Observações sobre a Obra Inédita
Vasco de Magalhães-Vilhena deixou em 1993 um espólio literário notável que começou a ser inventariado por Eduardo Chitas e Hernâni Resende no início de 1997. Em Junho desse ano, ambos apresentaram um Relatório sobre a Obra do Prof. Doutor Vasco de Magalhães-Vilhena à Fundação Calouste Gulbenkian.
Aí se destacava que os trabalhos inéditos daquele filósofo não eram mero apêndice da obra publicada, «mas formavam com ela um todo, sendo os mesmos os campos de problemática, o estilo de trabalho, a relevância nacional e internacional».
Das propostas editoriais avançadas no Relatório, a Fundação Calouste Gulbenkian (através do Serviço de Educação, dirigido então pelo Prof. Doutor José Vitorino de Pina Martins) reteve para publicação na «Colecção Universitária» um conjunto de textos inéditos sobre o pensamento filosófico da Antiguidade. O seu tratamento científico ficou a cargo de H. Resende que em 1999 iniciou o trabalho de ordenação, fixação e tradução dos originais franceses acompanhados do necessário aparelho crítico. A colectânea – intitulada Estudos Inéditos de Filosofia Antiga – encontra-se hoje pronta para publicação em tradução portuguesa, com uma Introdução da autoria dos dois signatários do Relatório de 1997. Neste conjunto de trabalhos, efectuados segundo perspectivas disciplinares diversas (história da filosofia, sociologia do conhecimento, história social das ideias), o leitor redescobre imediatamente «a acribia do minutissimus scrutator» – do investigador minuciosíssimo – de Antigos e Modernos «que fazem de Magalhães-Vilhena uma referência obrigatória da investigação presente e futura em áreas de junção das ciências da sociedade, da crítica de ideias e do pensamento filosófico».
A obra compõe-se de quatro trabalhos de proporções variáveis e de quinze de pequenas dimensões (por vezes simples fragmentos). Dos trabalhos maiores – três têm uma estreita relação temática com as duas teses de doutoramento de Estado sobre Sócrates, defendidas em 1949 na Sorbonne, em Paris, e publicadas em 1952. São eles: Sobre a Segunda Hipótese do «Parménides» e as Origens da Dialéctica Hegeliana. Ensaio sobre a Pré-História da Dialéctica Materialista, de 1947; Platão, Aristófanes e o Sócrates Histórico (1948-1966); Platão e as Incidências Sociais do Platonismo (1948. 1950/60). O quarto trabalho, intitulado A Lógica, a Ciência e a Técnica na Antiguidade (1962-67), pertence a outro ciclo de investigações de Magalhães-Vilhena centrado nas noções de ciência, técnica, progresso e tempo na Antiguidade – ciclo que se iniciou em 1961 com o escrito Progrès technique et blocage social dans la Cité antique (in Quel avenir attend l’homme ? Paris, P.U.F.) e que continuou até 1990 com uma série de estudos cuja relevância internacional levou a que alguns fossem traduzidos noutras línguas a partir dos originais franceses.
Aqui termina a colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian.
Em 2000, a tentativa de continuar a edição da obra póstuma de Magalhães-Vilhena gorou-se por falta de meios financeiros do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, a quem E. Chitas e H. Resende haviam submetido em 1999 um projecto plurianual de Edição crítica de Textos Inéditos do Prof. Doutor Vasco de Magalhães-Vilhena, inicialmente aprovado.
Finalmente, a cátedra A Razão, do departamento de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, criada com o concurso da Fundação Internacional Racionalista, disponibilizou-se em 2003 a subsidiar o tratamento para publicação de um dos mais importantes trabalhos inéditos do espólio literário de Magalhães-Vilhena: António Sérgio. O Idealismo crítico: Génese e estrutura. Raízes Gnoseológicas e Sociais. Estudo de História social das Ideias.
Trata-se de uma obra monumental, inventariada por H. Resende no Relatório de 1997, com largas centenas de folhas dactilografadas, mas também autógrafas e manuscritas, que «começou a ser escrita imediatamente a seguir à publicação de António Sérgio. O Idealismo Crítico e a Crise da Ideologia Burguesa, Lisboa, ed. Seara Nova, 1964»; a sua redacção prolongou-se com intermitências quase até à morte de Magalhães-Vilhena. «Obra de uma vida e obra de maturidade, esta investigação – sem cuja publicação a cultura crítica filosófica ficaria mais pobre – tem como suporte teórico uma súmula rigorosa de aspectos fundamentais do pensamento europeu e português de finais do séc. XIX até meados do séc. XX, que fazem dela um instrumento imprescindível para a compreensão do pensamento contemporâneo».