«Always on» ou «always off»?
Um amigo meu a dizer-me, Então tu andas sempre a contar-nos essas maravilhas do novo mundo das comunicações electrónicas, com esse ar meio deslumbrado, que me parece um bom pedaço deslocado das realidades, e logo quando ligo para o teu telemóvel não me atendes a chamada, qual always on (1) qual carapuça, estás mas é never on (2)! Eu, «mau pagador», a tentar explicar-lhe, Bem, quando estou numa reunião, programo o meu telemóvel para modo silencioso e, por vezes, não me apercebo das chamadas visto não haver sinal sonoro, aliás naquela altura, ali, nem o poderia atender, nem tão pouco poderia abandonar a minha reunião, estás a ver?
O meu amigo a voltar à carga, Mas depois telefonei suficientemente tarde para tua casa, isto é, para o teu telemóvel, pensando que aí estarias e já não terias o problema de estares nalguma das tuas quase permanentes reuniões, e nada, telemóvel desligado, pois, acto contínuo: «o número de telemóvel que ligou não está disponível» e o convite para deixar uma mensagem de voice mail, é verdade que o telemóvel não estava ligado, senão a única diferença era tocar, tocar, esperar que atendesses e, por fim, ouvir a mesma lenga-lenga: «o número de telemóvel que ligou não está disponível». E, claro, o convite para deixar uma mensagem de voice mail.
(O voice mail é um serviço de mensagens orais bastante divulgado, tanto em conjunção com o serviço telefónico móvel como com o fixo. As mensagens são gravadas e deixadas na caixa electrónica respectiva. Portanto, trata-se de um meio de comunicação offline, ou seja, de um modo de comunicar em diferido - o Outro, de facto, nunca estando lá, tanto na altura de criação da mensagem como quando destinatário a ouve, no primeiro tempo destes dois tempos estando ausente o destinatário e no segundo o criador da mensagem. Na maioria dos casos, o voice mail é empregue com o objectivo de conseguir a comunicação online dos correspondentes.)
O meu amigo, ainda, Pois é, e deixei a mensagem na tu caixa de voice mail, e tu nada, sem reacção, o tempo foi-se passando e passou também o tempo da oportunidade para o que eu pretendia tratar contigo. Eu, do meu lado, pois claro, a tentar, timidamente (?), esboçar um contra-ataque: É que estava sem bateria, ou melhor a bateria do meu terminal estava descarregada, sou um desleixado; pus o terminal a carregar, ou antes procurei por o telemónel a carregar a bateria e nada, se calhar era o carregador que estava avariado, mas, afinal porque é que não ligaste através da linha fixa, só esteve ocupada por uns momentos…
Já sei, continuei eu, se calhar logo na primeira tentativa através da linha fixa, ao encontrá-la ocupada, pensaste que os miúdos estavam na Internet e que nunca mais a iam deixar… pois é, quando se põem naquelas conversas escritas nunca mais param, é uma dificuldade para convencê-los a desligarem-se e a irem deitar-se… esqueceste que o acesso lá de casa à Internet se faz agora em banda larga e que o seu funcionamento já não interfere com a linha telefónica fixa - eu a simular ainda que o ajudava a justificar a sua falta de lembrança e, ao mesmo tempo, a mostrar que estava à moda com as últimas possibilidades da tecnologia…
(Na verdade o autor-narrador do presente texto começa a ter a sensação de já estar a ultrapassar os limites de um razoável asneiramento. Com efeito, por onde ele se move no dia a dia a maioria das pessoas já há algum tempo se passaram com armas e bagagens para a tal banda larga, always on ela também, porque já deixou de ser necessária - pensa ele - a ligação própria da Idade da Pedra, materializada através da ligação telefónica… Pois é, cá está a arrogância de quem pensa que os outros serão poucos e pouco significativos, e mais, que é um facto adquirido disporem todos em sua casa, e como regra utilizarem-na, de uma ligação à Internet.)
O meu amigo - voltando agora à nossa história - é que, menos caído no lado da insatisfação do que no da angústia, acabou por se abrir ao que lhe ia pela alma: Afinal, contraditoriamente, parecia ter o always on, tal como se materializa no telemóvel, a mesma função de filtro de chamadas e de obstrução à busca de contacto indesejado que tem o apoio de secretariado no posto de trabalho; e, hoje em dia, com certas pessoas, a não ser que se esteja na «lista de atendimento», torna-se virtualmente impossível a abordagem! É. Agora, com o telemóvel, sob a capa da comunicabilidade, parece estender-se ainda mais o manto da incomunicabilidade.
O meu amigo finalmente tinha-me encontrado casualmente na rua e pôde desabafar comigo ou, melhor, contra mim e, através de mim, a propósito destas modernices do always on…
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(1) Sempre ligado
(2) Nunca ligado