Confissões da Pastoral Social (3)

Jorge Messias
Naquela «III Semana Nacional da Pastoral Social» decorrida em 1985, estavam presentes os mais destacados teóricos portugueses da acção sócio-caritativa da Igreja: o bispo D. António Marcelino e os padres e doutores Acácio Catarino, Ourives Marques, Vítor Feytor Pinto, João Caniço, Appeles Conceição, Raquel Ribeiro e José Mendes Serrazina. Politicamente, foram jornadas decisivas para as estratégias pastorais que a igreja portuguesa adoptaria depois. Mas concentremo-nos exclusivamente na intervenção de F. Pinto.
Declarou que o agente da pastoral é um homem de missão. Que deve caracterizá-lo o voluntariado e a aceitação do transitório, da acção, do movimento e da obediência integral. Ainda que F. Pinto tenha a consciência de que pedir tanto é querer demais. Mas insiste: «Olhando com atenção a acção de Cristo na sua dimensão social e caritativa, facilmente se compreende que o grande objectivo é a construção do Reino de Deus mas que a dimensão deste reino passa pela transformação definitiva da terra e da humanidade, pela salvação do homem e de todos os homens, pela mudança do Universo e sua renovação completa, até à plenitude.» Assim, a igreja católica admitia representar uma ideologia interessada na hegemonia do poder. A seguir, paradoxalmente, FP espraiava-se em reflexões sobre o método que facilmente poderiam ser subscritas por qualquer marxista-leninista: acção e reflexão, «praxis» e teoria, o agir e o pensar, o reformismo e o revisionismo (a que chama activismo inoperante e intelectualismo puro). Confessou, o p. Feytor Pinto, numa frase lapidar: «O Intelectualismo não resolve os problemas mas perde-se em discussões estéreis. Teoria e prática são os dois tempos do mesmo processo, dois momentos da mesma caminhada libertadora. É o jogo permanente entre a teoria e a prática que realiza a formação da consciência e a formação da experiência. Realiza a acção, acção responsável e comprometida» (o sublinhado é nosso). Verdadeiramente espantoso! São Marx, Engels e Lénine, colocados sem escrúpulos ao serviço das propostas reaccionárias mais traiçoeiras. O materialismo histórico a subscrever os interesses do capitalismo. A hipocrisia atinge o seu auge quando o padre FP, após ter reflectido nos moldes da teoria do método marxista-leninista, sem nunca a ter referido como tal, estabelece um quadro comparativo dos vários métodos em presença. Começa pela conclusão doutrinalmente óbvia: «Para eficacidade da acção há muitos caminhos, mas só a partilha evangélica consagra a originalidade cristã.» E a seguir, compara: «O método marxista parte da análise fortemente crítica das situações, activa o conflito de classes, de idades e de culturas, e procura a revolução generalizada como forma de caminho para a sociedade perfeita. Gera a instabilidade permanente. O método da acção social cristã recusa o conflito que contraria o amor, recusa o êxito que se fundamente no orgulho agressivo e generalizado e recusa a felicidade conquistada pela perda total de valores. O método cristão fundamenta-se na partilha fraterna: os primeiros cristãos "punham tudo em comum e, assim, não havia qualquer necessidade entre eles" (Actos, 2/42/47).» O cerrar beatífico dos olhos da razão é aqui bem claramente exemplificado. Ninguém, melhor que um padre, deveria saber que o conflito (a luta) não contraria o amor (a solidariedade entre os homens) mas que é parte integrante da vontade colectiva de justiça social. Nem que jamais a luta de classes assumiu, pelo lado dos oprimidos, características de orgulho agressivo ou de perda dos verdadeiros valores. É o cúmulo deste abuso da oratória por parte de alguém que, um pouco mais tarde, se iria alegremente envolver nos escândalos eclesiásticos das campanhas anti-aborto (recheadas de mentiras) e nos sectarismos estreitos das associações de «defesa da vida». O que o deveria proibir-se de invocar a igreja primitiva. A pujante economia de mercado desta igreja católica nada tem a ver, no presente, com a pobreza evangélica dos primitivos apóstolos. «O que lá vai, lá vai!»
«A prática cristã como acção social comprometida, herdada da antiga Acção Católica, continua válida» - acrescentou o p. Feytor Pinto - «o Método de Revisão da Vida tem três momentos: Ver, julgar e agir. E obedece a regras rigorosas».


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