De Moncada e da Sierra Maestra à resposta à União Europeia

Miguel Urbano Rodrigues
Há meio século uma centena de jovens, no dia 26 de Julho, assaltou em Santiago o Quartel de Moncada, símbolo naquela Província cubana do poder da tirania de Fulgêncio Batista. A operação fracassou. Mas a sua repercussão ultrapassou as fronteiras de Cuba e da América latina. Fidel Castro tinha então 26 anos e o movimento político por ele fundado viria a assumir ressonância mundial sob o nome de 26 de Julho.
As condições subjectivas para uma revolução não estavam reunidas. Mas a jornada de Moncada marcou profundamente os sobreviventes do grupo que iniciou o ataque. Dezenas de livros foram nas últimas décadas publicados sobre essa gesta de contornos quixotescos. Múltiplas e contraditórias são as interpretações do acontecimento.
Não obstante serem na época nevoentas as perspectivas do futuro imediato, os combatentes de Moncada partiram naquele dia ao assalto do céu. Não podiam prever que o seu épico desafio seria o prólogo de outros que culminariam com a derrota da ditadura e a tomada do poder pelos combatentes do 26 de julho e deixariam marcas profundas na história.
É natural que o povo cubano tenha festejado com alegria e entusiasmo o 50º aniversário da grande data.
Nunca em Cuba participei de comemorações do 26 de Julho que lembrassem outras. A atmosfera projecta sempre delas rosto e significado diferentes.
Neste aniversário tive a oportunidade com companheiros e amigos de muito países de visitar na véspera lugares hoje históricos da Sierra Maestra.
Fidel Castro gosta de repetir que Martí foi o autor intelectual de Moncada.
Recordei agora a afirmação ao contemplar e sentir o cenário da epopeia iniciada com o desembarque dos expedicionários do Granma, a 2 de Dezembro de 1956.
O desafio permanente ao impossível aparente foi uma constante no pensamento e na acção de Martí. Fidel e os companheiros do M-26 retomaram a sua concepção ética do combate político. A ideia de revolução era para eles inseparável de um infinito absoluto. Mas o mundo em que lutavam não era já o mesmo e souberam fundir harmoniosamente uma visão dialéctica e materialista da transformação do mundo com a concepção idealista do pioneiro da independência.
Percorrendo veredas da grande floresta onde um punhado de guerrilheiros arrancou para a construção da história profunda, o visitante é tocado por um estranho sentimento de admiração porque a tarefa a que se propunham os 22 sobreviventes do combate nos pântanos de Alegria del Pio se lhe afigura quase sobre-humana.

Na Sierra Maestra

Eu tinha lido os relatos do Che, de Raul Castro, de Almeida sobre os primeiros combates. Conhecia as maquetas do Museu da Revolução de Havana. Mas ao pisar a várzea de La Plata, ao parar em frente do monumento que evoca a tomada de Uvero, foi outra a comunicação que me aproximou dos guerreiros antigos transmutados em modernos revolucionários que durante dois anos fizeram daqueles lugares cenário de façanhas comparáveis as dos antigos heróis de Homero.
As velhas casernas não existem mais. Em La Plata visitamos o hospital, o Lar da Terceira Idade, um pequeno museu. Por ali respira-se a fraternidade de uma revolução que humanizou Cuba. Mas para que ela fosse possível eles tiveram de perseguir teimosamente a utopia, transformando-a em realidade concreta.
Escutando a guia, quase vemos Fidel, o Che, Raul, Camilo, Almeida, e outros nos primeiros choques com a tropa de Batista. Dos 32 que tomaram La Plata, uma dezena não tinha sequer fuzil. E, contudo, no começo da Maio, meses depois, frente a Uvero, a guerrilha já atingira a maioridade. Assumia-se como o Exército Rebelde cuja imagem, logo depois, Herbert Mattews, do New York Times, numa entrevista famosa, difundiria pelo mundo.
A memória dos mortos está presente num cenário idílico que não facilita a reflexão sobre o que ali se passou e pertence à história.
A Sierra transmite imagens de um paraíso terrestre. Fez-me lembrar o espanto de Cristóvão Colombo, deslumbrado com a beleza serena do Novo Mundo.
Na beira do caminho, o rosa escuro dos eloendros contrasta com o amarelo das acácias espinhosas. A estrada actual - explicam - não existia quando a sorte do povo de Cuba se decidia naquelas serranias.
O relevo, aliás, não é por ali uniforme. Em muitos lugares a montanha despenha-se sobre o mar abruptamente. Para os guerrilheiros, o cume do Turquino, a 1974 metros de altitude, era uma referência familiar a orientá-los nas suas caminhadas pela mata.
O Che em Pasajes de la Guerra Revolucionária esboça, com talento, quadros do mundo da Sierra quando os camponeses permaneciam submetidos a um regime de quase servidão, tratados como animais pelos capatazes dos madeireiros e pelos guardas de Batista.

E o impossível ocorreu...

A paisagem suaviza-se nas baixadas abertas pelos pequenos rios que descem do maciço montanhoso. Mas quando o olhar sobe, o manto verde fecha-se. Era sob as copas dos gigantes da mata, nos lugares onde esta era mais densa, que se moviam, invisíveis, os homens que lutavam pela liberdade de Cuba.
São raras as praias por ali. Na maioria das enseadas pedregosas, a areia apresenta uma cor escura nos espaços em que rompe a monotonia da penedia.
O mar era uma tentação permanente para os guerrilheiros, mas somente de longe em longe se lhes oferecia a oportunidade de um banho refrescante.
Naquela manhã escaldante, sob um céu sem nuvens, não soprava a mais leve brisa. O ar estava parado, não havia ondulação, e nas águas, de uma transparência que quase feria o olhar, o Caribe apresentava todas as tonalidades do verde e do azul, com predomínio do turquesa.
A visão do paraíso coexistia nos combatentes com uma intimidade dolorosa, a que vem do sofrimento. A morte espreitava o guerrilheiro no quotidiano. Podia chegar na curva de uma vereda, na emboscada invisível, no primeiro barranco. O frio, a fome, o isolamento, a falta de medicamentos e outras carências materiais foram companheiros permanentes da guerrilha. Mas a opção revolucionária e a solidariedade
que brotava do colectivo ajudavam muito. E combatendo, eles aprendiam a descobrir o futuro.
Vinte e cinco meses separaram o desembarque do desmoronamento da ditadura. Nunca houve uma guerrilha como aquela. Experiências dolorosas em muitos países trazem a certeza de que foi acontecimento irrepetível.
Basta lembrar que a força combatente que Fidel comandou quando Batista lançou a sua grande ofensiva na Primavera de 57 não alcançava sequer 300 homens. E o impossível ocorreu. Um exército moderno de 10 000 homens, armado com equipamento moderno, sofreu uma derrota esmagadora, o começo do fim.
Nos piores momentos eles acreditaram sempre que poderiam resistir. A esperança chocava-se com a realidade objectiva. Se há processo revolucionário que se tenha cumprido contra a lógica aparente da história foi o cubano. A maior de todas as lições da geração extraordinária da Sierra Maestra terá sido essa confiança inquebrantável na vitória final. A fibra revolucionária e a confiança nos ideais pelos quais se batiam foram decisivas para o desfecho.
Na visita a lugares hoje quase legendários da Sierra Maestra, no município de Guamá, fui tocado por essa comovedora sensação.

Fidel responde à União Europeia

Dez mil pessoas, concentradas em frente ao antigo Quartel de Moncada - entre as quais muitos convidados de diferentes partidos e movimentos estrangeiros - acompanharam em Santiago o discurso que Fidel pronunciou no 26 de Julho. Não cabiam ali mais. Mas na capital do Oriente cubano, um milhão de pessoas escutou nas ruas a transmissão das suas palavras.
Para surpresa dos observadores estrangeiros el comandante ocupou-se quase exclusivamente de dois temas: o contraste entre a Cuba actual e a sociedade existente no país na época de Batista; e as relações com a União Europeia após a agressiva posição assumida pelos 15 perante a Ilha.
Na primeira parte, o dirigente do Estado e do Partido, citando números, esboçou o retrato da realidade social e económica pré-revolucionária. Uma sociedade monstruosa , na qual um ditador sanguinário representava afinal o poder imperial que tudo decidia e mantinha um país de analfabetismo endémico sob um regime de opressão, miséria, terror policial. Com o apoio de Washington, claro. Uma situação que lamentavelmente persiste ainda em muitas nações da América Latina. Na Cuba de hoje, bloqueada, agredida, caluniada, injuriada, a revolução mudou a vida. Essa é uma evidência indesmentível.
Fidel, cujo discurso pouco ultrapassou uma hora, citou estatísticas e factos que reflectem a verdadeira imagem da Ilha e do seu povo, desmontando as campanhas dos inimigos da revolução.
Lembrou, por exemplo, que a esperança de vida dos cubanos ultrapassa hoje os 76 anos, sendo a mais elevada no Terceiro Mundo. Recordou ainda que o país conta com mais de 67 000 médicos, ou seja a mais alta percentagem per capita do mundo. Idem para o pessoal do conjunto dos serviços de Saúde. Esta, tal como o Educação, é universal e gratuita. Cuba situa-se também na primeiro lugar no tocante à relação entre o número de alunos por sala de aula e o de professores (vinte para um). Nada menos de 16 000 jovens estrangeiros estudam gratuitamente em estabelecimentos cubanos de ensino superior. É todo um conceito dos direitos humanos o que esses números projectam.
A segunda parte do discurso incluiu a crítica cerrada do farisaísmo da União Europeia.
As medidas anunciada pela Comissão Europeia no dia 20 pp confirmaram que as a chamada posição comum relativa à ajuda humanitária definida dias antes traduz na prática a continuidade de uma recusa concreta de qualquer tipo de ajuda oficial dos 15.
Fidel, recorrendo sempre a números oficiais, chamou a atenção para uma realidade desconhecida por milhões de pessoas.
A ajuda humanitária europeia já era na prática ficcional. A media dessa ajuda nos últimos três anos foi de 4,2 milhões de dólares, quantia irrisória.
É suficiente lembrar que os prejuízos de três furacões que devastaram a Ilha no mesmo período excederam 2 mil e quinhentos milhões de dólares, para se compreender que a Comissão Europeia recorre a uma linguagem hipócrita ao sugerir que tem prestado a Cuba ajuda humanitária.
O povo cubano tem um alto sentido da dignidade nacional. Não é de estranhar, portanto, que uma autêntica tempestade de aplausos tenha sido a resposta do multidão quando Fidel – depois de agradecer a solidariedade,
essa sim humanista, de organizações não governamentais – informou que Cuba rejeita qualquer tipo se ajuda humanitária da Comissão Europeia. Dela não aceitará nem um centavo.
Parafraseando uma passagem do seu discurso de defesa quando o condenaram pelo assalto a Moncada, condensou numa réplica revolucionária a sua resposta ao farisaísmo da União Europeia:
«Condena-me. A última palavra será dos povos.»
Proferida naquele lugar onde uma geração iniciou uma grande revolução, tal réplica confirma que Cuba não se submete aos poderosos e que, neste tempo de desvergonha e vassalagem, o seu povo não perdeu a confiança na humanidade.


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