Corrigir o rumo
O Presidente Lula, que não se esqueceu da trajectória da sua própria vida de menino pobre a operário participante e líder das lutas sindicais, enfrenta na Presidência do Brasil as maiores dificuldades para um caminho que é revolucionário - porque altera o rumo da história até hoje subordinada ao poder de uma velha oligarquia aliada às pressões externas das forças imperialistas – e mantém o respeito pelo equilíbrio democrático das múltiplas tendências políticas nacionais. É uma tarefa gigantesca com aspectos de epopeia.
Passado o primeiro deslumbramento com a vitória das forças populares que derrotaram a tradicional elite, surgem os opositores, muitos pertencentes ao amplo movimento de esquerda. Faz recordar a velha e subtil luta de interesses que definem as classes sociais: as explosões individualistas dos que não superam as obsessões restritas de uma teoria mal digerida ou os rancores dos que percebem que os seus privilégios correm riscos, opondo-se ao entusiasmo dos que apostam nas grandes mudanças para oferecer a uma população miserável as condições de escolher um novo rumo para o país. Um caminho inovador está repleto de contradições e é preciso coragem para enfrentá-las uma a uma. Fácil seria estabelecer por decreto a limpeza dos obstáculos, mas isto é conto de fadas ou filme norte-americano. Os caminhos da transformação de um país são aqueles construídos ao caminhar, com os recursos que a realidade oferece. Os que se vêem como revolucionários dividem-se entre os vaidosos condutores do povo e os modestos participantes de um processo histórico.
Muitos dos que deram o apoio a Lula no processo eleitoral, sonhando com a milagrosa mudança do sistema e a solução imediata dos únicos problemas que percebem à sua volta (os do seu próprio interesse), já se organizam como oposição, encantando a media e as forças políticas derrotadas pelo voto popular que até agora se mantinham como surpreendidos observadores. Com o acompanhamento do bombo da comunicação social (que «adora dissidentes para animar o fluxo noticioso», como já foi dito por alguém), fazem barulho e levantam bandeiras que impressionam pelo enunciado de princípios revolucionários puríssimos e discursos de uma inteligência erudita. É uma situação conhecida ao longo da história, sempre com o efeito de enfraquecer processos revolucionários e abrir caminho para os inimigos que só precisam esperar e dar uma ou outra mãozinha por baixo do pano. Os exemplos são mais que muitos por todo o mundo. Com frequência ouvimos nas ruas, junto aos que trabalham nas campanhas contra a fome, o analfabetismo, o abandono infantil, a delinquência juvenil, a correcção dos gravíssimos problemas de sobrevivência: «Com amigos desses nem precisamos de inimigos».
Uma equação com muitas variáveis
Para os que acompanharam com atenção os últimos quarenta anos de lutas nacionais contra as ditaduras e pela conquista da integridade de países esmagados pela dependência económica, a repetição dos modelos que travam o caminhar difícil da democracia no que ela tem de revolucionário, provoca cansaço e náusea. No trabalho militante não podemos esquecer que as pessoas precisam aprender a olhar para além dos seus próprios interesses e tentar conhecer uma realidade social que ultrapassa a do indivíduo, daí a necessidade de uma soberana paciência para suportar os que agem como inimigos com a melhor das intenções. Não nos esquecemos do Chile de Allende e do Portugal de Abril, grandes escolas da luta popular.
A equação nacional tem mais variáveis que o abecedário comporta. A visão «holística», tão citada hoje nas conversas sobre saúde e na busca do entendimento entre diferentes filosofias de vida, que recomenda o estudo do conjunto de factores e o inter-relacionamento entre as partes, não é levada em consideração na abordagem dos problemas sociais e económicos pelos críticos que não saem de cima do muro. Nos tempos modernos as velhas torres de marfim são substituídas por muros, como o que dividiu Berlim ou o dos Estados Unidos na fronteira com o México. Será mais fácil procurar entender o porquê dos muros, quais os interesses que eles protegem, quais os traumas psicológicos que estão subjacentes, para compreender as pessoas que deles se servem provocando distúrbios que dificultam os primeiros passos de um país dependente e miserabilizado pela injustiça social herdada, que sempre beneficiou uma elite poderosa, no sentido do desenvolvimento da cidadania e das forças produtivas. De qualquer modo, mais vale recordar a necessidade de modéstia revolucionária como condição para colocar o interesse colectivo à frente do individual.
Como escreveu o Presidente do Partido Comunista do Brasil, Renato Rabelo (revista Princípios n.º 68) «Agora, diante do desafio de governar e honrar o programa assumido com o povo, os comunistas não podem ficar de fora. É preciso viver essa experiência, porque ao vivenciá-la, além de o Partido cumprir as suas responsabilidades, este é um meio de ele se aproximar de seus objectivos maiores. Lula foi eleito assumindo a bandeira da mudança, com quase dois terços do número de votos, num clima de grande expectativa acerca de outro destino para o nosso país.»
Não podemos ficar em cima do muro mandando bocas que alimentam mesquinhas intrigas, por mais inteligentes e puras que pareçam, como se pairássemos como anjos sobre uma realidade que mistura o joio com o trigo. De qualquer maneira até os anjos participam no processo e devem assumir as suas responsabilidades pelo seu êxito ou fracasso. Prejudicar, por desentendimentos menores ou circunstanciais, este processo que transforma o Brasil numa nação independente e senhora do seu destino, é como deitar fora a água do banho com a criança junto.
A Reforma Agrária
O MST, pela coerência da sua luta antiga tornou-se conhecido e admirado internacionalmente. Em busca de trabalho rural cresce o seu contingente de camponeses sem terra com as levas de desempregados que tentaram sobreviver nas cidades. Todos vieram do campo, eles ou os seus pais, expulsos pelo latifúndio com o seu poder arbitrário e a sua ganância de lucro que desconhece os direitos humanos das famílias trabalhadoras tão brasileiras como a dos proprietários. O êxito do Movimento dos Sem Terra no programa de reforma agrária pela conquista pacífica, mas destemida, das terras abandonadas ou mal aproveitadas para a produção e a sua independência em relação aos partidos políticos, deu-lhe uma aura de ponta de lança para os que querem obrigar o Governo Lula a aceitar qualquer tipo de acção tendo em vista as ocupações.
Os seus dirigentes conhecem as dificuldades, tanto os condicionalismos impostos por uma legislação herdada de um passado injusto e a carência de recursos financeiros do país que limitam a acção do governo, como a impetuosidade e agressividade daquela massa humana esfomeada, sem casa, sem os recursos mínimos de sobrevivência, que dia a dia se incorpora ao movimento como sob as asas maternas. Sob a bandeira de reforma agrária cresce a exigência de solução dos mais variados problemas de miséria cultivados ao longo de séculos. E há, certamente, quem incentive a mistura dos objectivos – não só conduzindo as centenas de milhares de Sem Terra que vivem em acampamentos improvisados a invadirem repartições públicas ou propriedades agrícolas não expropriáveis como a actos de violência para a obtenção dos alimentos que lhes falta, seja por incompreensão política ou por interesses contrários à coerência do MST.
A media divulga as acções descontroladas como se fossem programas do Movimento. Insidiosamente constróem uma imagem negativa do MST ao mesmo tempo que a utilizam para condenar o governo que sempre esteve ao seu lado. Deliberadamente esquecem os actos criminosos organizados pelos latifundiários que mandam os seus jagunços atirarem sobre os trabalhadores acampados e o peso da fome que transtorna os desempregados. Preocupam-se em identificar na reforma agrária uma ameaça terrorista, desconhecendo os factos e omitindo a pressão armada dos latifundiários que está na origem da miséria dos trabalhadores rurais.
O exemplo português
Quem acompanhou a reforma agrária em Portugal de Abril lembra-se da campanha promovida pelos social-democratas em vários países da Europa, liderados por Mário Soares, que divulgava actos de vandalismo e banho de sangue nas pacatas Unidades Colectivas de Produção do Alentejo. Vieram jornalistas e estudiosos, sobretudo da Holanda, França e Alemanha, que promoveram debates nos seus respectivos países para denunciar as mentiras que já punha em causa a credibilidade da imprensa. Lembramos também dos ultra revolucionários que criticavam o PCP por trabalhar arduamente para que o processo de organização das Unidades Colectivas de Produção respeitasse uma forma de legalidade – com a distribuição de trabalhadores e organização das funções apoiadas pelos sindicatos agrícolas, pelo MFA, decidida em assembleia geral e registada em acta por delegados dos Ministérios de Agricultura e do Trabalho – como se fosse uma medida meramente burocrática que atrasava o processo. Um dos expoentes desses ultra-revolucionários, depois de ter aderido ao partido de direita PSD, que combatia ferozmente a reforma agrária, hoje é o primeiro-ministro de Portugal e destaca-se pelas propostas de apoio à invasão do Iraque. Na verdade era e é um ultra-invasor, que pretendeu servir-se de um processo revolucionário minando-o internamente. A história é velha e repete-se.
Quando a reforma agrária de Abril completou cinco anos recebeu uma homenagem na cidade de Wageningen, na Holanda, onde estiveram presentes várias personalidades internacionais e nacionais ligadas aos estudos do desenvolvimento agrário. Ali foi ressaltado o equilíbrio conseguido entre o ardor revolucionário e a competência da gestão das unidades colectivas de produção. Caminhava-se a passos de gigante na formação da consciência de cidadãos responsáveis socialmente que trabalhavam estimulados pelo espírito de solidariedade patriótica. Era um caminho que revolucionava os modelos de reforma agrária já experimentados mundialmente, sobretudo os que recebiam o apoio da FAO, organismo das Nações Unidas, e não se afastava dos princípios da democracia apregoados pelos países capitalistas.
A responsabilidade de todos
Lula foi eleito por uma maioria avassaladora em Outubro de 2002. Tem mantido abertos todos os canais de diálogo com os vários sectores da sociedade. Os media, e mesmo os tradicionais adversários políticos, comentam com agrado cada vez que o presidente aceita o símbolo – a camisa do clube – ao qual não se filia, com o respeito devido às diferentes opiniões dos 170 milhões de brasileiros. Agora, no entanto, em relação ao MST, acusam-no por ter recebido o boné dos Sem Terra, responsabilizando-o por actos de violência de membros daquela organização. Claro está que só o respeito por certa classe social agrada aos que controlam os meios de comunicação e à direita.
A vitória de Lula com o seu programa de mudança de rumo para o Brasil tendo como meta a democracia e o equilíbrio na distribuição da renda, apesar de significar a quebra de privilégios da velha oligarquia e seus apadrinhados, surge como uma tábua de salvação para a social-democracia que tem sofrido seguidas derrotas na Europa e na América Latina. Promovendo o humanismo de Lula como um velho princípio (guardado no fundo da gaveta) da Terceira Internacional onde se reúnem. Não é casual o envolvimento e os rapapés com o presidente do Brasil com que até Tony Blair (que se negou a vê-lo quando candidato) alinha nesta busca ansiosa de uma Terceira Via social-democrata. E chega a sensibilizar sectores do PT que pretendem oferecer a capital de São Paulo para o próximo Congresso da Internacional Socialista em que, certamente, aparecerá Mário Soares como «grande amigo» de Lula como sempre foi de Fernando Henrique Cardoso, Miterrand, Betino Craxi e outros bem conhecidos – todos de esquerda quando perdem o prestígio eleitoral. São os tais amigos que dispensam os inimigos.
As pressões e as contradições se avolumam em torno de um governo que é popular e que, ao romper com o velho poder elitista, vai beneficiar também os empresários que estão afogados pelo imperialismo e ampliar um grande mercado de consumo que enche os olhos da Europa cada vez mais controlada pelos Estados Unidos. Não se pode assistir calado ao envolvimento que fazem do governo Lula. Se os cidadãos que o elegeram e apoiam o seu programa de Governo não manifestarem construtivamente as suas opiniões, prevalecerá a posição dos que formam a opinião pública e divulgam as imagens pelo mundo afora. Assim, foi importante a divulgação de uma carta contra a adesão à ALCA e a autonomia do Banco Central assinada por destacadas personalidades brasileiras (Leonardo Boff, Chico Buarque, cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, Emir Sader, Oscar Niemeyer, entre outros) propondo que tais medidas não sejam tomadas sem consulta popular. É diferente de denúncias e manifestações de protesto que logo atraem e fortalecem os adversários, trata-se do reforço da participação popular.
Tais comentários, que aqui faço, parecem conselhos para crianças, mas como fazer se a doença infantil, diagnosticada por Lenin há tantas décadas, reaparece no nosso tempo? O combate preventivo pode evitar uma epidemia e dar mais tempo para que possa ser realizada a campanha contra a fome e o atraso que minam a população brasileira sob os olhos aparentemente complacentes dos defensores do neocapitalismo mundial.
Muitos dos que deram o apoio a Lula no processo eleitoral, sonhando com a milagrosa mudança do sistema e a solução imediata dos únicos problemas que percebem à sua volta (os do seu próprio interesse), já se organizam como oposição, encantando a media e as forças políticas derrotadas pelo voto popular que até agora se mantinham como surpreendidos observadores. Com o acompanhamento do bombo da comunicação social (que «adora dissidentes para animar o fluxo noticioso», como já foi dito por alguém), fazem barulho e levantam bandeiras que impressionam pelo enunciado de princípios revolucionários puríssimos e discursos de uma inteligência erudita. É uma situação conhecida ao longo da história, sempre com o efeito de enfraquecer processos revolucionários e abrir caminho para os inimigos que só precisam esperar e dar uma ou outra mãozinha por baixo do pano. Os exemplos são mais que muitos por todo o mundo. Com frequência ouvimos nas ruas, junto aos que trabalham nas campanhas contra a fome, o analfabetismo, o abandono infantil, a delinquência juvenil, a correcção dos gravíssimos problemas de sobrevivência: «Com amigos desses nem precisamos de inimigos».
Uma equação com muitas variáveis
Para os que acompanharam com atenção os últimos quarenta anos de lutas nacionais contra as ditaduras e pela conquista da integridade de países esmagados pela dependência económica, a repetição dos modelos que travam o caminhar difícil da democracia no que ela tem de revolucionário, provoca cansaço e náusea. No trabalho militante não podemos esquecer que as pessoas precisam aprender a olhar para além dos seus próprios interesses e tentar conhecer uma realidade social que ultrapassa a do indivíduo, daí a necessidade de uma soberana paciência para suportar os que agem como inimigos com a melhor das intenções. Não nos esquecemos do Chile de Allende e do Portugal de Abril, grandes escolas da luta popular.
A equação nacional tem mais variáveis que o abecedário comporta. A visão «holística», tão citada hoje nas conversas sobre saúde e na busca do entendimento entre diferentes filosofias de vida, que recomenda o estudo do conjunto de factores e o inter-relacionamento entre as partes, não é levada em consideração na abordagem dos problemas sociais e económicos pelos críticos que não saem de cima do muro. Nos tempos modernos as velhas torres de marfim são substituídas por muros, como o que dividiu Berlim ou o dos Estados Unidos na fronteira com o México. Será mais fácil procurar entender o porquê dos muros, quais os interesses que eles protegem, quais os traumas psicológicos que estão subjacentes, para compreender as pessoas que deles se servem provocando distúrbios que dificultam os primeiros passos de um país dependente e miserabilizado pela injustiça social herdada, que sempre beneficiou uma elite poderosa, no sentido do desenvolvimento da cidadania e das forças produtivas. De qualquer modo, mais vale recordar a necessidade de modéstia revolucionária como condição para colocar o interesse colectivo à frente do individual.
Como escreveu o Presidente do Partido Comunista do Brasil, Renato Rabelo (revista Princípios n.º 68) «Agora, diante do desafio de governar e honrar o programa assumido com o povo, os comunistas não podem ficar de fora. É preciso viver essa experiência, porque ao vivenciá-la, além de o Partido cumprir as suas responsabilidades, este é um meio de ele se aproximar de seus objectivos maiores. Lula foi eleito assumindo a bandeira da mudança, com quase dois terços do número de votos, num clima de grande expectativa acerca de outro destino para o nosso país.»
Não podemos ficar em cima do muro mandando bocas que alimentam mesquinhas intrigas, por mais inteligentes e puras que pareçam, como se pairássemos como anjos sobre uma realidade que mistura o joio com o trigo. De qualquer maneira até os anjos participam no processo e devem assumir as suas responsabilidades pelo seu êxito ou fracasso. Prejudicar, por desentendimentos menores ou circunstanciais, este processo que transforma o Brasil numa nação independente e senhora do seu destino, é como deitar fora a água do banho com a criança junto.
A Reforma Agrária
O MST, pela coerência da sua luta antiga tornou-se conhecido e admirado internacionalmente. Em busca de trabalho rural cresce o seu contingente de camponeses sem terra com as levas de desempregados que tentaram sobreviver nas cidades. Todos vieram do campo, eles ou os seus pais, expulsos pelo latifúndio com o seu poder arbitrário e a sua ganância de lucro que desconhece os direitos humanos das famílias trabalhadoras tão brasileiras como a dos proprietários. O êxito do Movimento dos Sem Terra no programa de reforma agrária pela conquista pacífica, mas destemida, das terras abandonadas ou mal aproveitadas para a produção e a sua independência em relação aos partidos políticos, deu-lhe uma aura de ponta de lança para os que querem obrigar o Governo Lula a aceitar qualquer tipo de acção tendo em vista as ocupações.
Os seus dirigentes conhecem as dificuldades, tanto os condicionalismos impostos por uma legislação herdada de um passado injusto e a carência de recursos financeiros do país que limitam a acção do governo, como a impetuosidade e agressividade daquela massa humana esfomeada, sem casa, sem os recursos mínimos de sobrevivência, que dia a dia se incorpora ao movimento como sob as asas maternas. Sob a bandeira de reforma agrária cresce a exigência de solução dos mais variados problemas de miséria cultivados ao longo de séculos. E há, certamente, quem incentive a mistura dos objectivos – não só conduzindo as centenas de milhares de Sem Terra que vivem em acampamentos improvisados a invadirem repartições públicas ou propriedades agrícolas não expropriáveis como a actos de violência para a obtenção dos alimentos que lhes falta, seja por incompreensão política ou por interesses contrários à coerência do MST.
A media divulga as acções descontroladas como se fossem programas do Movimento. Insidiosamente constróem uma imagem negativa do MST ao mesmo tempo que a utilizam para condenar o governo que sempre esteve ao seu lado. Deliberadamente esquecem os actos criminosos organizados pelos latifundiários que mandam os seus jagunços atirarem sobre os trabalhadores acampados e o peso da fome que transtorna os desempregados. Preocupam-se em identificar na reforma agrária uma ameaça terrorista, desconhecendo os factos e omitindo a pressão armada dos latifundiários que está na origem da miséria dos trabalhadores rurais.
O exemplo português
Quem acompanhou a reforma agrária em Portugal de Abril lembra-se da campanha promovida pelos social-democratas em vários países da Europa, liderados por Mário Soares, que divulgava actos de vandalismo e banho de sangue nas pacatas Unidades Colectivas de Produção do Alentejo. Vieram jornalistas e estudiosos, sobretudo da Holanda, França e Alemanha, que promoveram debates nos seus respectivos países para denunciar as mentiras que já punha em causa a credibilidade da imprensa. Lembramos também dos ultra revolucionários que criticavam o PCP por trabalhar arduamente para que o processo de organização das Unidades Colectivas de Produção respeitasse uma forma de legalidade – com a distribuição de trabalhadores e organização das funções apoiadas pelos sindicatos agrícolas, pelo MFA, decidida em assembleia geral e registada em acta por delegados dos Ministérios de Agricultura e do Trabalho – como se fosse uma medida meramente burocrática que atrasava o processo. Um dos expoentes desses ultra-revolucionários, depois de ter aderido ao partido de direita PSD, que combatia ferozmente a reforma agrária, hoje é o primeiro-ministro de Portugal e destaca-se pelas propostas de apoio à invasão do Iraque. Na verdade era e é um ultra-invasor, que pretendeu servir-se de um processo revolucionário minando-o internamente. A história é velha e repete-se.
Quando a reforma agrária de Abril completou cinco anos recebeu uma homenagem na cidade de Wageningen, na Holanda, onde estiveram presentes várias personalidades internacionais e nacionais ligadas aos estudos do desenvolvimento agrário. Ali foi ressaltado o equilíbrio conseguido entre o ardor revolucionário e a competência da gestão das unidades colectivas de produção. Caminhava-se a passos de gigante na formação da consciência de cidadãos responsáveis socialmente que trabalhavam estimulados pelo espírito de solidariedade patriótica. Era um caminho que revolucionava os modelos de reforma agrária já experimentados mundialmente, sobretudo os que recebiam o apoio da FAO, organismo das Nações Unidas, e não se afastava dos princípios da democracia apregoados pelos países capitalistas.
A responsabilidade de todos
Lula foi eleito por uma maioria avassaladora em Outubro de 2002. Tem mantido abertos todos os canais de diálogo com os vários sectores da sociedade. Os media, e mesmo os tradicionais adversários políticos, comentam com agrado cada vez que o presidente aceita o símbolo – a camisa do clube – ao qual não se filia, com o respeito devido às diferentes opiniões dos 170 milhões de brasileiros. Agora, no entanto, em relação ao MST, acusam-no por ter recebido o boné dos Sem Terra, responsabilizando-o por actos de violência de membros daquela organização. Claro está que só o respeito por certa classe social agrada aos que controlam os meios de comunicação e à direita.
A vitória de Lula com o seu programa de mudança de rumo para o Brasil tendo como meta a democracia e o equilíbrio na distribuição da renda, apesar de significar a quebra de privilégios da velha oligarquia e seus apadrinhados, surge como uma tábua de salvação para a social-democracia que tem sofrido seguidas derrotas na Europa e na América Latina. Promovendo o humanismo de Lula como um velho princípio (guardado no fundo da gaveta) da Terceira Internacional onde se reúnem. Não é casual o envolvimento e os rapapés com o presidente do Brasil com que até Tony Blair (que se negou a vê-lo quando candidato) alinha nesta busca ansiosa de uma Terceira Via social-democrata. E chega a sensibilizar sectores do PT que pretendem oferecer a capital de São Paulo para o próximo Congresso da Internacional Socialista em que, certamente, aparecerá Mário Soares como «grande amigo» de Lula como sempre foi de Fernando Henrique Cardoso, Miterrand, Betino Craxi e outros bem conhecidos – todos de esquerda quando perdem o prestígio eleitoral. São os tais amigos que dispensam os inimigos.
As pressões e as contradições se avolumam em torno de um governo que é popular e que, ao romper com o velho poder elitista, vai beneficiar também os empresários que estão afogados pelo imperialismo e ampliar um grande mercado de consumo que enche os olhos da Europa cada vez mais controlada pelos Estados Unidos. Não se pode assistir calado ao envolvimento que fazem do governo Lula. Se os cidadãos que o elegeram e apoiam o seu programa de Governo não manifestarem construtivamente as suas opiniões, prevalecerá a posição dos que formam a opinião pública e divulgam as imagens pelo mundo afora. Assim, foi importante a divulgação de uma carta contra a adesão à ALCA e a autonomia do Banco Central assinada por destacadas personalidades brasileiras (Leonardo Boff, Chico Buarque, cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, Emir Sader, Oscar Niemeyer, entre outros) propondo que tais medidas não sejam tomadas sem consulta popular. É diferente de denúncias e manifestações de protesto que logo atraem e fortalecem os adversários, trata-se do reforço da participação popular.
Tais comentários, que aqui faço, parecem conselhos para crianças, mas como fazer se a doença infantil, diagnosticada por Lenin há tantas décadas, reaparece no nosso tempo? O combate preventivo pode evitar uma epidemia e dar mais tempo para que possa ser realizada a campanha contra a fome e o atraso que minam a população brasileira sob os olhos aparentemente complacentes dos defensores do neocapitalismo mundial.