Fórum Social Europeu

Contra o capitalismo e a guerra

Gustavo Carneiro
Cerca de cem mil pessoas manifestaram-se no sábado em Paris no final do segundo Fórum Social Europeu. Se os três dias de debate ficam marcados pela grande variedade e dispersão de temas e análises, na manifestação foram o neoliberalismo e a guerra os alvos privilegiados dos participantes, que rejeitam a construção de uma Europa que institucionalize o modelo liberal. Entre as organizações presentes esteve o PCP.
«Por uma Europa dos direitos, por um mundo sem guerra.» Era esta a frase inscrita na faixa que abria a manifestação que, no passado sábado, reuniu cem mil pessoas em Paris, no encerramento do segundo Fórum Social Europeu. Durante as mais de três horas que demorou a percorrer o percurso entre a Praça da República e a Praça da Nação, os manifestantes reafirmaram a sua oposição à ofensiva neoliberal em curso na Europa e à política de guerra dos Estados Unidos e dos seus aliados.
Entre os manifestantes, encontravam-se dezenas de portugueses, representantes de diversas organizações. Ao lado do PCP desfilaram estruturas como a Intervenção Democrática, a Universidade Popular do Porto, a Associação de Amizade Portugal-Cuba, a Comissão Contra o Bloqueio a Cuba/Porto, o Movimento Democrático de Mulheres, o Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos, e a Associação dos Originários de Portugal, uma das associações de emigrantes portugueses existentes em França. A JCP seguia num outro ponto da marcha, juntamente com a Federação Mundial da Juventude Democrática.
O lema da faixa da frente era genérico. Nem podia ser de outra maneira. A diversidade de causas e objectivos dos movimentos participantes tornavam impossíveis outras convergências, para além das que poderiam ser expressas através de frases generalistas, como a que abria a marcha.
Na manifestação, bem como no Fórum Social Europeu, participaram movimentos de diferentes sensibilidades, visões e objectivos. Entre os cinquenta mil participantes no Fórum, tal como na manifestação, contavam-se membros de sindicatos, de associações pacifistas, ecologistas ou feministas, de Organizações Não-Governamentais que intervêm por causas tão diversas como o apoio a refugiados de guerra ou a abolição da prostituição.
Os partidos políticos presentes iam dos comunistas aos socialistas e verdes, passando por vários partidos e grupos trotskistas. A diversidade das organizações presentes era tal, que abrangia forças políticas que até há muito pouco tempo participavam em governos e aplicavam políticas de carácter neoliberal e outras forças, que firmemente as combatiam. Se uns, na melhor das hipóteses, defendem reformas no sistema capitalista, outros há, como o PCP, que lutam pela superação do capitalismo e pela construção de uma nova sociedade, socialista.

Questões decisivas

Concebido como um espaço de encontro e reflexão daqueles que se opõem ao neoliberalismo e à guerra, o Fórum Social Europeu discutiu diversos assuntos em várias centenas de debates que ocorreram nas quatro localidades que acolheram a iniciativa: Paris/La Villette, Bobigny, Saint-Denis e Ivry-sur-Seine. Nestas sessões – talvez demasiadas e certamente demasiado dispersas – foram abordados temas como os direitos sociais, a paz, a solidariedade internacional, a soberania alimentar, a manipulação da comunicação social.
Se a rejeição do neoliberalismo e da guerra foram consensuais, outros assuntos causaram acesas discussões e vivas polémicas. A nova fase de integração europeia, com a apresentação do projecto de «tratado constitucional» da convenção presidida pelo antigo presidente francês Giscard d’Estaing, e o futuro dos fóruns sociais e da luta contra a globalização foram alguns desses temas.

Questões actuais do debate ideológico

Com a sua participação no Fórum Social Europeu, o PCP procurou intervir sobre algumas das grandes questões em debate, tal como o futuro dos fóruns. Os comunistas portugueses rejeitam a tese, defendida por alguns, de se avançar para a transformação destes eventos em «congressos onde se defina um programa político». Para Ângelo Alves, do Comité Central, os fóruns «são iniciativas de enriquecimento colectivo e reflexão», pelo que cabe às organizações a decisão acerca das acções a tomar em cada país. O PCP considera mesmo ser esse o espaço essencial da luta. No jornal bilingue que editou especialmente para o Fórum Social Europeu, afirma-se atento «às lutas que no nosso país poderão contribuir para alargar ainda mais a base social de contestação ao capitalismo».
Na mesma publicação, o PCP reafirma o seu compromisso «por uma Europa de estados soberanos e iguais, de cooperação e de paz». Os comunistas portugueses opõem-se firmemente à «constituição europeia», que consideram a «actual expressão máxima da ambição do capitalismo na Europa e das forças políticas que o suportam».
Para o PCP, este projecto da convenção é uma tentativa de «impor o aprofundamento dos principais eixos que caracterizam a União Europeia – o federalismo, o capitalismo e o militarismo».
Num debate promovido pela revista O Militante, e pelo Anti-Nato Balkan Center, o PCP reafirmou também a sua oposição à criação do exército europeu. Na sua intervenção, Ângelo Alves afirmou que este exército «apenas servirá para consolidar um bloco imperialista armado». O dirigente comunista lembrou que são os próprios Chirac, Blair e Berlusconi a afirmar que este exército irá complementar a NATO e que será mesmo criado para intervir onde os Estados Unidos, «por uma razão ou por outra, não se quiserem envolver». Para Ângelo Alves, «um outro mundo é possível, e esse mundo será certamente um mundo de paz e cooperação entre estados iguais e povos iguais. Sem a NATO nem estruturas semelhantes, como o Exército Europeu».
O PCP esteve representado no Fórum Social Europeu por uma delegação composta por Albano Nunes e Jorge Cordeiro, do secretariado, e por Ângelo Alves e João Armando, do Comité Central.

PCP presente no Fórum

Em torno do Fórum Social Europeu realizaram-se várias iniciativas, que contaram com a participação de dirigentes do PCP. Albano Nunes, do secretariado do Comité Central, participou na reunião de partidos comunistas e de esquerda, realizada no dia 11 de Novembro, a convite do Partido Comunista Francês. No encontro participaram cerca de 20 partidos, que abordaram questões de actualidade de cada um dos países, da Europa e do mundo, e discutiram aspectos para o reforço da cooperação entre partidos. No encontro, adoptou-se uma saudação ao Fórum Social Europeu, a que o Avante! fez referência na sua última edição.
Jorge Cordeiro, também do secretariado, participou no Fórum das Autoridades Locais, que se realizou em Saint-Denis entre os dias 11 e 13.
O PCP esteve representado com um stand, onde estavam disponíveis diversos materiais de propaganda e várias publicações do Partido, como o Avante! e O Militante. Assegurado por militantes que seguiram de Portugal e por outros da organização do Partido em França, o stand do PCP foi não só um importante ponto de debate político e ideológico com os participantes no Fórum como foi também um local para onde convergiram muitos emigrantes portugueses que ali iam saber algo mais sobre o seu País.

A partir de Paris
Solidariedade com Cuba

Aproveitando a presença dos participantes no Fórum Social Europeu, muitas foram as iniciativas realizadas na semana passada em Paris fora do contexto do Fórum. Entre estas, contam-se uma grande acção de solidariedade com Cuba e a Assembleia Europeia pelos Direitos das Mulheres.

O cinema da CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores, central sindical francesa) em Bobigny, não foi suficiente para albergar todos quantos, no passado dia 11, quiseram demonstrar a sua solidariedade com a revolução cubana. Realizada dois dias antes do início do Fórum Social Europeu, a iniciativa, promovida pela Embaixada de Cuba em França e por diversos movimentos de solidariedade, começou com um forte «viva Cuba». No palco, uma faixa revelava o conteúdo da acção: «Solidariedade com o povo cubano. Pelo direito de Cuba a defender a sua independência e dignidade. Pelo fim do bloqueio e das ameaças dos Estados Unidos contra Cuba.»
Pelo palco passaram vários testemunhos de amigos da revolução cubana de diversas nacionalidades. Para além de João Corregedor da Fonseca, membro da Associação de Amizade Portugal-Cuba, falaram diversos membros de organizações de solidariedade e partidos políticos franceses, belgas, espanhóis, ingleses, holandeses.
Uma das intervenções mais aplaudidas foi a do vice-presidente do Parlamento francês, do partido gaullista, de direita. «Não sou cubano nem comunista, mas sou amigo de Cuba», afirmou. «Entre a revolução francesa e a cubana há muito em comum: a liberdade conquistada contra a ditadura, a igualdade tornada realidade, a solidariedade entre os homens», acrescentou.
Um dirigente do Partido dos Comunistas Italianos referiu que os sucessos de Cuba em vários campos mostram que o socialismo é alternativa, tendo sido secundado pela intervenção de um dirigente do Partido dos Trabalhadores da Bélgica, que notou que os Estados Unidos têm medo do significado deste exemplo e que tudo fazem para o destruir. A solidariedade com os cinco cubanos presos nos Estados Unidos foi também reafirmada e reforçada.
Pelo palco do cinema da CGT em Bobigny passaram também a música e a dança. Entre músicos e bailarinos, o destaque foi para a actuação de dois membros do grupo cubano Orishas, que recentemente se viram impedidos de se deslocar aos Estados Unidos para receber o Grammy com que tinham sido galardoados.

Construir a igualdade

Cerca de duas mil pessoas desfilaram pelas ruas de Bobigny na quarta-feira, dia 12, exigindo a igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens. A acção, que foi também a abertura oficial do Fórum Social Europeu naquela cidade, integrava-se na Assembleia Europeia pelos Direitos das Mulheres, que decorreu durante todo o dia.
O debate decorreu por secções, dedicada a questões específicas da luta das mulheres: mulheres e guerra; mulheres migrantes; trabalho, pobreza, precariedade; violência; direitos sexuais e reprodutivos; mulheres e poder. Os problemas variavam de país para país, região para região. Mas em todos eles a igualdade é algo que falta conquistar. Se em Portugal e Irlanda o aborto é ainda crime, na Polónia voltou a ser, como afirmou uma representante daquele país. Na intervenção que realizou, a representante polaca lembrou que nos últimos dez anos a condição da mulher regrediu, nomeadamente ao nível dos direitos sexuais e reprodutivos. E alertou: «é tão fácil perder direitos como é difícil, depois, reconquistá-los.»
A Federação Democrática Internacional de Mulheres – à qual pertence o MDM, que esteve também presente na Assembleia por intermédio de Regina Marques e Cristina Coelho – participou na reunião. Em declarações ao Avante!, a cipriota Christina Demetriadou, vice-presidente, considera que a globalização neoliberal tem impactos muito negativos sobre as mulheres. Desemprego, migração e prostituição são apenas algumas das consequências sobre as mulheres das classes mais desfavorecidas. Face a isto, a dirigente afirmou a disponibilidade da Federação para continuar a apoiar e a desenvolver o movimento de mulheres em todo o mundo, contra a globalização, a pobreza e a violência, que afectam em primeiro lugar, e de forma mais cruel, as mulheres e as crianças.