Despedimento colectivo para aumentar a precariedade

Combater os despedimentos

Luís Gomes
A Alcoa está a pressionar os trabalhadores em regime de efectividade, a rescindirem os seus contratos por comum acordo, para depois contratarem para a mesma função, trabalhadores a prazo. Amanhã, deslocam-se em protesto, à residência oficial do primeiro ministro.
Para Luís Leitão, da Comissão Intersindical da Alcoa, mais do que a quebra nos lucros e na produção e à semelhança do que se passa um pouco por todo o país, este é o principal motivo que levou a administração a apresentar à Comissão Intersindical, no passado dia 5, a intenção de concretizar um despedimento colectivo de cerca de 350 trabalhadores. Para a Comissão, nada justifica este despedimento.

Uma luta que vem de trás

Com 1314 trabalhadores, a fábrica fornece à Auto-Europa cabos eléctricos. Em Janeiro passado, «começou a pressão através do que chamam rescisões por mútuo acordo», declarou ao Avante! Luís Leitão. De Janeiro a Abril, a pressão patronal levou 172 trabalhadores a rescindirem os contratos, «com ridículas indeminizações», afirma a Comissão.
Até 2001, a Alcoa chamava-se Indelma e fazia parte do Grupo Siemens. Na altura, a administração avançou com um processo que tinha em vista o despedimento de 276 trabalhadores, mas «a luta e a resistência dos trabalhadores unidos fez com que ainda cá estejam muitos desses a trabalhar», disse Luís Leitão. «Se não fosse a luta, tinham saído todos», recordou.
Para os que ficam, os «ritmos brutais de produção» são a principal preocupação nesta fábrica, de mão-de-obra essencialmente feminina. Vivem a forte probabilidade de contraírem a famosa tendinite, frequente neste tipo de trabalhos. Luís Leitão referiu-nos que esta doença «acontece com frequência em produções em cadeia onde os ritmos de produção são frenéticos e quase insuportáveis». «É por isso que existe um grande número de baixas médicas, causando graves problemas sociais devido à miséria que a Caixa paga», acrescentou.

Reponsabilizar as instituições

Em conjunto com os seus representantes, as trabalhadoras têm desenvolvido várias acções na defesa dos seus postos de trabalho. No dia seguinte ao anúncio da intenção de despedir, realizaram um corte de estrada em demonstração de protesto. Para a Comissão Intersindical, a atitude da administração «apenas demonstra a vontade da empresa de precarizar o trabalho», substituindo estes trabalhadores por contratados a prazo, «ou de aumentar ainda mais os ritmos de produção em mais 25 por cento, o que é humanamente incomportável», referiu Luís Leitão.
Desde Setembro que os ministérios do Trabalho e da Economia e a Comissão Parlamentar de Trabalho para os Assuntos Sociais têm sido alertados para a situação, mas não tiveram resposta. «É caso para perguntar que Governo é este que só pretende desregular a legislação laboral», notou o dirigente sindical.
A CM do Seixal solicitou audiências às autoridades governamentais, de quem não obteve resposta. Anteontem, a Câmara esteve reunida com a CT, manifestando a sua solidariedade com os trabalhadores. Também a Comissão Concelhia do PCP do Seixal marcou posição solidarizando-se com os trabalhadores em luta.

O papel dos comunistas

Para a mobilização das trabalhadoras da Alcoa para a defesa dos seus direitos, muito tem contribuído a célula do PCP com cerca de três dezenas de militantes. Perante a dramática situação da ameaça de despedimentos, a principal preocupação dos comunistas é a defesa e a garantia de todos os postos de trabalho.
Para Maria Irene, da célula do PCP,«Temos é que acreditar em nós mesmos e nas nossas capacidades para ultrapassarmos os problemas». «Obviamente, porque somos comunistas, acreditamos na nossa força e na nossa determinação; não acreditamos na preocupação que a administração diz ter conosco», afirmou. Apesar das pressões e discriminações das chefias por se afirmar comunista, Maria Irene considera que só pode ser esse o caminho, pois, como referiu, «cedo ou tarde, acabam por dar-nos razão», salientou.

Dois casos

Sob a ameaça de desemprego, os trabalhadores da Alcoa revelaram-nos a tristeza de não saberem como vai ser o futuro. Luís Barbosa trabalha na empresa há 14 anos. Sua mulher também lá trabalha. Não sabem como vai ser a sua vida nem o que é que a empresa vai decidir. Só tem certeza de estarem ameaçados de despedimento, juntamente com os seus colegas. Maria Eugénia Oliveira tem 11 anos de casa e cerca de 50 de idade. Está a encarar a situação com muita tristeza:«Tenho dado aqui o melhor de mim, por vezes até descurando a família, para cumprir metas e fazer horas, porque a empresa precisava de nós. Agora, vejo que a única coisa que a empresa pretende é correr comigo e com os meus colegas», referiu.


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