Sessenta anos depois de Estalinegrado...

A vitória do Exército Vermelho permanece actual e bem viva

Manoel de Lencastre
O ano corrente de 2003 é fértil em aniversários significativos. Comemoraram-se já o 60º da batalha de Estalinegrado, o 50.º da morte de Estaline, e o 300.º da fundação da cidade de S. Petersburgo (Leninegrado). Tão importantes e significativas são estas datas que a imprensa britânica lhes dedicou largo espaço de reportagem e análise. Pela nossa parte, vamos debruçar-nos, hoje, sobre o primeiro desses grandes aniversários reservando os outros para trabalhos seguintes.
Foi a 2 de Fevereiro que a cidade de Volgogrado (anteriormente, Estalinegrado) e toda a Rússia, viveram de maneira sentida e orgulhosa o 60º aniversário da vitória que assombrou o mundo e ditou o destino da 2ª Guerra Mundial. Na verdade, a partir do momento em que o comandante das forças nazis, von Paulus, se entregou às tropas soviéticas, ficou a saber-se que o III Reich ia ser vencido, que Adolf Hitler já não tinha mais cartas para jogar e que os imperialistas teriam de alterar, também, a sua estratégia geral. Foi esta data que se comemorou, a da indiscutível vitória do Exército Vermelho, do povo soviético e do PC da URSS.
Junto à impressionante estátua da Mãe Rússia, diplomatas e governantes prestaram homenagem ao soldado soviético morto durante o épico período através do qual se travou a batalha. Um minuto de silêncio calou toda a cidade. Presente, o embaixador da Alemanha, a nação vencida. Mas o grande momento das comemorações foi, sem dúvida, a marcha dos veteranos soviéticos, precisamente aqueles que estiveram lá, os que triunfaram e viram a hora da vitória, os que estão vivos, ainda, os que lutaram pela fábrica de tractores, os antigos combatentes do 62.º Exército, de Chuikov, os companheiros do sargento Pavlov que, durante 58 dias impediram os alemães de atravessarem o Volga, os que com o general Rodimtsev e a 13.ª divisão defenderam o distrito central da cidade, os que acreditaram, os que nunca se renderam, os que tinham os olhos postos no futuro, os que já tudo tinham dado à Pátria soviética e, no momento supremo, lhe fariam oferta do seu derradeiro bem - a vida.
Mas como as coisas se têm transformado devido à passagem do tempo, desta vez os veteranos tiveram a companhia daqueles que lutaram do lado oposto. Estiveram em Volgogrado muitos antigos combatentes hitlerianos. Na campanha de Estalinegrado, eram jovens germânicos a quem se tinha dito que os países eslavos teriam de ceder espaço vital à nação germânica e que a URSS era um império do mal. Vinham das catacumbas do desconhecimento. De intensas campanhas de desinformação. Tinham sido feitos absorver o elixir do ódio. Mas sabiam que a «Wehrmacht» fora derrotada às portas de Moscovo e o problema estava em que, agora, o Exército Vermelho se recusava, também, a entregar a capital do Volga. Se esta se rendesse, abrir-se-ia para os nazis um mundo de novas possibilidades. Mas a guerra apresentava-se-lhes em toda a sua mais rude realidade - temperaturas de 35 graus negativos, gripados os motores dos carros, e aqueles homens soviéticos que não eram deste mundo mas, sim, de um outro em que havia ideal e se tinha a certeza de que o capitalismo sofreria (como sofreu!) uma profunda derrota.
Pitor Dodkin era, simplesmente, um jovem voluntário. Mas tinha uma das mais difíceis missões - a de activar minas anti-tanque. Quando acabou a guerra, era coronel. Eis as suas palavras: «É certo que lutámos uns contra os outros. Mas o tempo cura todas as feridas. Não sentimos animosidade, agora, contra os inimigos de ontem». Por sua vez, um coronel germânico, o conde Heino Vitzhum, já com 89 anos, declarou: «Fui dos que saíram de Estalinegrado a bordo de um dos três últimos aviões, quando se apertava o anel de forças soviéticas que avançavam. Sabíamos que seríamos mortos, ou feridos, o que significava morte certa, ou acabaríamos como prisioneiros. Por mim, já tinha perdido a esperança de sair vivo de Estalinegrado».
Outro alemão, Karl Schneider, 88 anos, afirmou: «Fui capturado durante um combate por um armazém de cereais. A luta por aquela instalação tornou-se simbólica da tenacidade dos soldados do Exército Vermelho, posto que 58 homens com armas ligeiras conseguiram manter as suas posições contra assaltos de tanques e bombardeamentos da «Luftwaffe» durante vários dias. As suas munições eram escassas e não tinham água. Depois da nossa derrota, levaram-me com outros 100 000 prisioneiros alemães para a praça principal e vi o Marechal de Campo, Friedrich von Paulus, que também tinha sido capturado. Daí, tivemos de marchar ao longo de muitos quilómetros para um campo em Begetovka. Dessa localidade, os prisioneiros eram separados e enviados para diversas regiões em toda a URSS. Só me repatriaram em fins de 1945».

«A democracia só nos trouxe o caos»
Volgogrado, não! Estalinegrado, sim!

Quem o diz são os veteranos que estiveram nas comemorações da imensa vitória de Fevereiro de 1943. Num comovente espectáculo de patriotismo que não se via desde os dias emocionantes das paradas militares na Praça Vermelha, muitos dos que lutaram contra o 6.º Exército nazi de von Paulus, gritaram: «Volgogrado, não! Estalinegrado, sim!» Um debate profundo continua a travar-se na Rússia e em toda a cidade de Volgogrado. É o nome daquele que presidiu à mais bárbara, mas também à mais gloriosa época que se viveu na URSS, que está em jogo.
Ivan Melnik, piloto da aviação de caça, não teve papas na língua ao dizer: «Todos nós acabamos de assinar uma petição para que a cidade recupere o seu verdadeiro nome de Estalinegrado. Muitos dos nossos camaradas morreram pela Pátria e pela URSS. Estaline, era o nosso comandante supremo. Este país viveria muito melhor se ele ainda estivesse entre nós». Por seu lado, Anatoli Kozlov, agora com 81 anos mas que lutou como comandante de um pelotão de infantaria, afirmou: «Isto está-nos na alma. Se eles não devolverem à cidade o nome de Estalinegrado, estarão a cuspir-nos na cara. É como se nos enterrassem vivos!».
Iraida Pomochnikova, que tinha 6 anos de idade, apenas, ao tempo da batalha, salientou: «Ninguém pode imaginar o que aquilo foi. Os bombardeamentos nunca paravam. Os nosso familiares morriam, ali, à nossa frente.». Mas Alexandre Bergholtz, que, com 50 anos de idade, está mais longe dos dramáticos acontecimentos que se viveram em Estalinegrado, há 60 anos, afirmaria, concludentemente: «Vim aqui para tocar trompete num concerto da Avenida dos Heróis e, assim, fazer alguns rublos suplementares. O que tenho a dizer é que não vi Estalinegrado. Mas a democracia só nos trouxe o caos. Se existissem mais Estalines e menos Gorbachevs neste país, estaríamos todos muito melhor!».

A guerra na literatura soviética
«Na linha da frente»(*)

«As divisões da Sibéria chegaram à zona do Volga bem preparadas. Mas durante o primeiro mês de constantes combates, o inimigo lançou contra elas nada menos de cento e dezassete ataques. Houve um dia em que os tanques e a infantaria nazis romperam 23 vezes contra os camaradas. Claro que todos esses ataques foram rechaçados. Os alemães imaginavam estar a conseguir destruir o moral dos siberianos. Os homens estavam num sofrimento sobre-humano. Às vezes, ninguém dormia em 72 horas, ou mais. O camarada-coronel, Gurtiev, sentiu uma dor profunda quando um soldado lhe disse: «Aqui, camarada, nada nos falta. Temos de tudo: novecentos gramas de pão, refeições quentes nos termos, duas vezes por dia. Mas a verdade, camarada, é que não temos fome».
«Gurtiev, amava e respeitava os seus homens. Mas sabia que quando um soldado deixa de sentir fome é porque as circunstâncias da luta se mostram mais cruéis. Contudo, era precisamente devido a essas condições que os seus soldados, quase no limite das suas possibilidades, consideravam que já pouco tinham para perder. Então, apesar de soldados, combatiam como feras. Não havia força no mundo que pudesse conter aqueles siberianos. Tanto os praças como os oficiais tinham, duramente, aprendido com a experiência adquirida em combate. Gurtiev sabia que a fibra moral dos seus homens crescia na razão directa da experiência adquirida. Mas, nessa noite, teria de ordenar que assumissem posições defensivas.»

(*) Autor: Vassili Grossman (1905-1964)


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