Marchar pela paz e contra a Nato

Guerra não, Nato fora

Hugo Janeiro
Dezenas de milhar de pessoas manifestaram-se, domingo, frente à base de Rota em Puerto de Santa Maria, Cádiz, contra a agressão imperialista ao Iraque, e pelo desmantelamento das bases militares da Nato.
Marcada todos os anos para protestar contra a presença de bases militares da Nato em solo espanhol, a XVIII Marcha a Rota contou, mais uma vez, com uma forte participação do PCP, bem como com a presença de diversas delegações portuguesas de movimentos pela paz, recebidos com sensibilizados aplausos pela demonstração de solidariedade anti-imperialista.

O Parque de Calderón, local da concentração, foi-se enchendo com todos os que, mesmo fazendo muitos quilómetros de autocarro, quiseram dar corpo ao protesto.

Plena de bandeiras vermelhas, verdes e brancas da Andaluzia, a tricolor republicana e tantas outras, até se tornar numa amalgama de cores e vontades, a praça ribeirinha, que igual a tantas outras praças no mundo acolheu a recusa do negro quadro da guerra, era naquele momento a prova de que lutar vale sempre a pena, e é uma imensa alegria.

As razões todos os anos renovadas assumiram especial relevo pelo envolvimento dos governos de Portugal e Espanha na intervenção militar norte-americana e britânica no Iraque, primeiro pelo apoio incondicional aos interesses das potências imperialistas, depois pela realização da «Cimeira da Guerra» nos Açores, e, finalmente, pela cedência objectiva das respectivas bases às operações militares em curso.

As cerca de três centenas de manifestantes portugueses que se juntaram manhã cedo aos companheiros espanhóis em mais uma jornada de luta, quiseram demonstrar, com a sua mobilização para a Marcha, que a luta pela paz cresce e reforça-se na prática.

«Em nosso nome não»

As palavras de ordem entoadas ao longo do percurso, os panos e os cartazes das diversas organizações dinamizadoras da iniciativa, entre as quais se destacam o Partido Comunista Espanhol; Esquerda Unida; Os Verdes; a Alternativa Andaluz e o movimento sindical, demonstram que a luta pela paz e a solidariedade anti-imperialista com os povos de todo o mundo não pode ser desligada do justo combate à Nato e aos seus propósitos belicistas ao serviço do capital transnacional, e à presença e proliferação de bases desta organização nos mais variados países da Europa.

Nem o forte contingente policial que acompanhou a Marcha intimidou as vozes que, em uníssono e em diferentes línguas, gritavam «Nato não, bases fora»; «Em nosso nome não»; «Bush, Aznar, assassinos»; e «Não à guerra do petróleo», dando o mote para os discursos que tiveram lugar num palco instalado a poucos metros do complexo militar.

Ainda muitos milhares de pessoas (cerca de 60 mil, segundo dados da organização), percorriam os dez quilómetros que separam Puerto de Santa Maria da localidade Fuentebrava, onde fica a base de Rota, quando um elemento da plataforma responsável pela convocação da Marcha começou a falar das razões que estão na base do protesto que todos os anos ganha mais força.

O orador reforçou o repúdio do povo andaluz, partilhado por todos os que não sendo andaluzes também lá quiseram estar, pela presença de bases da Nato, estrutura que, a soldo dos EUA, funciona como factor de destabilização da paz mundial, financia e apoia a venda de armamento a ditadores torcionários, e pretende impor estes como única potência no mundo, ditando a paz e a guerra ao sabor dos seus interesses económicos.

O Manifesto conjunto das diversas organizações presentes, lido pelo poeta Luis Garcia Montero e a escritora Almudena Grandes, cuja tema central era, inevitavelmente, a guerra contra o Iraque, expressou a revolta sentida por todos, tendo sido posteriormente entregue a um representante militar americano por uma delegação do movimento.

Ali se repudia a «ditadura do dinheiro» e o «saque dos recursos petrolíferos», questões que estão na base da guerra, e o «pretexto usado pelos EUA e Grã-Bretanha de desarmar um ditador, que foi apoiado por estes até à 1.ª guerra do Golfo, em 1991».

Os «danos colaterais» que semeiam a morte entre a população civil do indefeso povo do Iraque, principal vítima deste conflito, foi outra das denúncias referidas pelos oradores.

Muitos povos, a mesma luta

A XVIII Marcha foi encerrada com as intervenções de representantes de Marrocos, Saara Ocidental, Bélgica e Portugal, sendo que outras delegações não puderam, por falta de tempo, apresentar as suas comunicações.

Os dois primeiros destacaram o carácter agressivo desta guerra, sublinhando que também nos seus países se faz sentir o jugo do imperialismo americano. Já o companheiro belga enfatizou a necessidade de multiplicar as acções de protesto conjuntas, e, através da informação alternativa contrapor a desinformação perpetrada pela maioria dos órgãos de comunicação com o intuito, cada vez mais difícil, de mascarar a realidade e apresentar uma «guerra limpa».

A intervenção de Gustavo Carneiro, da plataforma Almada pela Paz, reforçou os laços de solidariedade anti-imperialista que unem os povos ibéricos, e o repúdio pelo servilismo de Aznar e Durão Barroso na Cimeira das Lages, nos Açores.

As intervenções foram acolhidas com grande entusiasmo pelos manifestantes, expressando com vivacidade o seu liminar repúdio pela escalada da violência, e a vontade de prosseguir irmanados por um mesmo clamor: «Não à guerra, não à nato».

Ecos do protesto

A par da marcha à base militar de Rota, um pouco por toda a Espanha ecoaram os legítimos protestos populares.

Em Barcelona mais de 50 mil pessoas assistiram, apesar da chuva que se fez sentir, a um espectáculo de música, teatro e animação de rua com cerca de uma centena de artistas, organizado pela Plataforma Cultura e Espectáculos.

Antes de desfilarem pelas ruas da cidade, os manifestantes assistiram às actuações de Paco Ibañez, La Fura dels Baus, Lluís Llach, entre tantos outros que reiteraram a exigência de demissão de Aznar, e apontaram algumas razões de protesto contra a guerra criminosa, apelando à multiplicação dos mesmos um pouco por toda o país.

O mesmo cenário em Madrid, capital de Espanha, e nas cidades de Murcia, Saragoça e Albacete, em que os manifestantes marcharam vários quilómetros até às bases aéreas onde se encontram instalações militares americanas.

Os protestos sofreram durante a semana retaliação violenta por parte da polícia, tendo inclusive a Amnistia Internacional denunciado os factos, classificando-os como «abusivos, excessivos e desproporcionados».

Segundo avança a organização, em Espanha, pelo menos 178 pessoas ficaram feridas, algumas com gravidade, entre os quais idosos e crianças, depois das forças da ordem terem carregado sobre os manifestantes em diversas cidades, usando balas de borracha e fazendo detenções arbitrárias.

Segundo uma sondagem efectuada pelo Centro de Investigações Sociológicas, cerca de 91 % dos espanhóis estão contra a intervenção militar no Iraque, estando diversas organizações a realizar uma consulta pública conjunta em 250 cidades sobre a legitimidade do ataque.


Mais artigos de: Em Foco

Retratos do trabalho

Qual é a reacção dos trabalhadores à aprovação do pacote laboral, apesar da contestação sindical? Quais os problemas dos operários da Autoeuropa, a maior fábrica da indústria automóvel em Portugal? Receiam a sua deslocalização? E como é trabalhar num supermercado, num dos sectores com maior precariedade? Concluímos neste número os Retratos do Trabalho, sobre uma dezena de jovens trabalhadores portugueses.