Os falsificadores da História vão voltar à carga, mas ...

A vitória em Berlim foi do Exército Vermelho!

Manoel de Lencastre
A ministra britânica da Cultura, Tessa Jowell, já disse que o seu ministério estará na frente das comemorações do 60.º aniversário da invasão da Normandia (06.06.1944) e das vitoriosas operações aliadas até Berlim. Também a BBC anuncia, com igual objectivo, uma super-produção intitulada «D-Day até Berlim». Em duas palavras: vão invadir-nos com insinuações e propaganda falsificando a verdade, uma vez mais. Porque a derrota da Alemanha nazi resultou de quatro batalhas capitais: Moscovo, Estalinegrado, Kursk e, evidentemente, a da capital do «Reich». Todas vencidas pelo Exército Vermelho.
Uma segunda frente no teatro de operações na Europa vinha sendo exigida pela URSS desde 1941. Os dirigentes da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, que desejavam a assistir ao aniquilamento mútuo da Alemanha hitleriana e da pátria dos sovietes, negaram-se. Mas quando se afirmou a força gigantesca do Exército Vermelho, ameaçando «viajar» até ao extremo ocidental da Europa, os «leaders» imperialistas decidiram-se. A invasão da Normandia, comandada, operacionalmente, por Montgomery, começou às 06.30 da manhã. À noite, já muitas povoações tinham sido ocupadas. A resistência nazi não fora tão forte como se esperava. A 25 de Junho começou o ataque que levaria à captura de Caen. Nesse mesmo dia, o general Koenig era empossado no cargo de comandante das Forças Francesas do Interior enquanto reforços alemães, incluindo divisões «panzer», eram impossibilitados de avançar devido à acção heróica dos «Franc-Tireurs Partisans» e de outros destacamentos patrióticos dirigidos pelo PCF (1).
O tenente-general, Omar Bradley, dirigia o 12.º Grupo de exércitos americanos. O primeiro exército era comandado por Courtney Hodges e o 3.º por George Patton. Por seu lado, o general Montgomery comandava o 21.º Grupo de exércitos britânicos, formado pelo 2.º exército (George Dempsey) e pelo 1.º exército canadiano (Crerar). Estes preparavam, já, o ataque a Antuérpia enquanto os americanos, marchando mais para Sul, libertavam Le Mans, Chartres, Dreux. A 25 de Agosto, lutava-se nas ruas de Paris. Todo o povo da cidade, respondendo aos apelos da Resistência e das organizações do PCF, se atirava aos «boches» na ânsia de libertar a sua capital. A 3 de Setembro, forças mecanizadas britânicas entravam em Bruxelas. Nesse mesmo dia, Lyon era ocupada. A 4, caía Antuérpia. O orgulhoso 7.º exército nazi (von Kluge) tinha sido destruído na Falaise.
A rapidez do avanço em todo o Pas de Calais e na Bélgica sugeria a viabilidade de um assalto aliado imediato à região germânica do Ruhr. Mas a mais espectacular operação envolvendo tropas aerotransportadas (Arnhem) resultaria num desastre. O Grupo de exércitos de Montgomery entrou na zona do Reno a 10 de Março de 1945. Também os americanos convergiam para essa área e tinham conseguido posições, inesperadamente, a partir de Remagen (08.03.45). Para a ocupação do Ruhr e de toda a Alemanha Ocidental, teriam de ultrapassar o Reno. Dusseldorf, Colónia, Emmerich, cairiam, inevitavelmente. A derrota aliada em Arnhem (Setembro, 1944) e a contra-ofensiva de von Rundstet nas Ardenas (Inverno de 1944-45) obrigara a uma diversão na natureza das operações aliadas. Mas o êxito da passagem do Reno sem grandes baixas (23 e 24.03.45) abria o coração da Alemanha aos anglo-americanos. O cerco da área do Ruhr iniciar-se-ia a 3 de Abril. Nestes termos, os britânicos avançavam para Norte e aproximavam-se do Elba. Generais e almirantes nazis começavam a entregar-se. A sua esperança residia numa aliança de estilo golpe de teatro em que os anglo-americanos e os alemães se uniriam para fazer frente ao Exército Vermelho. Churchill parecia interessado no projecto. Os americanos, entretanto, tinham um problema para resolver - o do Japão.

(1) As FFI da região parisiense eram comandadas pelo heróico militante comunista, o coronel Henri Rol-Tanguy, falecido a 8 de Setembro de 2002.

A voz da História

Os americanos chegaram a Nuremberga a 16 de Abril. Mostravam-se impacientes. Eisenhower já dissera a Harry Truman que não se aventuraria em operações sem garantia de viabilidade. O problema do novo presidente dos Estados Unidos residia na certeza já adquirida de que Berlim seria tomada por Jukov e não pelos aliados. Por isso, Washington sugeria a Eisenhower as tais operações sem viabilidade. A verdade, é que três grandes frentes de exércitos soviéticos apareciam na região de Berlim. Tratava-se da 1.ª Frente Báltica (Rokossovski) que atacava pelo Norte, da 1.ª Frente Bielorussa (Jukov) que avançava pelo centro e da 1.ª Frente Ucraniana (Konev) que investia de Sul.
A 21 de Abril, unidades de tanques e tropas de choque ultrapassaram Berlim e dirigiram-se para a zona do Elba onde os anglo-americanos surgiriam. Jukov e Telegin dirigiram às tropas a seguinte mensagem: «Camaradas! Soldados, sargentos, oficiais e generais! A hora decisiva chegou. Na vossa frente, a capital do Reich, Berlim. É preciso tomá-la o mais rapidamente possível. O Conselho Militar da 1.ª Frente Bielorussa está certo de que os seus gloriosos soldados cumprirão a missão que lhes está confiada e farão desaparecer da face da Terra os obstáculos que os hitlerianos ainda entendam colocar-lhes no caminho. Para a frente, camaradas! Ao assalto a Berlim!»
Demos, agora, a palavra ao próprio Jukov:
«Berlim ainda tinha um dispositivo de defesa composto por mais de 400 000 homens. Mas conseguimos separá-lo em duas partes - uma, que permaneceu na cidade, e outra, que se situava na zona de Frankfurt-Huben (Frankfurt am Oder). O 3.º exército (Gorbatov) avançou ao longo do canal Oder-Spree. Apoiado pelo 1.º exército de Tanques (Guardas) chegou, rapidamente, à área de Konigswusterhausen. O rio Spree dividia Berlim em dois. À volta das respectivas margens, os edifícios ministeriais eram defendidos por guarnições especiais com efectivos de um batalhão cada. Abrimos fogo com 11 000 canhões, simultaneamente. Ao 5.º exército de Tropas de Choque, comandado por Berzarin, foi confiado o assalto aos blocos governamentais no centro da cidade incluindo a chancelaria imperial onde estava o quartel-general de Adolf Hitler. Reforçámos o contingente de Berzarin com o 11.º Corpo de Tanques (general Yuchtchuk).
«Nikolai Berzarin era um filho leal do Partido Comunista, um experiente e disciplinado comandante de tropas. A 25 de Abril, a luta continuava com incrível intensidade. As nossas tropas sofreram baixas, mas avançaram no centro de Berlim onde o Alto-Comando nazi se achava. Atacámos a Câmara berlinense. O edifício ficou destruído. Prisioneiros alemães confessavam que a capital do Reich só seria cedida aos americanos - nunca ao Exército Vermelho. A resistência que ofereciam, já não fazia sentido. As nossas tropas, porém, tomavam-lhes, um a um, os blocos de edifícios onde o poder se exercera. Essas tropas, comandadas pelos generais Kuznetsov, Berzarin, Bogdanov, Katukov e Chuikov, lutavam contra o coração da fera nazi. A luta pelo Reichstag deu lugar a considerável perda de sangue. Era a 30 de Abril de 1945. Tropas de Kuznetsov entraram no edifício defendido por 6 000 homens das unidades SS, com tanques, e paraquedistas. Mas só o ocuparam, parcialmente.
«Às 02.25 da tarde, outras forças conseguiram entrar no Reichstag. A guarnição inimiga não cedia, mesmo depois de termos conseguido a posse dos pisos inferiores. Às seis da tarde, mandei novos contingentes de tropas entrar no Reichstag. Eram unidades da 150.ª e da 171.ª divisões de atiradores que, por fim, começaram a ‘limpar’ o edifício piso a piso. Às 09.50, os sargentos Yegorov e Kantaria hasteavam a bandeira vermelha da V - I – T Ó – R I – A no telhado do histórico complexo.»