Mutismo da Igreja e Luta de Classes

Jorge Messias
Da igreja institucional portuguesa talvez se venha futuramente a escrever alguma coisa sobre o ritmo alucinante com que o sagrado deu lugar ao profano e ao oportunismo mais mercantil.Trinta ou quarenta anos atrás, os padres ocupavam-se da sacralização do político e da absolvição dos crimes das forças no poder. Era essa a noção que tinham do seu desempenho histórico. Hoje porém, são agentes activos do mercado e batem-se taco-a-taco com o poder, simultaneamente aliado e concorrente, vendendo caro os seus favores. Pegamos nos jornais e apetece perguntar porque andam as chefias católicas persistentemente envolvidas nos escândalos da «Moderna», da Casa Pia ou da Cruz Vermelha, nos apoios a Fátima Felgueiras - a fugitiva - nas querelas judiciais das misericórdias, na compra e venda de jornais e televisões, nos salários em atraso, nas pressões inconfessáveis sobre os imigrantes e sobre os trabalhadores, nas tenebrosidades da banca e da bolsa, nos enredos do ensino pré-escolar, nas andanças dos hospitais S.A., nas intrigas da programação militar e dos negócios anexos, nas querelas do IRS e dos encaixes dos benefícios previstos nas «liberdades religiosas» e cobiçados agora, também, pelo Estado ou nas conspirações que visam liquidar a Segurança Social? Ou porque perdem a fala os pastores das almas justamente quando o seu rebanho caminha mansamente para o supremo sacrifício? Seria, porém, repisarmos respostas conhecidas. Há posições bem definidas. E a primeira dessas definições evidentes está na aceitação de que nem os interesses da igreja são teológicos, nem os direitos conquistados pelo povo português têm a ver com a Teologia. As conquistas dos trabalhadores são sempre políticas e alcançam-se através da intensificação e da aceleração das suas lutas. Das suas lutas de classe. Travadas em condições sociais e políticas sempre desfavoráveis. Exemplo: o fascismo salazarista foi apeado, exclusivamente, pela unidade na acção dos soldados e dos trabalhadores. No âmbito interno da igreja o Concílio Vaticano II só resultou (mesmo no quadro das suas limitações) por traduzir as resistências e as contradições que opunham hierarquias elitistas e ignoradas massas do povo católico. Diga então a igreja o que quiser: a luta de classes atravessa toda a história das sociedades humanas e religiosas e define a verdadeira imagem do actual país real português. Quando a hierarquia católica tenta distorcer esta evidência, não há dúvida de que mente com a pior das duplas mentiras: a que é demagógica e ludibria o povo e a que é herética e não hesita em renegar a ética da própria fé católica. É o caso do princípio da prioridade do trabalho em confronto com o capital, que a doutrina social consagra como matéria «sempre ensinada pela Igreja» (Laborem Exercens, n.º 12). Comparece-se o que a igreja diz com o que a igreja faz: nos preocupantes cenários actuais, onde estão as tomadas de posição da hierarquia em defesa dos direitos dos pobres e dos oprimidos? E não é por falta de matéria ou de doutrina. Que imenso e vasto campo de batalha não oferece Portugal ? O país tem cerca de 2,5 milhões de cidadãos que vivem abaixo da linha de pobreza ou dela se abeiram perigosamente. Mais de 415.000 desempregados. O salário mínimo português é o mais baixo da Europa. 80% dos novos postos de trabalho têm contratos precários, muitas vezes apenas verbais - ao dia, à hora, à peça - sem garantias nem direitos reconhecidos aos trabalhadores. O crescimento económico é o mais modesto entre os países da União Europeia. Em contrapartida já cerca de 10 mil cidadãos declararam possuir depósitos bancários superiores a 1 milhão de dólares. Um número não especificado de multimilionários portugueses dispõe, cada um deles, de mais de 30 milhões de euros de capitais à ordem. A banca prospera. Nos primeiros seis meses de 2003, o BCP (parceiro pobre do Popular Espanhol) confessou lucros líquidos de 210 milhões de unidades de conta. Portugal é em toda a Europa o país com pior distribuição de riqueza.

Só a luta de classes construirá o futuro. O povo assim o entenderá. Mas os bispos são insensatos. Vivem das memórias do passado. Não percebem que já não são intocáveis e que o comum dos mortais os olha agora sem que alimente grandes ilusões.


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