O 11 de Setembro dos povos
«No 11 de Setembro dos povos latino-americanos, Allende vive!» Esta uma das mensagens do Seminário promovido de 7 a 11 de Setembro, em Santiago do Chile, pela Revista América Livre, Ical (Instituto de Ciências Alejandro Lipschutz) - Chile, Cepis (Cento de Educação Popular Instituto Sedes Sapentiaie) - Brasil, e Centro Martin Luther King Jr.- Cuba, por ocasião do 30.º aniversário da morte de Salvador Allende.
Decorreram 30 anos do golpe de estado que derrubou o governo da Unidade Popular, presidido por Salvador Allende. A ditadura de Pinochet, apoiada e financiada pelo governo dos Estados Unidos da América, iniciou uma época de contra-revoluções na América Latina, que procurou instalar regimes neoliberais em todo o mundo ocidental. Trinta anos depois, o governo norte-americano lançou uma nova guerra de conquista do mundo. A genocida invasão do Iraque antecipa novas agressões contra a humanidade.
No Chile e na América Latina, passados 30 anos do derrube do governo democrático de Salvador Allende, era imperioso fazer-se um debate, sobre os desafios do mundo actual, em que pudessem participar conjuntamente os movimentos populares, os intelectuais, os militantes sociais e políticos, centrado na análise das características do imperialismo, nos conteúdos e formas como ele exerce o seu domínio, e como se manifestam as suas políticas genocidas, quais as raízes económicas e ideológicas em que se baseia, e como se poderá e deverá actuar para enfrentar a sua agressividade.
Daí a iniciativa de promover o Seminário «As alternativas populares e a perspectiva socialista na América Latina», aprofundando o debate, no momento em que os movimentos populares começam a recuperar a iniciativa, sobre as tentativas que fazem para construir alternativas populares, os caminhos criativos do poder popular, e a perspectiva socialista como projecto e como opção.
Consciente da necessidade de avaliar as experiências realizadas durante o século XX, como a Revolução Cubana, a Unidade Popular no Chile, a Revolução Sandinista na Nicarágua e as experiências revolucionárias no Continente, o Seminário colocou como objectivos, entre outros aspectos:
- Que o 11 de Setembro deste ano seja o 11 de Setembro dos povos.
- Que o resgate da memória do processo da Unidade Popular e do exemplo de Salvador Allende, contribua para recuperar a esperança na possibilidade de formar governos alternativos ao neoliberalismo, fortalecendo a perspectiva socialista na América Latina.
- Avançar com a coordenação internacional da luta antineoliberal, anticapitalista, pelo socialismo, contra as guerras e as invasões do imperialismo em todo o planeta.
O Seminário
O seminário funcionou em várias mesas simultaneamente com oradores convidados que fizeram a introdução dos respectivos temas, seguindo-se perguntas e debates de aprofundamento e testemunhos.
Os principais temas abordados foram:
- Unidade Popular (UP): Transformações da Estrutura e da Redistribuição dos Rendimentos; Os Cristãos na Luta pelo Socialismo; Direitos Humanos antes e depois do golpe de estado; A educação e a cultura no Governo Popular.
- A verdade sobre a UP e o Golpe de Estado.
- A política imperialista. A ALCA e a militarização do mundo. Do Plano Condor ao Plano Colômbia.
- A unidade dos povos contra a estratégia imperialista, militarista, destabilizadora e golpista dos Estados Unidos.
- Soberania sobre os Recursos Naturais. O Cobre.
- Forças Armadas, Democracia, e Soberania Nacional.
- A UP e a Reforma Universitária
- A UP, Impacto e Solidariedade Internacional.
- As alternativas populares na América Latina, ontem e hoje, a Esquerda e as Instituições, Reforma e Revolução, ontem e hoje.
- Situação do movimento sindical, antes e depois do golpe.
- Reforma Agrária e Soberania Alimentar.
- Movimentos GLBTT e Processos Revolucionária na América Latina.
- Construindo um novo sujeito histórico.
- Políticas da Esquerda Latino-americana.
- UP e a experiência do Poder Popular.
- O significado da UP na América Latina.
- A perspectiva socialista na América Latina; Os movimentos sociais e os partidos políticos na construção das alternativas populares; Sujeito histórico, alianças, programas, estratégias.
- Testemunhos sobre o exemplo de Allende na América Latina.
Participaram nos debates e apresentaram testemunho dezenas de democratas chilenos das mais variadas opções ideológicas e um número significativo de estrangeiros de toda a América Latina, e dos Estados Unidos, Alemanha, França, Itália e Portugal.
Aprender com a luz e as sombras
Ao convocar o Seminário, o Comité organizador divulgou um documento relembrando os acontecimentos de 11 de Setembro de 1973 que mergulharam o Chile nas trevas da ditadura fascista de Pinochet, e alertando para a necessidade de aprender com o passado para abrir caminho a um mundo melhor.
O texto, que pela sua importância a seguir se transcreve na íntegra, é um apelo à mobilização para a luta por um futuro digno de todos os povos.
«No próximo 11 de Setembro cumprir-se-ão 30 anos do Acto de Deposição do Presidente Salvador Allende, em que ele ofereceu a vida no traiçoeiro assalto a La Moneda. A sua figura histórica cresce com o tempo aos olhos dos povos do mundo. Recordar a sua contribuição para a criação de uma sociedade mais justa baseada no reconhecimento da dignidade dos trabalhadores adquire hoje um significado de compromisso com o futuro.
Não nos inspira a nostalgia do passado, mas sim a recuperação da herança de Allende e do movimento popular que encabeçou para impulsionar a realização de uma tarefa ainda acabada. O seu desafio aos golpistas proclamando que «se abram as grandes alamedas» ressoa cada vez mais forte nos nossos ouvidos.
O projecto de Allende, de profundas mudanças estruturais, que representava o anseio amplamente repartido por sectores de diversas inspirações ideológicas e políticas, foi abruptamente interrompido, após mil dias do seu início, pelo golpe de Pinochet, com o suporte da direita e o apoio de Nixon, Kissinger e os seus seguidores, ou seja, pelos mesmos poderes que cometem o genocídio e submetem aos piores horrores o povo do Iraque e ameaçam o mundo inteiro.
Dezassete anos de ditadura e terror de Estado foram o resultado do levantamento militar que conduziu à morte o Presidente Allende e muitos dirigentes populares. Com impunidade torturaram, fizeram desaparecer e executaram milhares de pessoas e cometeram crimes e violações dos Direitos Humanos como não se conheceu antes na história do Chile.
O Movimento Popular construiu uma Resistência crescente e diversificada que pôs termo à ditadura, mas que desembocou no plebiscito de 1988, num processo de democratização pautada porque, entre outras falhas, mantém o essencial da Constituição da ditadura e o sistema antidemocrático eleitoral impede uma representação proporcional no Parlamento.
A 30 anos do Golpe, não se conseguiu sancionar com a correspondente justiça os crimes da ditadura, porque em boa verdade, continuou a aplicar-se a doutrina económica neoliberal, com as suas consequências de pobreza para milhões de compatriotas.
Torna-se pois necessário, recuperar o sentido histórico e os valores políticos e morais que inspiraram Allende e o seu Governo Popular. Levar ao conhecimento das novas gerações o que foi este processo revolucionário é uma obrigação que temos que levar a cabo, uma vez que sem ele dificilmente os jovens poderão construir as suas utopias. Aprender com as luzes e as sombras daquele processo, abrirá caminho a esse outro mundo possível que milhões de seres humanos procuram por esse mundo fora.
Com o objectivo de criar um espaço de reflexão sobre os múltiplos aspectos que resultaram do histórico Governo Popular e do Golpe de Estado que amordaçou a democracia, propomos fazer nascer um Comité Nacional de Iniciativas que inclua todos aqueles que se sentem representados por essa inesquecível experiência encabeçada por Salvador Allende, uma herança que nos deve inspirar para construir o futuro do nosso Chile, recuperar os danos produzidos na consciência dos chilenos, resgatar o papel de vanguarda assumida pelos artistas e intelectuais, e realçar o vigor da luta por uma cultura democrática, participativa e transformadora.
Pensamos que as comemorações devem ter lugar ao longo do ano, em momentos e datas relacionadas com acontecimentos relevantes do processo vivido. Na segunda semana de Setembro, preparamos, junto com as organizações do país e do exterior, para realizar jornadas com repercussão internacional, tanto pelos temas em debate como pela integração de organismos e personalidades de diversos países, que anunciaram já a sua presença em seminários, em actividades político-culturais de massas, de direitos humanos e outras, todas elas expressões do que foi o Governo de Allende. Em 11 de Setembro de 2003, uma grandiosa marcha deveria partir desde La Moneda, o lugar onde Salvador ofereceu a sua vida.
O convite é dirigido aos chilenos e aos cidadãos de todo o mundo para a recuperação dessas experiências na construção de um futuro digno para os nossos povos, e que será o melhor modo de prestar homenagem a Salvador Allende e aos milhares que com ele lutaram e muitos outros que como ele, entregaram a vida em defesa dos interesses do povo.»
Assinaram este apelo: Assembleia Nacional dos Direitos Humanos, Sociedade de Escritores do Chile, Federação de Estudantes do Chile, Humberto Martones e vários outros ministros, senadores e deputados, embaixadores da Unidade Popular e muitos outras personalidades que tiveram cargos de relevo político-administrativo durante o Governo da Unidade Popular.
No Chile e na América Latina, passados 30 anos do derrube do governo democrático de Salvador Allende, era imperioso fazer-se um debate, sobre os desafios do mundo actual, em que pudessem participar conjuntamente os movimentos populares, os intelectuais, os militantes sociais e políticos, centrado na análise das características do imperialismo, nos conteúdos e formas como ele exerce o seu domínio, e como se manifestam as suas políticas genocidas, quais as raízes económicas e ideológicas em que se baseia, e como se poderá e deverá actuar para enfrentar a sua agressividade.
Daí a iniciativa de promover o Seminário «As alternativas populares e a perspectiva socialista na América Latina», aprofundando o debate, no momento em que os movimentos populares começam a recuperar a iniciativa, sobre as tentativas que fazem para construir alternativas populares, os caminhos criativos do poder popular, e a perspectiva socialista como projecto e como opção.
Consciente da necessidade de avaliar as experiências realizadas durante o século XX, como a Revolução Cubana, a Unidade Popular no Chile, a Revolução Sandinista na Nicarágua e as experiências revolucionárias no Continente, o Seminário colocou como objectivos, entre outros aspectos:
- Que o 11 de Setembro deste ano seja o 11 de Setembro dos povos.
- Que o resgate da memória do processo da Unidade Popular e do exemplo de Salvador Allende, contribua para recuperar a esperança na possibilidade de formar governos alternativos ao neoliberalismo, fortalecendo a perspectiva socialista na América Latina.
- Avançar com a coordenação internacional da luta antineoliberal, anticapitalista, pelo socialismo, contra as guerras e as invasões do imperialismo em todo o planeta.
O Seminário
O seminário funcionou em várias mesas simultaneamente com oradores convidados que fizeram a introdução dos respectivos temas, seguindo-se perguntas e debates de aprofundamento e testemunhos.
Os principais temas abordados foram:
- Unidade Popular (UP): Transformações da Estrutura e da Redistribuição dos Rendimentos; Os Cristãos na Luta pelo Socialismo; Direitos Humanos antes e depois do golpe de estado; A educação e a cultura no Governo Popular.
- A verdade sobre a UP e o Golpe de Estado.
- A política imperialista. A ALCA e a militarização do mundo. Do Plano Condor ao Plano Colômbia.
- A unidade dos povos contra a estratégia imperialista, militarista, destabilizadora e golpista dos Estados Unidos.
- Soberania sobre os Recursos Naturais. O Cobre.
- Forças Armadas, Democracia, e Soberania Nacional.
- A UP e a Reforma Universitária
- A UP, Impacto e Solidariedade Internacional.
- As alternativas populares na América Latina, ontem e hoje, a Esquerda e as Instituições, Reforma e Revolução, ontem e hoje.
- Situação do movimento sindical, antes e depois do golpe.
- Reforma Agrária e Soberania Alimentar.
- Movimentos GLBTT e Processos Revolucionária na América Latina.
- Construindo um novo sujeito histórico.
- Políticas da Esquerda Latino-americana.
- UP e a experiência do Poder Popular.
- O significado da UP na América Latina.
- A perspectiva socialista na América Latina; Os movimentos sociais e os partidos políticos na construção das alternativas populares; Sujeito histórico, alianças, programas, estratégias.
- Testemunhos sobre o exemplo de Allende na América Latina.
Participaram nos debates e apresentaram testemunho dezenas de democratas chilenos das mais variadas opções ideológicas e um número significativo de estrangeiros de toda a América Latina, e dos Estados Unidos, Alemanha, França, Itália e Portugal.
Aprender com a luz e as sombras
Ao convocar o Seminário, o Comité organizador divulgou um documento relembrando os acontecimentos de 11 de Setembro de 1973 que mergulharam o Chile nas trevas da ditadura fascista de Pinochet, e alertando para a necessidade de aprender com o passado para abrir caminho a um mundo melhor.
O texto, que pela sua importância a seguir se transcreve na íntegra, é um apelo à mobilização para a luta por um futuro digno de todos os povos.
«No próximo 11 de Setembro cumprir-se-ão 30 anos do Acto de Deposição do Presidente Salvador Allende, em que ele ofereceu a vida no traiçoeiro assalto a La Moneda. A sua figura histórica cresce com o tempo aos olhos dos povos do mundo. Recordar a sua contribuição para a criação de uma sociedade mais justa baseada no reconhecimento da dignidade dos trabalhadores adquire hoje um significado de compromisso com o futuro.
Não nos inspira a nostalgia do passado, mas sim a recuperação da herança de Allende e do movimento popular que encabeçou para impulsionar a realização de uma tarefa ainda acabada. O seu desafio aos golpistas proclamando que «se abram as grandes alamedas» ressoa cada vez mais forte nos nossos ouvidos.
O projecto de Allende, de profundas mudanças estruturais, que representava o anseio amplamente repartido por sectores de diversas inspirações ideológicas e políticas, foi abruptamente interrompido, após mil dias do seu início, pelo golpe de Pinochet, com o suporte da direita e o apoio de Nixon, Kissinger e os seus seguidores, ou seja, pelos mesmos poderes que cometem o genocídio e submetem aos piores horrores o povo do Iraque e ameaçam o mundo inteiro.
Dezassete anos de ditadura e terror de Estado foram o resultado do levantamento militar que conduziu à morte o Presidente Allende e muitos dirigentes populares. Com impunidade torturaram, fizeram desaparecer e executaram milhares de pessoas e cometeram crimes e violações dos Direitos Humanos como não se conheceu antes na história do Chile.
O Movimento Popular construiu uma Resistência crescente e diversificada que pôs termo à ditadura, mas que desembocou no plebiscito de 1988, num processo de democratização pautada porque, entre outras falhas, mantém o essencial da Constituição da ditadura e o sistema antidemocrático eleitoral impede uma representação proporcional no Parlamento.
A 30 anos do Golpe, não se conseguiu sancionar com a correspondente justiça os crimes da ditadura, porque em boa verdade, continuou a aplicar-se a doutrina económica neoliberal, com as suas consequências de pobreza para milhões de compatriotas.
Torna-se pois necessário, recuperar o sentido histórico e os valores políticos e morais que inspiraram Allende e o seu Governo Popular. Levar ao conhecimento das novas gerações o que foi este processo revolucionário é uma obrigação que temos que levar a cabo, uma vez que sem ele dificilmente os jovens poderão construir as suas utopias. Aprender com as luzes e as sombras daquele processo, abrirá caminho a esse outro mundo possível que milhões de seres humanos procuram por esse mundo fora.
Com o objectivo de criar um espaço de reflexão sobre os múltiplos aspectos que resultaram do histórico Governo Popular e do Golpe de Estado que amordaçou a democracia, propomos fazer nascer um Comité Nacional de Iniciativas que inclua todos aqueles que se sentem representados por essa inesquecível experiência encabeçada por Salvador Allende, uma herança que nos deve inspirar para construir o futuro do nosso Chile, recuperar os danos produzidos na consciência dos chilenos, resgatar o papel de vanguarda assumida pelos artistas e intelectuais, e realçar o vigor da luta por uma cultura democrática, participativa e transformadora.
Pensamos que as comemorações devem ter lugar ao longo do ano, em momentos e datas relacionadas com acontecimentos relevantes do processo vivido. Na segunda semana de Setembro, preparamos, junto com as organizações do país e do exterior, para realizar jornadas com repercussão internacional, tanto pelos temas em debate como pela integração de organismos e personalidades de diversos países, que anunciaram já a sua presença em seminários, em actividades político-culturais de massas, de direitos humanos e outras, todas elas expressões do que foi o Governo de Allende. Em 11 de Setembro de 2003, uma grandiosa marcha deveria partir desde La Moneda, o lugar onde Salvador ofereceu a sua vida.
O convite é dirigido aos chilenos e aos cidadãos de todo o mundo para a recuperação dessas experiências na construção de um futuro digno para os nossos povos, e que será o melhor modo de prestar homenagem a Salvador Allende e aos milhares que com ele lutaram e muitos outros que como ele, entregaram a vida em defesa dos interesses do povo.»
Assinaram este apelo: Assembleia Nacional dos Direitos Humanos, Sociedade de Escritores do Chile, Federação de Estudantes do Chile, Humberto Martones e vários outros ministros, senadores e deputados, embaixadores da Unidade Popular e muitos outras personalidades que tiveram cargos de relevo político-administrativo durante o Governo da Unidade Popular.