendo nas cabecinhas de muitos telespectadores uma espécie de outra realidade feita de poeira, de faz-de-conta e de teias de aranha.