O fantasma do Vietname reapareceu
Em 1991, George Bush pai, em tom profético, proclamou que o fantasma do Vietname ficara definitivamente enterrado nas areias do deserto arábico.
A profecia não se confirmou. Howard Zinn, talvez o mais lúcido historiador contemporâneo dos EUA, afirma em artigo publicado em Rebelión que o fantasma voltou a aparecer.
Transcorridos apenas doze anos, a sua presença, identificada no Afeganistão e no Iraque, tira o sono aos generais do Pentágono e começa a inquietar milhões de cidadãos nos EUA.
Corre em Cabul que numa base militar do Paquistão, próximo da fronteira afegã, oficiais do exército dos EUA se reuniram, em Junho, com dirigentes talibãs designados pelo mullah Muhamad Omar. O encontro sigiloso motivou medidas de segurança excepcionais, mas elementos da resistência afegã afirmaram posteriormente que o assunto discutido - ao que parece com pouco êxito - teria sido a possibilidade da cooperação entre o comando militar dos EUA e as forças do movimento talibã com o objectivo de combater «um inimigo comum».
A notícia difundida por agências noticiosas e correspondentes de imprensa foi até agora ignorada pelo Pentágono.
Mas parece que ela justifica o velho aforismo de que não há fumo sem fogo. Não é segredo que nos últimos meses entraram no Afeganistão clandestinamente muitos elementos do Partido Democrático Popular, que se encontravam no exílio em diferentes países da Ásia e da Europa. Alguns seriam destacados quadros políticos e militares que exerceram funções importantes no Partido e no Estado durante a Revolução Afegã.
O «inimigo comum» seriam portanto combatentes do PDP, o partido que durante os governos de Babrak Karmal e Muhamad Najibullah levou adiante no país uma revolução democrática e nacional que resistiu vitoriosamente durante mais de uma década a todas as ofensivas contra ela desencadeadas por organizações fundamentalistas como a Hesbe-i- Islami, de Hekmatyar, e a Jahmiat-Islami, de Rabani e Sha Mahsud, que receberam centenas de milhões de dólares dos EUA.
Foi somente quando a URSS se desagregou e faltaram em Cabul o pão e o petróleo que os bandos das Sete Organizações Sunitas de Peshawar entraram em Cabul, aliás sem encontrar resistência. Privado de munições, de abastecimentos e de combustível, o exército optara pela auto-dissolução. Os mujahedines não tinham conseguido tomar pelas armas qualquer capital de província.
O caos que posteriormente se implantou no país, com os bandos fundamentalistas envolvidos em sangrentas guerras fratricidas, motivou uma revisão da estratégia dos EUA para a região. Osama Ben Laden, ao tempo um aliado de confiança de Washington, desempenhou um papel importante na transferência do apoio norte-americano dos Sete de Peshawar para os Talibã, um movimento integrista fanático criado nos acampamentos da fronteira, na área das tribus pashtuns. Treinados pela Cia e pelos serviços de inteligência do Paquistão, armados e financiados pelos EUA , os seguidores do Mullah Muhamad Omar conseguiram em tempo relativamente breve derrotar adversários divididos e tomar o Poder em todo o país com a excepção de uma estreita faixa no Nordeste.
Anarquia generalizada
É natural que as notícias sobre a presença no Afeganistão de prestigiados dirigentes do PDP constitua mais um motivo de preocupação para as forças de ocupação dos EUA.
Nada está a acontecer de acordo com os planos traçados para a região. Nos últimos meses a anarquia, endémica nas zonas fronteiriças, alastrou por todo país. As tropas estrangeiras, entretanto, passaram a ser sistematicamente atacadas, sobretudo as norte-americanas.
Os porta-vozes da Casa Branca e do Pentágono atribuem os ataques à Al’Qaeda e aos Talibãs. Mas essa lengalenga não convence ninguém.
Os oficiais da chamada Força Internacional de Assistência à Segurança - ISAF, 4900 homens concentrados na capital, não escondem o seu desejo de sair daquele «inferno». Até 11 de Agosto o comando alemão-holandês continuará a assegurar uma missão proclamada como sendo de paz, mas que o povo encara como uma agressão. Essa tropa, vista como «guarda» do presidente fantoche Hamid Karzai - ex-funcionário de uma empresa petrolífera dos EUA - quase não sai, aliás, de Cabul.
No dia 11 de Agosto, a NATO assumirá o comando das forças de ocupação - o primeiro contingente já chegou - mas como a situação se degrada a cada semana, a transferência de responsabilidades vai criar problemas.
O exército afegão é ficcional; só existe no papel. Quanto aos norte-americanos, quase 12 000 homens, a sua intervenção em missões de combate é pouco frequente. Mesmo pela grande estrada do Norte, que atravessa a Cordilheira do Hindu Kuchh, e pela estada que liga Cabul a Jalalabad, somente circulam em grandes colunas, poderosamente
armadas, dentro de camiões blindados, com vidros opacos. O jornalista australiano John Pilger conta que um coronel norte-americano, na Base de Bagram - a principal do país - lhe declarou em desabafo: «Somos alvejados todos os dias e várias vezes durante o dia».
O descontrolo emocional dos soldados norte-americanos manifesta-se na repetição de matanças de civis «por engano». Motivou um inquérito a morte de quatro militares afegãos abatidos a tiro alegadamente porque foram tomados por «inimigos».
O temor de um atentado explica que a breve visita do secretário de Defesa, Rumsfeld, tenha transcorrido rodeada de secretismo. O programa não foi divulgado.
Não é de estranhar que entre o contingente alemão a morte de quatro soldados, em consequência da explosão de um carro bomba, tenha suscitado debates acalorados sobre a natureza da tarefa que cumprem no âmbito de uma política de submissão aos interesses dos EUA.
Nas principais cidades, seja em Kandahar, em Mazar-i-Charif, ou Herat, as tropas americanas não aparecem, mesmo quando há bases aéreas próximas. Quem ali põe e dispõe são os chefes tribais que mantêm exércitos pessoais.
Quase 800 norte-americanos foram abatidos desde o início da agressão.
A resistência é hoje uma realidade em muitas províncias, desde as montanhas do Bandakshan ao deserto do Seistão, dos vales de Cabul aos desfiladeiros da fronteira do Paquistão onde os ingleses no século XIX sofreram pesadas derrotas.
A essa resistência aos invasores tem faltado, contudo, organização. Não é sem motivo que Washington teme a integração na luta de quadros militares e civis do partido revolucionário que conserva um grande prestígio em amplas camadas da população. Uma guerra de tipo diferente parece esboçar-se no horizonte.
As comadres entendem-se
As notícias sobre contactos do comando norte-americano com representantes dos Talibã, a terem fundamento, confirmariam o reconhecimento tácito pelo Pentágono da sua incapacidade para controlar militarmente o país e, simultaneamente, o amoralismo da Casa Branca. Ao retomar o diálogo com os antigos aliados depois de os apresentar como terroristas e ter tentado exterminá-los, a administração Bush iluminaria, mais uma vez, o seu conceito do que seja a ética na política.
Mas não será uma surpresa se as comadres desavindas se entenderem novamente.
Outro tema embaraçoso para a Administração Americana é o da droga. Entre as acusações que antes do 11 de Setembro Washington fazia aos Talibã, uma das principais era a de que haviam transformado o Afeganistão num dos maiores centros de produção e tráfico de heroína.
Sob a ocupação dos EUA a situação piorou. Ao longo da fronteira do Paquistão, na Província de Nangrahar, intermináveis plantações da papoula do ópio ocupam as terras mais ricas do país. O Afeganistão passou a ser o primeiro produtor e exportador mundial de heroína.
A «democratização» do Iraque
No Iraque, o fantasma do Vietname também perturba o sono dos soldados do exército de ocupação.
Raro é o dia em que, pelo menos um militar norte-americano, não é abatido a tiro. Aos hospitais da Alemanha chegam em ritmo crescente dezenas de feridos. Pode-se alegar que essas perdas são ínfimas. Mas no caso o efeito psicológico é tremendo. O medo de ser o próximo alastra, torna-se obsessão entre os soldados que cumprem missões de rotina. Uma atmosfera de pânico domina o exército invasor, chega aos EUA, afecta as famílias dos militares aquartelados no Iraque, principia a preocupar o Congresso.
Bush, Rusmsfeld, Colin Powell, a esfuziante Condolezza esforçam-se por desdramatizar a situação. Garantem que tudo corre normalmente, que a «democratização» do Iraque avança e os assassinos de militares norte-americanos serão castigados. Operações punitivas são organizadas à toa, contra inimigos invisíveis. Pouco inteligente, o discurso oficial somente contribui para aprofundar a inquietação. O Presidente repete um erro cometido no Vietname. Os soldados dos EUA mortos são apresentados como vítimas, heróis incompreendidos, libertadores de um povo. Os iraquianos que, lutando pela sua gente, abatem os ocupantes são exorcizados como terroristas demoníacos.
Ainda não explicaram ao Presidente que o seu discurso não convence. Para milhões de pessoas em dezenas de países é cada vez mais transparente que os povos do Afeganistão e do Iraque iniciaram uma prolongada e difícil luta contra agressões imperiais.
É natural que o fantasma do Vietname tenha reaparecido nos EUA.
A notícia difundida por agências noticiosas e correspondentes de imprensa foi até agora ignorada pelo Pentágono.
Mas parece que ela justifica o velho aforismo de que não há fumo sem fogo. Não é segredo que nos últimos meses entraram no Afeganistão clandestinamente muitos elementos do Partido Democrático Popular, que se encontravam no exílio em diferentes países da Ásia e da Europa. Alguns seriam destacados quadros políticos e militares que exerceram funções importantes no Partido e no Estado durante a Revolução Afegã.
O «inimigo comum» seriam portanto combatentes do PDP, o partido que durante os governos de Babrak Karmal e Muhamad Najibullah levou adiante no país uma revolução democrática e nacional que resistiu vitoriosamente durante mais de uma década a todas as ofensivas contra ela desencadeadas por organizações fundamentalistas como a Hesbe-i- Islami, de Hekmatyar, e a Jahmiat-Islami, de Rabani e Sha Mahsud, que receberam centenas de milhões de dólares dos EUA.
Foi somente quando a URSS se desagregou e faltaram em Cabul o pão e o petróleo que os bandos das Sete Organizações Sunitas de Peshawar entraram em Cabul, aliás sem encontrar resistência. Privado de munições, de abastecimentos e de combustível, o exército optara pela auto-dissolução. Os mujahedines não tinham conseguido tomar pelas armas qualquer capital de província.
O caos que posteriormente se implantou no país, com os bandos fundamentalistas envolvidos em sangrentas guerras fratricidas, motivou uma revisão da estratégia dos EUA para a região. Osama Ben Laden, ao tempo um aliado de confiança de Washington, desempenhou um papel importante na transferência do apoio norte-americano dos Sete de Peshawar para os Talibã, um movimento integrista fanático criado nos acampamentos da fronteira, na área das tribus pashtuns. Treinados pela Cia e pelos serviços de inteligência do Paquistão, armados e financiados pelos EUA , os seguidores do Mullah Muhamad Omar conseguiram em tempo relativamente breve derrotar adversários divididos e tomar o Poder em todo o país com a excepção de uma estreita faixa no Nordeste.
Anarquia generalizada
É natural que as notícias sobre a presença no Afeganistão de prestigiados dirigentes do PDP constitua mais um motivo de preocupação para as forças de ocupação dos EUA.
Nada está a acontecer de acordo com os planos traçados para a região. Nos últimos meses a anarquia, endémica nas zonas fronteiriças, alastrou por todo país. As tropas estrangeiras, entretanto, passaram a ser sistematicamente atacadas, sobretudo as norte-americanas.
Os porta-vozes da Casa Branca e do Pentágono atribuem os ataques à Al’Qaeda e aos Talibãs. Mas essa lengalenga não convence ninguém.
Os oficiais da chamada Força Internacional de Assistência à Segurança - ISAF, 4900 homens concentrados na capital, não escondem o seu desejo de sair daquele «inferno». Até 11 de Agosto o comando alemão-holandês continuará a assegurar uma missão proclamada como sendo de paz, mas que o povo encara como uma agressão. Essa tropa, vista como «guarda» do presidente fantoche Hamid Karzai - ex-funcionário de uma empresa petrolífera dos EUA - quase não sai, aliás, de Cabul.
No dia 11 de Agosto, a NATO assumirá o comando das forças de ocupação - o primeiro contingente já chegou - mas como a situação se degrada a cada semana, a transferência de responsabilidades vai criar problemas.
O exército afegão é ficcional; só existe no papel. Quanto aos norte-americanos, quase 12 000 homens, a sua intervenção em missões de combate é pouco frequente. Mesmo pela grande estrada do Norte, que atravessa a Cordilheira do Hindu Kuchh, e pela estada que liga Cabul a Jalalabad, somente circulam em grandes colunas, poderosamente
armadas, dentro de camiões blindados, com vidros opacos. O jornalista australiano John Pilger conta que um coronel norte-americano, na Base de Bagram - a principal do país - lhe declarou em desabafo: «Somos alvejados todos os dias e várias vezes durante o dia».
O descontrolo emocional dos soldados norte-americanos manifesta-se na repetição de matanças de civis «por engano». Motivou um inquérito a morte de quatro militares afegãos abatidos a tiro alegadamente porque foram tomados por «inimigos».
O temor de um atentado explica que a breve visita do secretário de Defesa, Rumsfeld, tenha transcorrido rodeada de secretismo. O programa não foi divulgado.
Não é de estranhar que entre o contingente alemão a morte de quatro soldados, em consequência da explosão de um carro bomba, tenha suscitado debates acalorados sobre a natureza da tarefa que cumprem no âmbito de uma política de submissão aos interesses dos EUA.
Nas principais cidades, seja em Kandahar, em Mazar-i-Charif, ou Herat, as tropas americanas não aparecem, mesmo quando há bases aéreas próximas. Quem ali põe e dispõe são os chefes tribais que mantêm exércitos pessoais.
Quase 800 norte-americanos foram abatidos desde o início da agressão.
A resistência é hoje uma realidade em muitas províncias, desde as montanhas do Bandakshan ao deserto do Seistão, dos vales de Cabul aos desfiladeiros da fronteira do Paquistão onde os ingleses no século XIX sofreram pesadas derrotas.
A essa resistência aos invasores tem faltado, contudo, organização. Não é sem motivo que Washington teme a integração na luta de quadros militares e civis do partido revolucionário que conserva um grande prestígio em amplas camadas da população. Uma guerra de tipo diferente parece esboçar-se no horizonte.
As comadres entendem-se
As notícias sobre contactos do comando norte-americano com representantes dos Talibã, a terem fundamento, confirmariam o reconhecimento tácito pelo Pentágono da sua incapacidade para controlar militarmente o país e, simultaneamente, o amoralismo da Casa Branca. Ao retomar o diálogo com os antigos aliados depois de os apresentar como terroristas e ter tentado exterminá-los, a administração Bush iluminaria, mais uma vez, o seu conceito do que seja a ética na política.
Mas não será uma surpresa se as comadres desavindas se entenderem novamente.
Outro tema embaraçoso para a Administração Americana é o da droga. Entre as acusações que antes do 11 de Setembro Washington fazia aos Talibã, uma das principais era a de que haviam transformado o Afeganistão num dos maiores centros de produção e tráfico de heroína.
Sob a ocupação dos EUA a situação piorou. Ao longo da fronteira do Paquistão, na Província de Nangrahar, intermináveis plantações da papoula do ópio ocupam as terras mais ricas do país. O Afeganistão passou a ser o primeiro produtor e exportador mundial de heroína.
A «democratização» do Iraque
No Iraque, o fantasma do Vietname também perturba o sono dos soldados do exército de ocupação.
Raro é o dia em que, pelo menos um militar norte-americano, não é abatido a tiro. Aos hospitais da Alemanha chegam em ritmo crescente dezenas de feridos. Pode-se alegar que essas perdas são ínfimas. Mas no caso o efeito psicológico é tremendo. O medo de ser o próximo alastra, torna-se obsessão entre os soldados que cumprem missões de rotina. Uma atmosfera de pânico domina o exército invasor, chega aos EUA, afecta as famílias dos militares aquartelados no Iraque, principia a preocupar o Congresso.
Bush, Rusmsfeld, Colin Powell, a esfuziante Condolezza esforçam-se por desdramatizar a situação. Garantem que tudo corre normalmente, que a «democratização» do Iraque avança e os assassinos de militares norte-americanos serão castigados. Operações punitivas são organizadas à toa, contra inimigos invisíveis. Pouco inteligente, o discurso oficial somente contribui para aprofundar a inquietação. O Presidente repete um erro cometido no Vietname. Os soldados dos EUA mortos são apresentados como vítimas, heróis incompreendidos, libertadores de um povo. Os iraquianos que, lutando pela sua gente, abatem os ocupantes são exorcizados como terroristas demoníacos.
Ainda não explicaram ao Presidente que o seu discurso não convence. Para milhões de pessoas em dezenas de países é cada vez mais transparente que os povos do Afeganistão e do Iraque iniciaram uma prolongada e difícil luta contra agressões imperiais.
É natural que o fantasma do Vietname tenha reaparecido nos EUA.