A terceira margem
A rebeldia às fórmulas tradicionais de dualidade – o bem e o mal, o certo e o errado, Deus e o Diabo, esquerda e direita – deu nascimento à denominação de «terceiro» ao que se pretende como nova alternativa, livre e independente da dualidade. Mas, como a liberdade e a independência só podem resultar do confronto explícito com o que se quer combater, a fórmula alternativa, vestida de terceira, subordina-se à força mais poderosa que prevalece na sociedade, sendo a sua máscara ou a sua fantasia.
Por outras palavras, a característica dos terceiros é a de não assumir uma posição clara em relação ao poder que a sustenta. Certamente esta omissão permite que forças contrárias às do poder vigente participem das acções que realizam, levando a luta social para o seu universo. Neste caso o terceiro acoberta o confronto habitual entre conservadores e revolucionários para usar termos genéricos.
As empresas públicas utilizam as «terceirizadas» com a alegação de que, pela sua especialização e gestão concentrada, podem desempenhar melhor as tarefas sem sobrecarregar o Estado. Nem sempre isto ocorre devido a interesses particulares da empresa, falta de fiscalização e abuso de poder, de quem não se responsabiliza pelo bem estar social.
A «terceira via», que historicamente tem surgido como saída divisionista em partidos de esquerda, acaba sempre por se integrar na corrente social-democrata que oscila entre centro-direita e centro-esquerda sem explicitar os seus fundamentos ideológicos.
O «terceiro sector» abriu caminho para a organização de empresas que não são públicas nem privadas no momento em que o mundo ocidental denunciava os erros da centralização da economia estatal e temia o crescente poder político das multinacionais. Alguns utilizam-no para fundamentar a teoria do Estado mínimo, base do neocapitalismo que esvazia a democracia e fortalece o centralismo multinacional, e outros para a criação de empresas e mercado de trabalho que enfrentam as graves questões sociais e económicas desprezadas pelas elites poderosas.
O que hoje vemos é a velha necessidade de procurar alternativas sem referência explícita aos princípios e objectivos que estão na base de qualquer acção. Faltará sempre identificar os reais objectivos dos chamados terceiros e lutar pela vigência dos princípios democráticos com lucidez.
Há grandes doadores, mas o que se entende por «doação» quase sempre se traduz por «investimento» e aí aparece o objectivo pretendido e a capacidade dos organizadores das obras sociais de não serem subjugados. O antigo ditado popular «quando a esmola é grande o santo desconfia» não perdeu actualidade através dos séculos e serve de alerta para quem espera milagres económicos. E, para os que falam em democracia, porém impõem a sua vontade, deve-se recordar que há 2400 anos Sócrates foi condenado à morte pela elite grega por defender o método de ensino «de baixo para cima» através do diálogo que contraria o modelo autoritário. O poder da elite não se coaduna com a igualdade de direitos, mesmo que o discurso feito pretenda fazê-lo. Na associação entre a solidariedade social e os investidores beneméritos, deve-se ter segurança tanto na gestão dos recursos como na do desenvolvimento ideológico do trabalho de interesse popular. É fácil apresentar estatísticas financeiras e índices de saúde, mas não existem maneiras de se medir a auto-estima ou a esperança que constituem a base do desenvolvimento da solidariedade e da participação social.
Ingenuidade e confiança
Uma constante nos que se entregam à luta social em defesa dos cidadãos discriminados e explorados é a confiança no ser humano e no trabalho colectivo. Quando educamos uma criança queremos dar-lhe confiança em si e também nos que a cercam, para que caminhe com segurança na vida, sem medos, sem preconceitos. Mas não queremos que se torne ingénua a ponto de não saber defender-se. Há uma confusão permanente entre a disposição «ingénua», entendida como confiante e tolerante, e a ingenuidade como fruto da distração, do desinteresse ou da ignorância. Tem a ver com mais uma das dicotomias temidas: o predomínio do racional ou do emocional. Mais uma vez a sabedoria popular registou: «Nem tanto ao mar, nem tanto à terra», o que não significa ancorar no rochedo ou ficar em cima do muro. Somos dotados de inteligência e sensibilidade que devem ser equilibradas segundo a nossa vontade política de agir. E agir implica assumir uma posição.
Assim como as qualidades do ser humano vêm à tona quando ele participa solidariamente da luta colectiva, os defeitos aparecem quando ele tem poder individual e não respeita os outros. Um chefe autoritário, mesmo que seja um génio, é capaz de destruir um grupo de voluntários que trabalham para melhorar as condições de vida da população mais carente. Toma decisões sem consultar os demais, fomenta a omissão e a bajulação, cerca-se de «vaquinhas de presépio» que estão ali à sombra do poder para tirar alguma vantagem social ou política. Pode transformar pessoas generosas em meros oportunistas.
O trabalho pesado é enfrentado por assalariados a quem se fala em solidariedade na hora de exigir ou de pagar um salário baixo, mas que são tratados como peças da máquina empresarial. É comum surgirem chefes secundários que repetem o exemplo vindo de cima. A literatura referente às creches, por exemplo, chama a atenção para o desempenho elitista de profissionais que delegam às «pajens» (termo inadequado atribuído à educadora que acompanha a criança o dia inteiro) todas as funções menos agradáveis de trocar fraldas, lavar, limpar, aguentar os choros e os maus modos de crianças mimadas. Permanecem como fiscais e muitas vezes explicam complicadas teorias que brandem os «traumas» como uma ameaça a quem corrige a criança. A «pajem», ou «auxiliar» da educadora diplomada que fica à distância, é uma «empregada doméstica» que deve cumprir ordens superiores apesar de efectivamente exercer a função de educar, acarinhar, ensinar as crianças durante todo o dia. Dessa forma inibem a criatividade de quem exerce o acompanhamento das crianças e impõem um modelo de cima para baixo que pode ser inadequado à realidade local.
Infelizmente não são poucos os casos de uma obra beneficente fechar as portas a voluntários mais criativos do que os «chefes». Há recusa de ajuda com medo de perder o poder ou a liderança já existente. A mesquinhez de pessoas que ficam à frente de uma obra social é um obstáculo mais forte ao desenvolvimento da acção social do que a própria miséria.
Mas há bons exemplos no Brasil. Várias ONG, portanto do terceiro setor, dedicadas a formar uma juventude que estava abandonada nas ruas ou a defenderem o que resta da natureza, que têm tido êxito e constituem um exemplo de conduta solidária. Os seus líderes entregaram o nome famoso e o prestígio conseguido nas suas profissões para proteger o trabalho de qualquer deformação imposta por doadores ambiciosos que possam desvirtuar os objectivos pretendidos: Betinho, Ayrton Senna, Raí, Jailson de Souza, e tantos outros, alguns deles já falecidos, mas representados por pessoas que, em nome da dignidade da figura que inspirou a obra social, conseguem reunir à sua volta verdadeiros exemplos da solidariedade que resistem às pressões deformadoras, assegurando o caminho de uma verdadeira revolução pacífica invencível. Vencem com uma corajosa liderança e a referência a figuras nacionais que se destacaram pela tenacidade no trabalho e fidelidade à ética.
Captação de recursos para o terceiro sector
Para distinguir a nova carreira profissional reservada principalmente à classe média alta ou aos seus protegidos, a captação de recursos para o terceiro sector - teorizada e transmitida em cursos caros - não é considerada como o variadíssimo trabalho informal que se espalha pelo mundo globalizado onde o desemprego é crescente. É uma profissão regulamentada e tem uma associação que faz grande esforço para manter a ética trabalhista. Quando integrada no quadro de funcionários ou de voluntários de uma associação sem fins lucrativos torna-se importante suporte divulgando a imagem já alcançada pela obra social levantada por voluntários e cativando novos doadores – corresponde à função do publicitário. Diferente é a situação dos profissionais que pertencem a grandes empresas ou trabalham como autónomos para elas. São perspectivas opostas tanto em relação aos objectivos fundamentais como à ética.
Apesar de, como outros apregoados serviços autónomos que substituem a estrutura administrativa de uma sede comercial por um telefone celular e o uso da internet na divulgação e pesquisa (caindo facilmente no âmbito do trabalho informal), a função do captador é entendida como um veículo de inserção de grandes empresas às necessárias obras sociais, para manter vivo o mercado consumidor e de mão de obra dentro da perspectiva da «demanda ética» que a política actual impõe diante do caos de destruição a que foi condenado o mundo pela ganância de lucro. Como autónomo, e na defesa dos interesses dos «doadores», recebem como remuneração uma percentagem das doações arrecadadas (que a associação profissional dos captadores condena). Mas não ficam por aí. Apropriam-se do conhecimento adquirido pelo trabalho social já experiente, do know how para compor um relatório referente aos benefícios previstos com a «doação» (investimento) e desenham um modelo empresarial de gestão a ser adoptado pela organização, desprezando como ignorante e incompetente todo o processo de adequação à realidade social e às transformações ideológicas não mensuráveis estatisticamente. Há ainda os que transformam a história daquela obra social num manual que poderá ser editado pelo «doador», para abrir novos caminhos para o seu modelo.
O estudo organizacional do Terceiro Sector com perspectiva de profissionalização, estabelecendo um equilíbrio com o Estado e o mercado, equaciona uma prática milenar – a de campanhas financeiras feitas por voluntários para suportar trabalhos sociais (que hoje recebe o nome de captação de recursos e é remunerada) e o modelo capitalista de financiamento. Já há uma farta bibliografia sobre o tema em busca do enquadramento da filantropia (e, porque não, da militância social) nos modelos empresariais, sempre com a conclusão de que aos movimentos sociais falta racionalidade e arcabouço teórico para adequar ao que é caracterizado como «ideologia do trabalho».
Do ponto de vista militante, isto é, da dedicação desinteressada, não remunerada, dos que apoiam os movimentos sociais, que dão valor à solidariedade humana, este enquadramento por um modelo empresarial anula o conceito de «entidade sem fim lucrativo» e interfere destrutivamente no que se entende por «solidariedade social». Como compatibilizar um captador de recursos que chega a ficar com 30% do montante doado a uma obra social com o esforço idealista – considerado ingénuo e ignorante – de quem doa a sua mão-de-obra e os recursos que encontra mesmo quando está desempregado ou é mal pago noutro serviço? Na verdade o modelo organizacional é compatível com a elite e a sua ideologia que discrimina os sectores populares sendo incompatível com a visão «socrática» e com qualquer filosofia que primeiro conhece a realidade para depois criar uma fórmula de organização que aproveite a sua criatividade e aumente a produtividade do trabalho. A solidariedade e o trabalho voluntário resulta do casamento da emoção com a razão. Para os mecanicistas que calculam o valor da liberdade trata-se de uma mágica, para o indivíduo simplesmente humano é a condição de vida.
O esforço que o sistema capitalista hoje faz para enquadrar o trabalho informal nas regras da sociedade lembra o sonho de meter numa garrafa o génio para ser usado por quem se tornou o seu proprietário. É certo que cria um mercado de trabalho, um remendo para um sistema que abandona a produção em prol dos serviços e da tecnologia sem levar em conta as responsabilidades de desenvolvimento social. Mas, abre caminho para quem aceita uma percentagem do que seria destinado às obras filantrópicas, e nisto é bastante semelhante a um novo mercado aberto pelas empresas militares que oferecem exércitos mercenários para qualquer tipo de guerra.
Empresas militares
O interessante programa «Sem Fronteiras» da Globo News TV apresentou entrevistas, uma feita com um representante norte-americano das empresas militares privadas que preparam civis mercenários com técnicas militares para serviços contratados pelo Pentágono e pelo Ministério de Defesa dos Estados Unidos. É mais um exemplo de terceirização que, além de tarefas militares desempenha serviços de suporte aos exércitos regulares garantindo alimentação, lavandaria, abastecimento de equipamentos, reconstrução de áreas destruídas, protecção pessoal de personalidades políticas (como Kasai no Afeganistão), e muito mais. Este terceiro setor nasceu na década de 70 nos Estados Unidos vinculado às fábricas de armas e à empresa Halliburg (de Dick Cheney) e prestou vários serviços na América Latina, como no combate aos guerrilheiros da Colômbia, até inaugurar uma carreira internacional na Bósnia, na Serra Leoa, na Etiópia, também contratados pela Inglaterra segundo o porta-voz Doug Brooks das empresas militares. A propaganda da eficiência das empresas é apresentada em números de mortos, tempo de acção e economia de recursos, como um Mack Donald do extermínio que já actuou em cerca de uma centena de países.
Nas demais entrevistas, defensores dos Direitos Humanos de vários continentes comentaram o tema, preocupados com a formação de mercenários preparados para matar militares ou civis em qualquer país, sem a possibilidade de serem julgados por tribunais, já que são apátridas. O almirante Reginaldo Reis, da Escola de Guerra Naval do Brasil, acrescentou a essas preocupações a «perda de soberania das nações» e a «falta de transparência e ética na conduta militar» desvinculada do valor patriótico e das convenções internacionais. Explica que esta terceirização resultou da redução do contingente de soldados dos exércitos por motivos financeiros.
O assunto está promovendo debates porque existe a cogitação de que também a ONU passe a contratar os mercenários – baratos, eficientes e apátridas – cuja morte eventual não comove as nações de origem, passando desapercebidas. É um modelo que pretende ser justificado pelo «combate ao terrorismo».
Algo está podre no Reino da Humanidade. Há muito trabalho pela frente para que tenhamos um Feliz Ano Novo.
As empresas públicas utilizam as «terceirizadas» com a alegação de que, pela sua especialização e gestão concentrada, podem desempenhar melhor as tarefas sem sobrecarregar o Estado. Nem sempre isto ocorre devido a interesses particulares da empresa, falta de fiscalização e abuso de poder, de quem não se responsabiliza pelo bem estar social.
A «terceira via», que historicamente tem surgido como saída divisionista em partidos de esquerda, acaba sempre por se integrar na corrente social-democrata que oscila entre centro-direita e centro-esquerda sem explicitar os seus fundamentos ideológicos.
O «terceiro sector» abriu caminho para a organização de empresas que não são públicas nem privadas no momento em que o mundo ocidental denunciava os erros da centralização da economia estatal e temia o crescente poder político das multinacionais. Alguns utilizam-no para fundamentar a teoria do Estado mínimo, base do neocapitalismo que esvazia a democracia e fortalece o centralismo multinacional, e outros para a criação de empresas e mercado de trabalho que enfrentam as graves questões sociais e económicas desprezadas pelas elites poderosas.
O que hoje vemos é a velha necessidade de procurar alternativas sem referência explícita aos princípios e objectivos que estão na base de qualquer acção. Faltará sempre identificar os reais objectivos dos chamados terceiros e lutar pela vigência dos princípios democráticos com lucidez.
Há grandes doadores, mas o que se entende por «doação» quase sempre se traduz por «investimento» e aí aparece o objectivo pretendido e a capacidade dos organizadores das obras sociais de não serem subjugados. O antigo ditado popular «quando a esmola é grande o santo desconfia» não perdeu actualidade através dos séculos e serve de alerta para quem espera milagres económicos. E, para os que falam em democracia, porém impõem a sua vontade, deve-se recordar que há 2400 anos Sócrates foi condenado à morte pela elite grega por defender o método de ensino «de baixo para cima» através do diálogo que contraria o modelo autoritário. O poder da elite não se coaduna com a igualdade de direitos, mesmo que o discurso feito pretenda fazê-lo. Na associação entre a solidariedade social e os investidores beneméritos, deve-se ter segurança tanto na gestão dos recursos como na do desenvolvimento ideológico do trabalho de interesse popular. É fácil apresentar estatísticas financeiras e índices de saúde, mas não existem maneiras de se medir a auto-estima ou a esperança que constituem a base do desenvolvimento da solidariedade e da participação social.
Ingenuidade e confiança
Uma constante nos que se entregam à luta social em defesa dos cidadãos discriminados e explorados é a confiança no ser humano e no trabalho colectivo. Quando educamos uma criança queremos dar-lhe confiança em si e também nos que a cercam, para que caminhe com segurança na vida, sem medos, sem preconceitos. Mas não queremos que se torne ingénua a ponto de não saber defender-se. Há uma confusão permanente entre a disposição «ingénua», entendida como confiante e tolerante, e a ingenuidade como fruto da distração, do desinteresse ou da ignorância. Tem a ver com mais uma das dicotomias temidas: o predomínio do racional ou do emocional. Mais uma vez a sabedoria popular registou: «Nem tanto ao mar, nem tanto à terra», o que não significa ancorar no rochedo ou ficar em cima do muro. Somos dotados de inteligência e sensibilidade que devem ser equilibradas segundo a nossa vontade política de agir. E agir implica assumir uma posição.
Assim como as qualidades do ser humano vêm à tona quando ele participa solidariamente da luta colectiva, os defeitos aparecem quando ele tem poder individual e não respeita os outros. Um chefe autoritário, mesmo que seja um génio, é capaz de destruir um grupo de voluntários que trabalham para melhorar as condições de vida da população mais carente. Toma decisões sem consultar os demais, fomenta a omissão e a bajulação, cerca-se de «vaquinhas de presépio» que estão ali à sombra do poder para tirar alguma vantagem social ou política. Pode transformar pessoas generosas em meros oportunistas.
O trabalho pesado é enfrentado por assalariados a quem se fala em solidariedade na hora de exigir ou de pagar um salário baixo, mas que são tratados como peças da máquina empresarial. É comum surgirem chefes secundários que repetem o exemplo vindo de cima. A literatura referente às creches, por exemplo, chama a atenção para o desempenho elitista de profissionais que delegam às «pajens» (termo inadequado atribuído à educadora que acompanha a criança o dia inteiro) todas as funções menos agradáveis de trocar fraldas, lavar, limpar, aguentar os choros e os maus modos de crianças mimadas. Permanecem como fiscais e muitas vezes explicam complicadas teorias que brandem os «traumas» como uma ameaça a quem corrige a criança. A «pajem», ou «auxiliar» da educadora diplomada que fica à distância, é uma «empregada doméstica» que deve cumprir ordens superiores apesar de efectivamente exercer a função de educar, acarinhar, ensinar as crianças durante todo o dia. Dessa forma inibem a criatividade de quem exerce o acompanhamento das crianças e impõem um modelo de cima para baixo que pode ser inadequado à realidade local.
Infelizmente não são poucos os casos de uma obra beneficente fechar as portas a voluntários mais criativos do que os «chefes». Há recusa de ajuda com medo de perder o poder ou a liderança já existente. A mesquinhez de pessoas que ficam à frente de uma obra social é um obstáculo mais forte ao desenvolvimento da acção social do que a própria miséria.
Mas há bons exemplos no Brasil. Várias ONG, portanto do terceiro setor, dedicadas a formar uma juventude que estava abandonada nas ruas ou a defenderem o que resta da natureza, que têm tido êxito e constituem um exemplo de conduta solidária. Os seus líderes entregaram o nome famoso e o prestígio conseguido nas suas profissões para proteger o trabalho de qualquer deformação imposta por doadores ambiciosos que possam desvirtuar os objectivos pretendidos: Betinho, Ayrton Senna, Raí, Jailson de Souza, e tantos outros, alguns deles já falecidos, mas representados por pessoas que, em nome da dignidade da figura que inspirou a obra social, conseguem reunir à sua volta verdadeiros exemplos da solidariedade que resistem às pressões deformadoras, assegurando o caminho de uma verdadeira revolução pacífica invencível. Vencem com uma corajosa liderança e a referência a figuras nacionais que se destacaram pela tenacidade no trabalho e fidelidade à ética.
Captação de recursos para o terceiro sector
Para distinguir a nova carreira profissional reservada principalmente à classe média alta ou aos seus protegidos, a captação de recursos para o terceiro sector - teorizada e transmitida em cursos caros - não é considerada como o variadíssimo trabalho informal que se espalha pelo mundo globalizado onde o desemprego é crescente. É uma profissão regulamentada e tem uma associação que faz grande esforço para manter a ética trabalhista. Quando integrada no quadro de funcionários ou de voluntários de uma associação sem fins lucrativos torna-se importante suporte divulgando a imagem já alcançada pela obra social levantada por voluntários e cativando novos doadores – corresponde à função do publicitário. Diferente é a situação dos profissionais que pertencem a grandes empresas ou trabalham como autónomos para elas. São perspectivas opostas tanto em relação aos objectivos fundamentais como à ética.
Apesar de, como outros apregoados serviços autónomos que substituem a estrutura administrativa de uma sede comercial por um telefone celular e o uso da internet na divulgação e pesquisa (caindo facilmente no âmbito do trabalho informal), a função do captador é entendida como um veículo de inserção de grandes empresas às necessárias obras sociais, para manter vivo o mercado consumidor e de mão de obra dentro da perspectiva da «demanda ética» que a política actual impõe diante do caos de destruição a que foi condenado o mundo pela ganância de lucro. Como autónomo, e na defesa dos interesses dos «doadores», recebem como remuneração uma percentagem das doações arrecadadas (que a associação profissional dos captadores condena). Mas não ficam por aí. Apropriam-se do conhecimento adquirido pelo trabalho social já experiente, do know how para compor um relatório referente aos benefícios previstos com a «doação» (investimento) e desenham um modelo empresarial de gestão a ser adoptado pela organização, desprezando como ignorante e incompetente todo o processo de adequação à realidade social e às transformações ideológicas não mensuráveis estatisticamente. Há ainda os que transformam a história daquela obra social num manual que poderá ser editado pelo «doador», para abrir novos caminhos para o seu modelo.
O estudo organizacional do Terceiro Sector com perspectiva de profissionalização, estabelecendo um equilíbrio com o Estado e o mercado, equaciona uma prática milenar – a de campanhas financeiras feitas por voluntários para suportar trabalhos sociais (que hoje recebe o nome de captação de recursos e é remunerada) e o modelo capitalista de financiamento. Já há uma farta bibliografia sobre o tema em busca do enquadramento da filantropia (e, porque não, da militância social) nos modelos empresariais, sempre com a conclusão de que aos movimentos sociais falta racionalidade e arcabouço teórico para adequar ao que é caracterizado como «ideologia do trabalho».
Do ponto de vista militante, isto é, da dedicação desinteressada, não remunerada, dos que apoiam os movimentos sociais, que dão valor à solidariedade humana, este enquadramento por um modelo empresarial anula o conceito de «entidade sem fim lucrativo» e interfere destrutivamente no que se entende por «solidariedade social». Como compatibilizar um captador de recursos que chega a ficar com 30% do montante doado a uma obra social com o esforço idealista – considerado ingénuo e ignorante – de quem doa a sua mão-de-obra e os recursos que encontra mesmo quando está desempregado ou é mal pago noutro serviço? Na verdade o modelo organizacional é compatível com a elite e a sua ideologia que discrimina os sectores populares sendo incompatível com a visão «socrática» e com qualquer filosofia que primeiro conhece a realidade para depois criar uma fórmula de organização que aproveite a sua criatividade e aumente a produtividade do trabalho. A solidariedade e o trabalho voluntário resulta do casamento da emoção com a razão. Para os mecanicistas que calculam o valor da liberdade trata-se de uma mágica, para o indivíduo simplesmente humano é a condição de vida.
O esforço que o sistema capitalista hoje faz para enquadrar o trabalho informal nas regras da sociedade lembra o sonho de meter numa garrafa o génio para ser usado por quem se tornou o seu proprietário. É certo que cria um mercado de trabalho, um remendo para um sistema que abandona a produção em prol dos serviços e da tecnologia sem levar em conta as responsabilidades de desenvolvimento social. Mas, abre caminho para quem aceita uma percentagem do que seria destinado às obras filantrópicas, e nisto é bastante semelhante a um novo mercado aberto pelas empresas militares que oferecem exércitos mercenários para qualquer tipo de guerra.
Empresas militares
O interessante programa «Sem Fronteiras» da Globo News TV apresentou entrevistas, uma feita com um representante norte-americano das empresas militares privadas que preparam civis mercenários com técnicas militares para serviços contratados pelo Pentágono e pelo Ministério de Defesa dos Estados Unidos. É mais um exemplo de terceirização que, além de tarefas militares desempenha serviços de suporte aos exércitos regulares garantindo alimentação, lavandaria, abastecimento de equipamentos, reconstrução de áreas destruídas, protecção pessoal de personalidades políticas (como Kasai no Afeganistão), e muito mais. Este terceiro setor nasceu na década de 70 nos Estados Unidos vinculado às fábricas de armas e à empresa Halliburg (de Dick Cheney) e prestou vários serviços na América Latina, como no combate aos guerrilheiros da Colômbia, até inaugurar uma carreira internacional na Bósnia, na Serra Leoa, na Etiópia, também contratados pela Inglaterra segundo o porta-voz Doug Brooks das empresas militares. A propaganda da eficiência das empresas é apresentada em números de mortos, tempo de acção e economia de recursos, como um Mack Donald do extermínio que já actuou em cerca de uma centena de países.
Nas demais entrevistas, defensores dos Direitos Humanos de vários continentes comentaram o tema, preocupados com a formação de mercenários preparados para matar militares ou civis em qualquer país, sem a possibilidade de serem julgados por tribunais, já que são apátridas. O almirante Reginaldo Reis, da Escola de Guerra Naval do Brasil, acrescentou a essas preocupações a «perda de soberania das nações» e a «falta de transparência e ética na conduta militar» desvinculada do valor patriótico e das convenções internacionais. Explica que esta terceirização resultou da redução do contingente de soldados dos exércitos por motivos financeiros.
O assunto está promovendo debates porque existe a cogitação de que também a ONU passe a contratar os mercenários – baratos, eficientes e apátridas – cuja morte eventual não comove as nações de origem, passando desapercebidas. É um modelo que pretende ser justificado pelo «combate ao terrorismo».
Algo está podre no Reino da Humanidade. Há muito trabalho pela frente para que tenhamos um Feliz Ano Novo.