Meditações pastorais (1)
O comunicado final da recente Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (Novembro de 2003) sugere alguma reflexão. Tinha-se criado um certo interesse por este novo encontro pastoral após a publicação, em Setembro passado, de uma nota onde a CEP abordava de forma difusa aspectos importantes que figuram no actual panorama da luta de classes que se trava em Portugal. Os enunciados desse documento estavam tocados, em nossa opinião, pela pouca objectividade das análises e pela indefinição das posições que seriam de exigir da ética e da política assinaladas na doutrina social da igreja. Neste sentido, as esperanças viram-se frustradas. Em Setembro de 2003, os bispos tinham falado em sete pecados sociais da nossa sociedade. Procuraram agrupar essas estruturas de pecado em grandes áreas que depois definiram segundo critérios de abordagem muito diferenciados. Por vezes, deram conteúdo concreto aos termos em que associavam sectores problemáticos afins (consumismo económico, injustiças do sistema fiscal, exclusão social gerada pela pobreza); outras vezes, mostraram conhecer os problemas de fundo da nossa sociedade (a corrupção, os egoísmos materialistas ), bem como as suas causas, para logo procurarem refúgio e evasão nas ambiguidades da teologia oficial («os pecados sociais têm a sua origem primeira no coração da pessoa»); finalmente, os bispos recorreram a meias-verdades. Sendo certo que os acidentes na estrada e a comercialização do fenómeno desportivo são verdadeiros problemas nacionais, ninguém pode esquecer que eles resultam como efeito e não como causa da profunda degradação de valores que atinge a nossa sociedade. Há no texto desiquilíbrios de apreciação. Muitos católicos terão ficado a aguardar posteriores desenvolvimentos do que fora afirmado em Setembro. Recordam que há já 40 anos a igreja católica prometia abrir janelas sobre o mundo por onde entrem lufadas de ar fresco. Mas as persianas continuam corridas.
A igreja portuguesa perdeu, assim, uma oportunidade mais de concretização da sua proclamada «opção preferencial pelos pobres». Matéria, tem de sobejo, a começar pelo aumento brutal das taxas de desemprego e do custo da vida, da injusta distribuição social dos lucros, do processo de concentração de capitais e do poder e das sérias ameaças à coesão das famílias contidas na proposta de Orçamento de Estado a apresentar pelo governo PSD/CDS. Porém, reunidos em Plenário, os bispos portugueses preferiram privilegiar as problemáticas do... futebol! Dada a extensão da nota publicada sobre este assunto (uma autêntica Carta Pastoral!) e os evidentes cuidados postos na sua redacção é de admitir que o episcopado tenha gasto muitas horas de debates em torno dos prós e dos contra do negócio da «bola». Naturalmente que ligando o que é de interesse material e lucrativo e é incentivado pela próxima realização do Euro 2004, a necessidade do desencadear de um contra-ataque imediato à tendência que se esboça para uma certa teologia do futebol e os transcendentes obstáculos que se apresentam à conturbada Refundação da Europa (excepcionalmente, o Núncio Apostólico em Lisboa mas residente em Madrid esteve presente no Plenário da CEP). Não resistimos a transcrever uma frase da nota do episcopado: «A Igreja está no mundo e interessa-se por tudo aquilo que é verdadeiramente humano». Depois, fala-se em futebol e cala-se a denúncia da miséria que cresce no país.
É evidente, também, que os bispos portugueses não passaram os quatro dias do seu encontro a falar naquilo a que, com veia literária, chamaram «luzes e sombras de um desporto mediático». Também decidiram em assuntos mais sérios. Por exemplo: disfarçado num modesto ponto 8 declara-se que «a Assembleia fez as seguintes nomeações». Depois, é divulgada uma lista de cinco sacerdotes designados para novas funções. Aparentemente, nada há a dizer. Em qualquer instituição é comum redistribuirem-se os responsáveis por lugares anteriormente desempenhados por outros, sempre no quadro das linhas orgânicas anteriormente reconhecidas. Neste caso acontece, porém, existirem fortes indícios de terem sido escamoteadas pelos bispos as verdadeiras motivações das nomeações. Escondendo que se situam no âmbito de um plano mais vasto.
A igreja portuguesa perdeu, assim, uma oportunidade mais de concretização da sua proclamada «opção preferencial pelos pobres». Matéria, tem de sobejo, a começar pelo aumento brutal das taxas de desemprego e do custo da vida, da injusta distribuição social dos lucros, do processo de concentração de capitais e do poder e das sérias ameaças à coesão das famílias contidas na proposta de Orçamento de Estado a apresentar pelo governo PSD/CDS. Porém, reunidos em Plenário, os bispos portugueses preferiram privilegiar as problemáticas do... futebol! Dada a extensão da nota publicada sobre este assunto (uma autêntica Carta Pastoral!) e os evidentes cuidados postos na sua redacção é de admitir que o episcopado tenha gasto muitas horas de debates em torno dos prós e dos contra do negócio da «bola». Naturalmente que ligando o que é de interesse material e lucrativo e é incentivado pela próxima realização do Euro 2004, a necessidade do desencadear de um contra-ataque imediato à tendência que se esboça para uma certa teologia do futebol e os transcendentes obstáculos que se apresentam à conturbada Refundação da Europa (excepcionalmente, o Núncio Apostólico em Lisboa mas residente em Madrid esteve presente no Plenário da CEP). Não resistimos a transcrever uma frase da nota do episcopado: «A Igreja está no mundo e interessa-se por tudo aquilo que é verdadeiramente humano». Depois, fala-se em futebol e cala-se a denúncia da miséria que cresce no país.
É evidente, também, que os bispos portugueses não passaram os quatro dias do seu encontro a falar naquilo a que, com veia literária, chamaram «luzes e sombras de um desporto mediático». Também decidiram em assuntos mais sérios. Por exemplo: disfarçado num modesto ponto 8 declara-se que «a Assembleia fez as seguintes nomeações». Depois, é divulgada uma lista de cinco sacerdotes designados para novas funções. Aparentemente, nada há a dizer. Em qualquer instituição é comum redistribuirem-se os responsáveis por lugares anteriormente desempenhados por outros, sempre no quadro das linhas orgânicas anteriormente reconhecidas. Neste caso acontece, porém, existirem fortes indícios de terem sido escamoteadas pelos bispos as verdadeiras motivações das nomeações. Escondendo que se situam no âmbito de um plano mais vasto.