A suspeita

Correia da Fonseca
Andava eu, num destes domingos, a navegar quase inteiramente à deriva, de canal para canal, em busca de uma espécie de porto de abrigo onde não sentisse indignações nem náuseas, quando acabei por acostar ao canal Viver, distribuído por cabo. Não sou seu frequentador habitual, nem antes nem depois da meia-noite, alguns entenderão por que o explico. De qualquer modo, é um canal que, com razão ou sem ela, me parece de escasso interesse, pelo que ainda foi maior a minha surpresa ao deparar com uma rubrica, «Viver Cidade», que naquele momento estava a fazer qualquer coisa de inesperado: uma visita aos lugares que foram da PIDE na Rua António Maria Cardoso, e visita de algum modo guiada por um antigo preso político, Josué Romão, tarrafalista com dezasseis anos de permanência naquele campo de horrores. Soube depois, para reforço do meu espanto (e óbvia denúncia da minha distracção), que «Viver Cidade» já antes fizera idênticas visitas, sempre acompanhadas por ex-prisioneiros da PIDE, tendo apurado até que as informações dadas à rubrica por Carlos Coutinho, o jornalista e escritor que lutou integrado na quase mítica ARA, foram especialmente esclarecedoras e muito apreciadas por quem as ouviu.

Uma repetida ausência

Foi assim que vim a saber que, afinal, factos e circunstâncias da resistência antifascista e da selvática repressão da PIDE ainda «passam» na televisão portuguesa, embora em canal apenas acessível aos assinantes da TV por cabo e tão discretamente que quase ninguém dá por isso. E quero acrescentar que aquele fortuito encontro me foi muito benéfico. E que na véspera, ao assistir a mais uma emissão do programa «Parlamento» (agora, como creio já ter registado aqui, em coloração factualmente alaranjada por opção do cenarismo), verifiquei mais uma vez que faltava ali alguém. Estavam no estúdio, além do jornalista que conduz o programa em substituição do saudoso Hélder Freire, um deputado do PSD, um deputado do CDS-PP, um deputado do PS e um deputado do BE. Mais ninguém: quer dizer, nenhum deputado do PCP. E, repito, isto acontecia uma vez mais. Lembrei-me então de que, como aliás bem se sabe, estamos agora um pouco na era dos comentadores políticos «imbbebed» nos serviços noticiosos principais. Fazendo uma espécie de inventário de memória, contei três do PSD (Marcelo, Pacheco e Santana) e um do PS (Carrilho). Mais tarde, lembrei-me de que um dos tais canais de audiência forçosamente reduzida há, em regime de frente-a-frente, uma pequena multidão de «opinion makers» na qual talvez esteja algum militante do PCP, quem sabe? Porém, uma coisa são os canais «clássicos», abertos a todos os telespectadores, e coisinha diferente são os canais só para o estreito segmento que acede a pagar o cabo. Os canais clássicos são, decerto, mass media, isto é, meios de comunicação de massa embora à limitada escala portuguesa. Os canais por cabo não chegam a ser tanto; e ainda seria preciso, para uma aceitável avaliação do seu impacto, saber que fracção do segmento que os assina tem a pachorra bastante para assistir aos tais frente-a-frente.

Querem ver que...?

Acima de tudo, porém, parece particularmente significativa a exclusão de emissões do «Parlamento» de um deputado do PCP. Nem me atrevo a perguntar se a produção do programa entende que a Esquerda está ali suficientemente representada pelo BE (sabendo-se que, quanto ao PS, é conforme, isto é, as coisas são móveis «quai piuma al vento», como cantaria o Duque de Mântua). Não é possível alegar, é claro, uma alegadamente diminuta representatividade parlamentar do PCP, pois o CDS anda pela mesma escala e o BE é aquilo que se sabe. Afasto também como improvável, apesar das conhecidas e generalizadas restrições no investimento público, uma penúria de cadeiras no estúdio. Então, como explicar a aliás repetida ausência? É então que me atravessa a cabecinha uma suspeita desvairada: querem ver que já foi decretada a extinção do PCP, pelo menos para efeitos televisivos, nós é que ainda não sabemos dela mas o «Parlamento» já a conhece e já lhe obedece? Querem ver que é também em resultado dessa democrática decisão que não há nos canais «clássicos» nenhum «opinion maker» que corresponda à opinião de uma fracção da população portuguesa que está longe de ser minúscula, como o provam os resultados eleitorais? Querem ver que, nesta área, «já chegámos à Madeira», isto é, ao anticomunismo sem vergonha e sem controlo? Minutos depois do assalto da suspeita louca, regresso ao bom-senso e respondo que «ainda não». Mas reconheço que algures em mim se mantém uma hesitação incómoda.


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