Greve dos ferroviários pára circulação

Adesão rondou os 90 por cento

A greve do passado dia 29 constituiu uma forte resposta dos ferroviários às posições intransigentes do Governo e das administrações da CP, Refer e EMEF.

O Governo propunha, como aumento, menos de 50 cêntimos diários

A circulação ferroviária esteve praticamente parada no passado dia 29, devido à greve dos trabalhadores da CP, Refer e EMEF. A elevada adesão dos trabalhadores à paralisação acabou mesmo por ser reconhecida pelas administrações das empresas que, nas suas afirmações, não conseguiam esconder o impacto dos protestos na circulação. Segundo responsáveis da CP, apenas 20 por cento dos comboios funcionaram. Até pelos números da administração se esteve perante uma grande greve.
Da parte do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário (SNTSF), fala-se numa adesão de 90 por cento. José Manuel Oliveira e Paulo Rodrigues, ambos da Comissão Executiva do sindicato, não comentam os números avançados pela empresa mas referem que grande parte dos poucos comboios que circularam fizeram-no ilegalmente, chegando mesmo a pôr em causa a própria segurança dos passageiros. Os dirigentes do SNTSF falam de substituição de grevistas por outros trabalhadores, nomeadamente quadros superiores, situação que é contrária à legislação. Esta substituição foi feita, muitas vezes, por pessoas sem a mínima qualificação para as funções que acabariam por desempenhar. Algumas destas funções, como a do controlo de tráfego, se mal desempenhadas, podem pôr em risco a vida dos passageiros, lembram os dirigentes sindicais. Outra das ilegalidades cometidas pela CP foi permitir a circulação de comboios de longo curso – muito poucos, é certo – sem quaisquer trabalhadores a prestar apoio aos passageiros.
De norte a sul do País, em muitas das linhas, não circulou um único comboio, como foram os casos, entre outros, das linhas do Oeste, da Lousã ou do Douro. Ocorreram também situações de comboios que saíram da estação de partida mas que não chegaram ao destino: foi o caso de um comboio que partiu da Covilhã mas que acabou por não chegar a Lisboa, ficando-se pelo Entroncamento. Comboios de mercadorias, terão funcionado três em todo o território nacional, avança Paulo Rodrigues.

Propostas inaceitáveis

Os dois dirigentes do SNTSF que falaram ao Avante! consideram que o esclarecimento e a mobilização nos locais de trabalho foi o único segredo de tamanha mobilização, num sector marcado por uma grande dispersão sindical. Paulo Rodrigues lembrou que a greve teve um grande impacto mesmo sem a adesão do Sindicato dos Maquinistas.
Para os dois sindicalistas, as razões subjacentes à greve justificam plenamente – e, em parte, explicam – a adesão verificada e a convergência conseguida entre sindicatos de diferentes sensibilidades. As administrações das três empresas, embora com algumas diferenças entre si – provocadas pela dimensão da luta travada em cada uma delas –, apresentaram, todas, propostas salariais que os trabalhadores e os seus representantes consideram inaceitáveis. Na CP e Refer, a proposta apresentada foi de aumentos de 1,5 por cento (a primeira proposta foi de 1 por cento) aos trabalhadores com salários até mil euros e zero para os outros. Na EMEF, para além da questão da revisão do acordo de empresa, há também interrogações e dúvidas relativamente ao futuro da empresa.
Todos estes factores conjugados, juntamente com um intenso trabalho de esclarecimento nas empresas realizado pelo SNTCT, levou a uma situação de grande pressão dos trabalhadores junto das direcções dos vários sindicatos para que partisse para um luta mais intensa. A greve, que chegou a estar convocada para dia 23, foi adiada para 29 devido à adesão tardia de vários sindicatos, «independentes» e da UGT.
Com tal unidade, o resultado só poderia ser o que foi: uma grande paralisação, com forte impacto no normal funcionamento da empresa, que nem as centenas de autocarros postos a circular pela CP – só em Lisboa e Porto foram cerca de 300 – conseguiram inverter. Com o dinheiro gasto no aluguer dos veículos, resolviam-se alguns problemas aos trabalhadores, ironizou Paulo Rodrigues.


Mais artigos de: Trabalhadores

Direitos não se retiram

Os trabalhadores do Metro do Porto estiveram, na passada terça-feira, em greve e rumaram a Lisboa, onde se concentraram junto à residência oficial do primeiro-ministro, em protesto contra a perda de direitos provocada pela sua transferência da CP e Refer. De acordo com o estipulado no decreto-lei de criação da empresa,...

Defender os CTT

Se não for invertida a política seguida nos CTT, que prejudica o serviço público e ameaça a própria empresa, o sindicato avança com nova greve.

Melhores salários e condições

Os trabalhadores das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e das Misericórdias vão estar concentrados junto ao Ministério do Trabalho no próximo dia 16 de Maio, após um plenário nacional de dirigentes, delegados e activistas sindicais. Os trabalhadores exigem melhores condições de trabalho, carreiras...

ASPP/PSP promove vigílias

A Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) decidiu, no passado dia 30, após reunião da sua direcção nacional, realizar vigílias nas principais cidades do País. O objectivo é exigir do Governo soluções para os problemas que afectam os profissionais do sector. Até agora, acusa a associação sindical, nem...

Travar a deslocalização

Os trabalhadores da Yazaki Saltano, multinacional japonesa fabricante de componentes eléctricos para automóveis, sediada em Vila Nova de Gaia, estão preocupados com a possibilidade de a empresa estar a deslocalizar sectores da produção. Numa moção aprovada num plenário de empresa realizado nos finais de Abril, os...

Repor a legalidade no 24 Horas

O Sindicato dos Jornalistas quer que a Subcomissão de Direitos Fundamentais e Comunicação Social da Assembleia da República intervenha para acabar com o isolamento com que a direcção do diário 24 Horas pune quatro jornalistas que não aceitam as propostas de rescisão de contrato feitas pela empresa. Estes jornalistas...

Protestos na Alcoa

Centenas de trabalhadores da Alcoa (ex-Indelma) cortaram terça-feira a circulação rodoviária na estrada frente às instalações da fábrica, no Casal do Marco, Seixal, em protesto contra a ameaça de despedimento colectivo de 350 trabalhadores, formalizada na semana passada pela administração.Um dirigente do Sindicato das...

Contra mais um lay-off na Rohde

Uma manifestação com cerca de 700 trabalhadores teve lugar ao fim da manhã de anteontem, em Santa Maria da Feira, desde as instalações da fábrica de calçado Rohde, até aos Paços do Concelho, para protestar contra a imposição da suspensão dos contratos de trabalho (lay-off) à totalidade do pessoal ao serviço da...