Timor-Leste

Um ano de independência

«Este é o começo de um processo e o importante é estarmos conscientes das dificuldades», afirmou Xanana Gusmão no 1.º aniversário de Timor-Leste.

«Estamos aqui para apoiar a política nacional como pudermos»

Em entrevista à agência Lusa, o presidente timorense reconheceu as dificuldades com que o país se debate após um ano da restauração da independência, apesar dos progressos alcançados. O governo, disse, «está entre a espada e a parede», forçado a gerir as pressões internas e confrontado com a necessidade constante «de provar à comunidade internacional de que é capaz de cobrar» receitas. O apoio prestado pelos «parceiros de desenvolvimento», embora importante, está longe de cobrir as necessidades básicas do país, e os sentimentos de frustração alastram.
«Estamos independentes, somos membros da ONU, somos membros disto e daquilo, mas como é que se sobrevive?», questiona Xanana.
Segundo o presidente, num país onde a «mentalidade indonésia» ainda se sente, «na disciplina, na corrupção e na dependência do Estado», é necessário desenvolver esforços «para uma nova tomada de consciência».
«Existe ainda uma excessiva dependência do Estado. Uma situação em que todos clamam por direitos sem pensarem também nas obrigações. Quero contribuir para corrigir isto», afirmou.
Mais optimista, o responsável da ONU no país, o indiano Kamalesh Sharma, saudou os progressos alcançados pelo governo timorense, cuja actuação sempre se pautou «pelos princípios mais elevados da democracia e dos direitos humanos».

Grandes desafios

Sharma garantiu, em entrevista à Lusa, que as Nações Unidas têm a percepção de que «Timor-Leste fez progressos notáveis no estabelecimento das bases de uma nação independente», considerando «injusto estar à espera, num ano, de dividendos que noutros países demoram muitos anos a conseguir».
O substituto do brasileiro Sérgio Vieira de Mello está em funções há um ano e a sua missão (UNMISET) é essencialmente de apoio, com excepção da área de segurança, cujo comando continua nas mãos da ONU
«Estamos aqui para apoiar a política nacional como pudermos e sinto que o governo está satisfeito pois temos cumprido este papel com solidariedade, sinceridade e no melhor das nossas capacidades», afirmou o indiano.
Sharma lembrou ainda que uma missão deste tipo «enfrenta sempre grandes desafios», pelo que «fica sempre a impressão, independentemente do que se fez, que mais poderia ter sido feito».
O Conselho de Segurança das Nações Unidas renovou entretanto, por mais um ano, a força de manutenção da paz em Timor-Leste, que devia deixar o território a 20 de Maio de 2004. A resolução 1480, aprovada por unanimidade, recomenda que a força permaneça perto da fronteira com Timor Ocidental para prevenir acções das milícias pró-indonésias que continuam activas e apostadas em abalar a estabilidade do país.

Situação difícil

Segundo as agências humanitárias, cerca de 40 por cento dos timorenses vivem abaixo do limiar da pobreza, 60 por cento são analfabetos e cerca de 8 por cento das crianças morrem com menos de um ano de vida. O desemprego afecta grande parte da população.
Para Jill Jolliffe, a jornalista australiana que deu a conhecer ao mundo o drama de Timor, «há descontentamento, normal e natural, porque o Governo não pode satisfazer as necessidades das pessoas nesta altura».
Apontando como mais problemáticos os sectores da justiça, da educação e do ordenamento jurídico, a jornalista considera que a «culpa não é apenas do Governo, mas também das Nações Unidas».
Nas escolas faltam livros e professores para ensinar a língua portuguesa, por exemplo, enquanto o Parlamento Nacional vive com insuficientes recursos humanos e técnicos.
Timor-Leste declarou a independência a 20 de Maio de 2002, depois de 31 meses de administração pelas Nações Unidas e de 24 anos de ocupação indonésia. No último ano, a economia timorense contraiu-se em dois por cento e os economistas estimam que haja um novo recuo de 2,3 por cento em 2003. A esperança timorense reside actualmente na exploração do petróleo e gás do Mar de Timor.

Mensagem do PCP

Assinalando o 1.º aniversário da restauração da independência da República Democrática de Timor Leste, o CC do PCP enviou à direcção da FRETILIN uma «saudação que não esquece, pelo contrário, recorda e valoriza, a heróica luta de décadas do povo timorense contra a ocupação e a repressão, sob a direcção da FRETILIN e das FALINTIL».
A mensagem exprime ainda «os mais sinceros votos de sucessos na edificação do Estado timorense independente e soberano, pleno de democracia, desenvolvimento e justiça social», reafirmando «neste momento histórico» a « solidariedade de sempre dos comunistas portugueses para com a luta libertadora do povo de Timor Leste e com a FRETILIN».


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