Uma luta com fôlego
Em pouco mais de dez anos, a Marinha Grande viu desaparecer emblemáticas empresas do sector da cristalaria, como a Fábrica-Escola Irmãos Stephens, a Ivima ou a Manuel Pereira Roldão. Os vidreiros, que eram então cerca de 3 500, não passam actualmente de mil. Hoje, novos ataques são feitos aos trabalhadores e aos seus direitos: A Jörgen Mortensen quer despedir 73 operários e continua sem ser encontrada qualquer solução para a Mandata, que se mantém fechada, com os seus 170 trabalhadores no desemprego. Sérgio Moiteiro e Etelvina Rosa, dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira, acusam o patronato de perseguir apenas o lucro imediato e exigem que o Governo tome as medidas indispensáveis para salvaguardar o futuro do sector, em que acreditam.
Se forem tomadas as medidas necessárias, o sector da cristalaria na Marinha Grande tem futuro. Esta é uma convicção profunda de Sérgio Moiteiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira (STIV). Para o sindicalista, a situação actual do sector, marcada por uma grande incerteza e instabilidade, deve-se à «visão míope» do patronato, que não soube aproveitar os milhões envolvidos no processo de recuperação do sector da cristalaria, iniciado em meados da década passada. Esta miopia pagaram-na outros, os trabalhadores, e com alto preço. Numa década, muitas foram as empresas que encerraram e os vidreiros que ficaram sem emprego. Mas foi muito o que conseguiram com a sua luta, que obrigou por diversas vezes o patronato a recuar.
Quando se inicia o processo de recuperação, em 1994, o patronato do sector preocupou-se apenas com o lucro imediato, acusa o sindicalista. Recebendo avultados subsídios, as empresas produziram muito acima do que o mercado conseguiria absorver. Rapidamente se inicia um ciclo negativo e as encomendas começam a decair. A resposta patronal foi a de sempre: encerramentos, despedimentos, precariedade. «Há uma impunidade muito grande do patronato», considera o presidente do STIV, que acusa o Governo de nada fazer para travar estas ilegalidades.
Mas não é apenas por proteger os patrões que os governos são alvos da crítica do sindicato. Apesar de todo o processo de recuperação do sector ter sido dirigido e dinamizado por institutos do Estado, como a Direcção-Geral da Indústria ou o IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento –, estes alhearam-se da sua condução. «Se tivesse havido controlo, as coisas não tinham descambado desta maneira», afirma Etelvina Rosa, que não aceita a falta de fiscalização da utilização dos dinheiros públicos.
Os exemplos do alheamento dos organismos do Estado são muitos. Sérgio Moiteiro lembra o caso da fusão da NovaIvima com a Neovidro. Tanto uma como outra empresa contaram com um forte apoio do Estado. A primeira com o objectivo de absorver os trabalhadores da «velha» Ivima, entretanto encerrada. A segunda no quadro de uma experiência-piloto de utilização de novas tecnologias na produção de vidro. A funcionar nas mesmas instalações, rapidamente as duas empresas passariam a pertencer ao mesmo patrão, a Atlantis. «Enquanto duraram os subsídios, a Atlantis deixou-as a trabalhar na Marinha Grande», recorda. Quando o dinheiro acabou, transferiram-nas para junto da sede da Atlantis, em Alcobaça. Dos 300 trabalhadores, só 70 transitaram para as novas instalações. E este é apenas um caso.
«Temos trabalhado no escuro»
Sem trabalhadores não há produção. E o Governo não investe nem apoia a formação de novos vidreiros. Para Etelvina Rosa, esse é também um dos graves problemas com que o sector se debate. «Corremos o risco de deixar de ter manipuladores de vidro», afirma a sindicalista. Antes, conta Etelvina, a formação era diária, com o vidreiro mais experiente a ensinar os outros nos últimos minutos do dia de trabalho. «Hoje, em nome da “santa” competitividade, já não se faz isto, todos os minutos são para produzir», acrescenta Sérgio Moiteiro. «Não há formação nenhuma», lamenta.
«Temos estado a trabalhar no escuro e os resultados estão à vista», destaca Sérgio Moiteiro. «É preciso sair desta situação em que a única preocupação dos empresários é ver como conseguem continuar a explorar os trabalhadores e a maximizar os seus lucros», denuncia o sindicalista. Para o presidente do STIV, é necessário definir claramente o que se pretende para o sector. «Penso que há mercado para o vidro da Marinha Grande, mas é necessário ter uma estratégia clara», defende. Com o contributo de diversas entidades, assegura, será possível «avançar para uma situação em que as perspectivas sejam efectivamente positivas».
A criação da marca MGlass foi um importante passo para a promoção do vidro da Marinha Grande, sobretudo no mercado internacional, para onde é canalizada cerca de 80 por cento da produção. Mas Sérgio Moiteiro considera-a insuficiente, se desfasada de outras medidas. «De nada vale ter uma marca de nome se deixarmos de ter indústria», alerta.
Faça-se o que se fizer, o tempo é um factor a ter em conta, afirma o dirigente sindical. A partir de Maio de 2004, os principais concorrentes internacionais do vidro marinhense – a Polónia e a República Checa – serão membros da União Europeia e a concorrência promete intensificar-se. «As nossas preocupações aumentam», destaca.
«O vidro na Marinha Grande tem de deixar de ser visto apenas na perspectiva económica», considera o sindicalista. «Há a dimensão social e sobretudo a emocional», destaca Sérgio Moiteiro. Com 255 anos de fixação na Marinha Grande, a indústria vidreira empregou sucessivas gerações de marinhenses, que lutaram para que esta indústria – que é também uma arte – prevalecesse até aos nossos dias.
Uma cidade moldada a plenos pulmões
Um vidreiro de pedra, manipulando vidro ardente, recebe quem entra por uma das principais vias de acesso à Marinha Grande. Noutras entradas, ruas ou praças da que ficou conhecida como a «cidade do vidro» , o dia a dia laborioso e combativo dos vidreiros é igualmente evocado. Numa praça central, um monumento lembra os operários que, em 18 de Janeiro de 1934, escreveram uma gloriosa página da história do movimento operário português: a greve insurreccional contra a fascização dos sindicatos, prevista no Estatuto do Trabalho Nacional salazarista, cópia da Carta del Lavoro de Mussolini.
A acção teve abrangência nacional. Em várias localidades operárias do País ocuparam-se fábricas, cortaram-se acessos e vias de comunicação. Na Marinha Grande, onde a greve assumiu as maiores proporções, os operários aderiram em massa e ocuparam a vila durante várias horas, numa tenaz resistência apenas vencida pela brutalidade da repressão do fascismo. Forças policiais acabariam por romper o cerco e muitos operários foram presos e torturados. Salazar tremeu, mas acabou por vencer desta vez. Ficou a semente, que germinaria vezes sem conta. Até dar o fruto desejado, em Abril de 1974.
Com o mesmo espírito de entrega e luta, os vidreiros marinhenses suportaram arbitrariedades patronais e violências governamentais e policiais. Assim foi durante toda a ditadura fascista e assim foi também em 1994 e 2001, quando a polícia se lançou furiosamente sobre trabalhadores da Manuel Pereira Roldão, da Mandata e da Jörgen Mortensen, que exigiam a manutenção dos seus postos de trabalho e a viabilização das suas empresas.
Hoje como desde há 255 anos, é no fôlego dos operários que reside a energia fundamental desta indústria. Actualmente, máquinas produzem vidro em muito maior quantidade, mas grande parte das peças necessita da arte dos homens. Daqueles que, a plenos pulmões, fizeram durante gerações não apenas vidro, mas a história de uma cidade.
História pouco transparente
Um ruído ensurdecedor, que se prolonga por alguns minutos, dá nota que a hora de almoço está próxima na Marinha Grande. À porta da Jörgen Mortensen, uma das mais importantes e reconhecidas fábricas de vidro do País, dezenas de operários concentram-se junto ao portão principal da empresa. Estes homens e mulheres, que tudo deram pelo seu posto de trabalho, fazem parte de um grupo de 73 trabalhadores que a empresa pretende despedir, não autorizando a sua entrada na fábrica.
«Não nos deixam entrar», dizia amargurado um destes operários «Trabalhei dezenas de anos nesta fábrica, conheço-a como a palma das minhas mãos. Agora não me deixam exercer a minha profissão, o meu sustento», dizia um outro trabalhador.
Raquel Pinheiro e Emídio Neto, dois dos visados por tal medida, denunciaram, em entrevista ao Avante!, as manobras chantagistas da administração da empresa, que procura dividir os trabalhadores para melhor os poder explorar.
«Trabalhámos ali de noite e de dia para agora nos dizerem que não têm um tostão para pagar os nossos salários. Sabemos que isso não é verdade porque, por exemplo, durante o Fundo de Garantia Salarial (quando a empresa está supostamente em dificuldade e a Segurança Social assegura os salários dos trabalhadores), a fábrica vendeu bastante vidro», recordou Raquel Pinheiro. Acabado o Fundo de Garantia, a empresa recomeçou com os despedimentos.
Emídio Neto acusou, por outro lado, a administração da Jörgen Mortensen de incompetência, ao longo dos últimos anos. «O nosso patrão comprou três fornos de pequenas dimensões no estrangeiro, por volta do ano 2000, acontece que esses fornos nem um quilo de vidro vieram a dar. Não satisfeito com isso, encomendou um outro forno, no principio do ano 2001, este de grandes dimensões, mas que só funcionou cerca de dois, três meses», relatou.
Nessa altura, segundo Emídio Neto, terão saído cerca de 80 trabalhadores, «uns porque rescindiram, os outros, com idades compreendidas entre 55 anos e os 56 anos, foram empurrados, literalmente, para fora da empresa com uma mão à frente e outra atrás», informou, sublinhando que a intenção de hoje é a mesma de outros anos: «vai-te embora, se aceitares as nossas condições, tens aqui um papel para o Fundo de Desemprego e daqui a não sei quantos anos levas uma indemnização», denunciou.
«Teoricamente é uma rescisão, mas nós não vamos aceitar. De resto, vamos esperar para ver o que isto vai dar», concluiu Raquel Pinheiro.
À procura de um sonho
A Mandata está desactivada desde Outubro de 2002, deixando cerca de 170 trabalhadores no desemprego. Erguida graças à luta dos operários da antiga Manuel Pereira Roldão e do Sindicato dos Trabalhadores da Industria Vidreira, em 1994, esta unidade fabril baseou-se num sonho que depressa de dissipou: «Voltar a fazer cristal na Marinha Grande».
«Com a nossa luta conseguimos que a empresa não fechasse e no espaço de um ano encontrámos um empresário que construiu uma nova fábrica», afirmaram, em declarações ao Avante!, Mariete Mota e José Bonita, operários da Mandata.
António Magalhães, antigo dono da Atlantis, foi o homem que deu esperanças aos vidreiros. O problema, segundo os antigos trabalhadores, é que ele já não tinha capacidade de gestão, graças aos seus 82 anos, e pôs à frente da empresa o seu filho, «empresário igualmente conhecido, mas que não tinha as mesmas capacidades do seu pai».
Em 1998 a fábrica entrou em funcionamento com 140 trabalhadores. No prazo de um ano eram quase 280. O sucesso dos trabalhadores e da empresa parecia estar à vista, não fosse a ambição do cristal. «O cristal foi um sonho para além das possibilidades da empresa. Compraram um forno de igual capacidade ao de vidro para fabricar cristal, encurralando os fornos uns aos pé dos outros, o que não dava condições de trabalho aos próprios vidreiros», lamentou Mariete Mota. «Depois compraram uma máquina automática de fazer cristal, o que deu um enorme prejuízo à fábrica, e que andou ali, enquanto durou, a “vomitar” copos, que custaram um balúrdio e que não se venderam», continuou.
Um ano depois a empresa faliu. No entanto, os vidreiros arranjaram uma solução que passava por arranjar parceiros a nível de capital de risco, entre os quais o IAPMEI, o IPE e a Caixa Geral de Depósitos. «Em Maio de 2001 não havia um chavo para pagar a ninguém. Os trabalhadores, juntamente com o sindicato, tentaram que as capitais de risco tomassem algumas medidas, nomeadamente o encerramento da máquina de cristal, visto que os produtos não tinham escoamento», o que não aconteceu, explicou Mariete Mota.
Em Outubro de 2002, os vidreiros não aguentavam mais sem receber e entraram em greve. «Quando os trabalhadores paralisaram, a fábrica fecha, porque a administração queria que trabalhássemos de borla», concluiu Mariete Mota, reafirmando que a «luta continua».
Quando se inicia o processo de recuperação, em 1994, o patronato do sector preocupou-se apenas com o lucro imediato, acusa o sindicalista. Recebendo avultados subsídios, as empresas produziram muito acima do que o mercado conseguiria absorver. Rapidamente se inicia um ciclo negativo e as encomendas começam a decair. A resposta patronal foi a de sempre: encerramentos, despedimentos, precariedade. «Há uma impunidade muito grande do patronato», considera o presidente do STIV, que acusa o Governo de nada fazer para travar estas ilegalidades.
Mas não é apenas por proteger os patrões que os governos são alvos da crítica do sindicato. Apesar de todo o processo de recuperação do sector ter sido dirigido e dinamizado por institutos do Estado, como a Direcção-Geral da Indústria ou o IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e ao Investimento –, estes alhearam-se da sua condução. «Se tivesse havido controlo, as coisas não tinham descambado desta maneira», afirma Etelvina Rosa, que não aceita a falta de fiscalização da utilização dos dinheiros públicos.
Os exemplos do alheamento dos organismos do Estado são muitos. Sérgio Moiteiro lembra o caso da fusão da NovaIvima com a Neovidro. Tanto uma como outra empresa contaram com um forte apoio do Estado. A primeira com o objectivo de absorver os trabalhadores da «velha» Ivima, entretanto encerrada. A segunda no quadro de uma experiência-piloto de utilização de novas tecnologias na produção de vidro. A funcionar nas mesmas instalações, rapidamente as duas empresas passariam a pertencer ao mesmo patrão, a Atlantis. «Enquanto duraram os subsídios, a Atlantis deixou-as a trabalhar na Marinha Grande», recorda. Quando o dinheiro acabou, transferiram-nas para junto da sede da Atlantis, em Alcobaça. Dos 300 trabalhadores, só 70 transitaram para as novas instalações. E este é apenas um caso.
«Temos trabalhado no escuro»
Sem trabalhadores não há produção. E o Governo não investe nem apoia a formação de novos vidreiros. Para Etelvina Rosa, esse é também um dos graves problemas com que o sector se debate. «Corremos o risco de deixar de ter manipuladores de vidro», afirma a sindicalista. Antes, conta Etelvina, a formação era diária, com o vidreiro mais experiente a ensinar os outros nos últimos minutos do dia de trabalho. «Hoje, em nome da “santa” competitividade, já não se faz isto, todos os minutos são para produzir», acrescenta Sérgio Moiteiro. «Não há formação nenhuma», lamenta.
«Temos estado a trabalhar no escuro e os resultados estão à vista», destaca Sérgio Moiteiro. «É preciso sair desta situação em que a única preocupação dos empresários é ver como conseguem continuar a explorar os trabalhadores e a maximizar os seus lucros», denuncia o sindicalista. Para o presidente do STIV, é necessário definir claramente o que se pretende para o sector. «Penso que há mercado para o vidro da Marinha Grande, mas é necessário ter uma estratégia clara», defende. Com o contributo de diversas entidades, assegura, será possível «avançar para uma situação em que as perspectivas sejam efectivamente positivas».
A criação da marca MGlass foi um importante passo para a promoção do vidro da Marinha Grande, sobretudo no mercado internacional, para onde é canalizada cerca de 80 por cento da produção. Mas Sérgio Moiteiro considera-a insuficiente, se desfasada de outras medidas. «De nada vale ter uma marca de nome se deixarmos de ter indústria», alerta.
Faça-se o que se fizer, o tempo é um factor a ter em conta, afirma o dirigente sindical. A partir de Maio de 2004, os principais concorrentes internacionais do vidro marinhense – a Polónia e a República Checa – serão membros da União Europeia e a concorrência promete intensificar-se. «As nossas preocupações aumentam», destaca.
«O vidro na Marinha Grande tem de deixar de ser visto apenas na perspectiva económica», considera o sindicalista. «Há a dimensão social e sobretudo a emocional», destaca Sérgio Moiteiro. Com 255 anos de fixação na Marinha Grande, a indústria vidreira empregou sucessivas gerações de marinhenses, que lutaram para que esta indústria – que é também uma arte – prevalecesse até aos nossos dias.
Uma cidade moldada a plenos pulmões
Um vidreiro de pedra, manipulando vidro ardente, recebe quem entra por uma das principais vias de acesso à Marinha Grande. Noutras entradas, ruas ou praças da que ficou conhecida como a «cidade do vidro» , o dia a dia laborioso e combativo dos vidreiros é igualmente evocado. Numa praça central, um monumento lembra os operários que, em 18 de Janeiro de 1934, escreveram uma gloriosa página da história do movimento operário português: a greve insurreccional contra a fascização dos sindicatos, prevista no Estatuto do Trabalho Nacional salazarista, cópia da Carta del Lavoro de Mussolini.
A acção teve abrangência nacional. Em várias localidades operárias do País ocuparam-se fábricas, cortaram-se acessos e vias de comunicação. Na Marinha Grande, onde a greve assumiu as maiores proporções, os operários aderiram em massa e ocuparam a vila durante várias horas, numa tenaz resistência apenas vencida pela brutalidade da repressão do fascismo. Forças policiais acabariam por romper o cerco e muitos operários foram presos e torturados. Salazar tremeu, mas acabou por vencer desta vez. Ficou a semente, que germinaria vezes sem conta. Até dar o fruto desejado, em Abril de 1974.
Com o mesmo espírito de entrega e luta, os vidreiros marinhenses suportaram arbitrariedades patronais e violências governamentais e policiais. Assim foi durante toda a ditadura fascista e assim foi também em 1994 e 2001, quando a polícia se lançou furiosamente sobre trabalhadores da Manuel Pereira Roldão, da Mandata e da Jörgen Mortensen, que exigiam a manutenção dos seus postos de trabalho e a viabilização das suas empresas.
Hoje como desde há 255 anos, é no fôlego dos operários que reside a energia fundamental desta indústria. Actualmente, máquinas produzem vidro em muito maior quantidade, mas grande parte das peças necessita da arte dos homens. Daqueles que, a plenos pulmões, fizeram durante gerações não apenas vidro, mas a história de uma cidade.
História pouco transparente
Um ruído ensurdecedor, que se prolonga por alguns minutos, dá nota que a hora de almoço está próxima na Marinha Grande. À porta da Jörgen Mortensen, uma das mais importantes e reconhecidas fábricas de vidro do País, dezenas de operários concentram-se junto ao portão principal da empresa. Estes homens e mulheres, que tudo deram pelo seu posto de trabalho, fazem parte de um grupo de 73 trabalhadores que a empresa pretende despedir, não autorizando a sua entrada na fábrica.
«Não nos deixam entrar», dizia amargurado um destes operários «Trabalhei dezenas de anos nesta fábrica, conheço-a como a palma das minhas mãos. Agora não me deixam exercer a minha profissão, o meu sustento», dizia um outro trabalhador.
Raquel Pinheiro e Emídio Neto, dois dos visados por tal medida, denunciaram, em entrevista ao Avante!, as manobras chantagistas da administração da empresa, que procura dividir os trabalhadores para melhor os poder explorar.
«Trabalhámos ali de noite e de dia para agora nos dizerem que não têm um tostão para pagar os nossos salários. Sabemos que isso não é verdade porque, por exemplo, durante o Fundo de Garantia Salarial (quando a empresa está supostamente em dificuldade e a Segurança Social assegura os salários dos trabalhadores), a fábrica vendeu bastante vidro», recordou Raquel Pinheiro. Acabado o Fundo de Garantia, a empresa recomeçou com os despedimentos.
Emídio Neto acusou, por outro lado, a administração da Jörgen Mortensen de incompetência, ao longo dos últimos anos. «O nosso patrão comprou três fornos de pequenas dimensões no estrangeiro, por volta do ano 2000, acontece que esses fornos nem um quilo de vidro vieram a dar. Não satisfeito com isso, encomendou um outro forno, no principio do ano 2001, este de grandes dimensões, mas que só funcionou cerca de dois, três meses», relatou.
Nessa altura, segundo Emídio Neto, terão saído cerca de 80 trabalhadores, «uns porque rescindiram, os outros, com idades compreendidas entre 55 anos e os 56 anos, foram empurrados, literalmente, para fora da empresa com uma mão à frente e outra atrás», informou, sublinhando que a intenção de hoje é a mesma de outros anos: «vai-te embora, se aceitares as nossas condições, tens aqui um papel para o Fundo de Desemprego e daqui a não sei quantos anos levas uma indemnização», denunciou.
«Teoricamente é uma rescisão, mas nós não vamos aceitar. De resto, vamos esperar para ver o que isto vai dar», concluiu Raquel Pinheiro.
À procura de um sonho
A Mandata está desactivada desde Outubro de 2002, deixando cerca de 170 trabalhadores no desemprego. Erguida graças à luta dos operários da antiga Manuel Pereira Roldão e do Sindicato dos Trabalhadores da Industria Vidreira, em 1994, esta unidade fabril baseou-se num sonho que depressa de dissipou: «Voltar a fazer cristal na Marinha Grande».
«Com a nossa luta conseguimos que a empresa não fechasse e no espaço de um ano encontrámos um empresário que construiu uma nova fábrica», afirmaram, em declarações ao Avante!, Mariete Mota e José Bonita, operários da Mandata.
António Magalhães, antigo dono da Atlantis, foi o homem que deu esperanças aos vidreiros. O problema, segundo os antigos trabalhadores, é que ele já não tinha capacidade de gestão, graças aos seus 82 anos, e pôs à frente da empresa o seu filho, «empresário igualmente conhecido, mas que não tinha as mesmas capacidades do seu pai».
Em 1998 a fábrica entrou em funcionamento com 140 trabalhadores. No prazo de um ano eram quase 280. O sucesso dos trabalhadores e da empresa parecia estar à vista, não fosse a ambição do cristal. «O cristal foi um sonho para além das possibilidades da empresa. Compraram um forno de igual capacidade ao de vidro para fabricar cristal, encurralando os fornos uns aos pé dos outros, o que não dava condições de trabalho aos próprios vidreiros», lamentou Mariete Mota. «Depois compraram uma máquina automática de fazer cristal, o que deu um enorme prejuízo à fábrica, e que andou ali, enquanto durou, a “vomitar” copos, que custaram um balúrdio e que não se venderam», continuou.
Um ano depois a empresa faliu. No entanto, os vidreiros arranjaram uma solução que passava por arranjar parceiros a nível de capital de risco, entre os quais o IAPMEI, o IPE e a Caixa Geral de Depósitos. «Em Maio de 2001 não havia um chavo para pagar a ninguém. Os trabalhadores, juntamente com o sindicato, tentaram que as capitais de risco tomassem algumas medidas, nomeadamente o encerramento da máquina de cristal, visto que os produtos não tinham escoamento», o que não aconteceu, explicou Mariete Mota.
Em Outubro de 2002, os vidreiros não aguentavam mais sem receber e entraram em greve. «Quando os trabalhadores paralisaram, a fábrica fecha, porque a administração queria que trabalhássemos de borla», concluiu Mariete Mota, reafirmando que a «luta continua».