As esperanças dos povos democráticos foram traídas

Guerras de Israel, guerras de terroristas (Partes 2 e 3)

Manoel de Lencastre
A violência generalizou-se em toda a Palestina. Manifestações nas cidades. Explosões um pouco por todo o lado. Batalhas pelo controlo de áreas urbanas. A luta pela posse da estrada que dava a Jerusalém era particularmente encarniçada. Forças árabes tentavam isolar aglomerações de judeus recém-chegados na zona de Telavive. Mas organizações terroristas judaicas continuavam firmes em Jaffa, Haifa, Acre, em largas partes da velha Galileia.
A guerra de 1948: Ondas de refugiados palestinianos começavam a abandonar as áreas já controlados pelos judeus. Para estes, chegavam reforços de muitas partes da Europa e das Américas. Homens que tinham lutado na 2ª Guerra Mundial. A Checoeslováquia fornecia-lhes armamento com abundância. Israel declarara-se independente mas tinha contra si os exércitos do Egipto, da Síria e do Líbano. A 11 de Junho, os judeus estavam em desvantagem. Os egípcios achavam-se, praticamente, às portas de Telavive. Em Dezembro, porém, os sionistas conseguiam um novo equilíbrio de forças no terreno e entravam no deserto do Sinai. O Egipto, nestas circunstâncias, preferiu assinar um acordo de paz, o que se realizou em Rodes em Fevereiro de 1949.
O novo Estado da Jordânia, entrando em acordos secretos com os israelitas, impediu a criação do país dos palestinianos e dividiu Jerusalém com os judeus. Estes actos de traição praticados pelo rei Abdullah, pai do futuro Hussein, custaram-lhe a vida. Mas a verdade é que, por esta altura do conflito, Israel já detinha muito mais território palestiniano do que os 55% autorizados pela ONU. Entretanto, os fanáticos sionistas exigiam a formação de um ‘Grande Israel’ com fronteiras inventadas de acordo com duvidosos textos bíblicos. Mas nada menos de 700 000 palestinianos tinham sido obrigados a abandonar as suas terras e as suas casas enquanto surgiam judeus de todos os cantos do mundo.

A guerra de 1956

O imperialismo inglês, tal como o francês, reagiram, violentamente, à nacionalização do Canal de Suez. Mas Gamal Abdel Nasser, o presidente egípcio que dispunha do firme apoio da URSS, resistiu à invasão de Suez e Port Said enquanto as potências, em febril acção diplomática, procuravam resolver o futuro do Canal. Aproveitando-se da situação, os israelitas tinham invadido o Sinai na esperança de que Nasser capitulasse por não ter meios para defender-se em duas frentes. O mundo sentiu-se à beira de um conflito geral envolvendo as duas super-potências. Certo, os Estados Unidos não apoiaram a acção anglo-francesa por não terem sido postos ao corrente da mesma dado que os governos de ‘sir’ Anthony Eden e Guy Mollet tinham planeado a invasão do Canal de Suez no mais completo segredo.
Seria de admitir, entretanto, que se a URSS interviesse no conflito a atitude dos americanos, sob a presidência de Eisenhower, fosse alterada. O governo de Washington, porém, manifestava-se, publicamente, contrário à falta de ‘disciplina’ dos seus aliados e insistia na respectiva retirada porque mantinha ilusões de que o ‘novo’ Egipto pudesse vir a aliar-se, no futuro, com os interesses do imperialismo americano. Mas o histórico ultimato soviético entregue em termos bastante precisos à Grã-Bretanha e à França forçou estes dois países imperialistas a sair do Canal de Suez abandonando a política de ambiguidades que vinham praticando enquanto Washington ficava paralisada. Um ano mais tarde, os terroristas judaicos abandonavam o Sinai.

A guerra dos seis dias (1967)

A situação entre Israel e os países árabes complicava-se cada vez mais. Qualquer pequeno incidente podia dar lugar a um conflito de largas proporções porque, agora, os sionistas tinham o apoio completo dos imperialistas americanos. A divisão das águas do rio Jordão era assunto quente que dividia os judeus, os sírios e os jordanos. Sabia-se que as altas patentes do exército de Israel desejavam a guerra. Nasser, por seu lado, exprimia a convicção de que só um conflito vitorioso levaria o Egipto a impedir Israel de produzir armas atómicas.
Em fins de Maio de 1967, os dirigentes dos países árabes declaravam-se dispostos a recuperar o território da Palestina, para sempre. Mas o Estado-Maior israelita tinha planos para o dia 5 de Junho. Assim, às 07.45 da manhã, a aviação surgiu sobre o Egipto, mas voando da zona do Mediterrâneo. Em nove das suas bases aéreas, os egípcios perderam mais de 300 aviões. Consumada esta acção estratégica, os israelitas procederam a similares ataques contra os aeroportos sírios e jordanos. Estes países perderam, também, quase todos os aviões militares de que dispunham e os israelitas proclamaram a sua superioridade total nos ares.
Três dias depois, unidades de paraquedistas sionistas entraram na Cidade Velha de Jerusalém. Toda a margem ocidental do Jordão cairia no dia seguinte. E vinte e quatro horas mais tarde, atingiriam ao Canal de Suez. O exército egípcio tinha sido sumariamente derrotado. Os sírios perderam os Montes Golan e Kuneitra e concentravam-se, agora, na defesa de Damasco quase exclusivamente.
Na situação decorrente desta espectacular vitória militar e dado que os territórios ocupados eram cada vez mais, Israel começou a atrair judeus de todo o mundo (verdadeiros ou falsos) para que a anexação daqueles territórios árabes viesse a ter lugar. Aventureiros americanos, principalmente, convertidos em judeus de última hora, começaram a chegar a Israel para se fixarem em terras que não lhes pertenciam, mas em nome de uma inacreditável herança bíblica.

1968 – A revolta dos palestinianos

Yasser Arafat era um engenheiro civil que trabalhava no Kuwait. Com um grupo de outros patriotas decidiu agir pela sua Pátria e formou a organização a que ainda hoje preside, a ‘Fatah’ (Conquista). Após um tempo de inêxitos, os membros da ‘Fatah’ convenceram-se de que a guerrilha era o tipo de acção mais adequado às suas possibilidades. O seu desafio aos ocupacionistas e opressores começou logo a galvanizar as populações palestinianas. Surgiam voluntários oriundos de muitos quadrantes do mundo árabe. Algumas operações contra objectivos israelitas resultaram em vitórias marcantes. O inimigo, assim, decidiu agir contra Karameh, na Jordânia, onde a ‘Fatah’ estava sediada. Mas os patriotas resistiram vigorosamente e, apesar de terem sofrido a perda de 120 dos seus melhores homens, provocaram muitas perdas entre os israelitas. Nestas circunstâncias, as derrotas sofridas pelos exércitos árabes convencionais davam lugar a uma nova esperança. A Organização para a Libertação da Palestina, que a Liga Árabe fundara em 1964, ganhava novas energias. A alma da Palestina acordava de um já longo adormecimento e preparava-se para a luta. Os dirigentes dos movimentos patrióticos reclamavam o próprio território da Jordânia como sendo parte integrante da Palestina. E surgiam bandeiras vermelhas nas mesquitas.
Em Setembro de 1970, o rei Hussein, (filho de Abdullah e pai do actual monarca) ordenou ao seu exército o esmagamento dos palestinos. E estes, após sangrentas batalhas em que milhares de combatentes tombaram, tiveram de aceitar a derrota e partir para o Líbano onde se reagruparam. Israel, entretanto, certo de que o rei Hussein (um velho amigo ...) derrotaria os patriotas palestinianos, avisou a Síria, de que sofreria graves consequências se decidisse intervir para colocar-se ao lado de Arafat. Nestes termos, a posição intratável dos israelitas como agressores e ocupacionistas, mantinha-se.

Guerra de 1973 - (Israel inimigo da URSS

Israel passou à categoria de país mais endividado do mundo. Mas isso não lhe causava preocupação posto que os seus protectores de Washington também não pagavam nem pagam os largos ‘deficits’ originados pelo seu catastrófico comércio externo. Por seu lado, o Egipto reorganizara as suas forças armadas com um rigor jamais experimentado. A URSS não vacilou na sua ajuda internacionalista aos povos árabes. Por assim ter agido, os fanáticos sionistas tornaram-se seus inimigos mortais e passaram a subverter a população de origem judaica no interior do país soviético.
No controlo de extensas áreas de território que lhes não pertencia, os sionistas viam-se forçados a fazer frente a diários incidentes nas fronteiras do Egipto. Mas a morte de Nasser, a quem sucederia Anwar al-Sadat, aconteceu quando um cessar-fogo tinha sido negociado pelas duas super-potências. Numa situação instável, Sadat, em 1972, ordenou a expulsão dos conselheiros soviéticos que tinham feito do exército egípcio uma máquina de guerra absolutamente credível. Mas Sadat necessitava de afirmar-se junto dos americanos em bases que lhe dessem um mínimo de independência. Certo das positivas condições das forças armadas egípcias, lançou, com apoio sírio, uma ofensiva militar que apanhou os judeus de surpresa. Israel não esperava este ataque (06.10.1973) apesar de avisado pelo rei Hussein, da Jordânia.
A 7 de Outubro, todos os postos israelitas na zona do Canal de Suez tinham sido reconquistados. Mas Sadat, preferiu ficar por aí, apesar dos protestos dos sírios. A reconquista do restante território egípcio ocupado, consegui-la-ía através de manobras políticas de grande espectáculo, mais tarde. Mas o momento era grave. O governo israelita informou Washington de que usaria a arma atómica contra a cidade do Cairo. Os americanos segredaram-lhe que vinham aí dias de paz e que Sadat acabaria por reconhecer o Estado judaico-sionista. Nessa altura, certos de que Sadat não tinha estatura de patriota, os generais israelitas, entre os quais Ariel Sharon, conseguiram reatravessar o Canal de Suez e cercar o 3º exército egípcio. Havia tropas de ambos os países em ambos ao lados do Canal. Só um cessar-fogo decretado pela ONU (22.10.1973) salvou o 3ºexército. Mas os israelitas já estavam certos de que, com Sadat ao serviço dos americanos, as suas posições acabariam por sair reforçadas apesar das preocupações que experimentaram.
A URSS, na expectativa de que os Estados Unidos interviessem na região para salvar Israel se a situação se agravasse, tinha feito saber a Washington e ao mundo que o Kremlin não permitiria tal cenário. Sadat já estava a encher as prisões com milhares de comunistas egípcios.
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No próximo número: A paz de Camp David (1978), a Guerra no Líbano (1982), a Intifada (1987), o Drama de Arafat (1990), a Paz com Rabin (1993), a Nova Intifada (2000), Palestina a Ferro e Fogo (2002-03).


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